Nos últimos anos, poucas palavras entraram tão rapidamente no vocabulário das famílias portuguesas como a Euribor. Durante muito tempo foi um conceito praticamente reservado aos economistas, aos mercados financeiros e aos profissionais da banca. Hoje, surge regularmente nas notícias, nas conversas entre amigos e, sobretudo, nas preocupações de quem tem crédito à habitação.
Apesar disso, continua a existir alguma confusão sobre o que é realmente a Euribor, como é calculada e por que razão tem um impacto tão direto na prestação da casa. E essa falta de compreensão pode levar muitas famílias a serem surpreendidas por alterações que, embora tenham origem nos mercados financeiros europeus e nas negociações entre os bancos, acabam por se refletir diretamente no orçamento mensal.
Compreender a Euribor não é um exercício académico. É compreender uma das variáveis que mais influencia o custo do crédito à habitação em Portugal.
Afinal, o que é a Euribor?
De forma simples, a Euribor (Euro Interbank OfferedRate) corresponde à taxa média pela qual um conjunto de grandes bancos europeus está disposto a emprestar dinheiro entre si. Todos os dias úteis são recolhidas as taxas praticadas por essas instituições e calculada uma média, dando origem às várias Euribor publicadas para diferentes prazos.
É precisamente aqui que surge um aspeto que muitas pessoas desconhecem: não existe apenas uma Euribor. Existem várias maturidades, isto é, vários prazos para os quais a taxa é calculada. No crédito à habitação em Portugal são utilizadas sobretudo três:• Euribor a 3 meses – revisão trimestral da prestação; • Euribor a 6 meses – revisão semestral da prestação; • Euribor a 12 meses – revisão anual da prestação.
Atualmente, nos novos contratos de crédito à habitação, as instituições financeiras recorrem maioritariamente às maturidades de 6 e 12 meses.
A maturidade escolhida é importante porque determina a frequência com que a prestação pode ser atualizada. Um contrato indexado à Euribor a 3 meses acompanha mais rapidamente as oscilações do mercado, tanto quando as taxas sobem como quando descem. Já um contrato associado à Euribor a 12 meses proporciona maior estabilidade ao longo do ano, mas demora mais tempo a refletir eventuais reduções das taxas de juro.
Nenhuma destas soluções é, por definição, melhor ou pior. São simplesmente formas diferentes de distribuir o impacto das variações das taxas ao longo do tempo.
Como é determinada a taxa aplicável ao crédito?
Outra dúvida frequente prende-se com a forma como o banco calcula a nova taxa na data da revisão. Muitas pessoas acreditam que a instituição financeira utiliza a Euribor do próprio dia da revisão. Na realidade, o processo é diferente.
Nos contratos de crédito à habitação, a taxa utilizada resulta normalmente da média mensal (do mês anterior) da Euribor correspondente à maturidade contratada. Essa média é apurada durante o mês de referência previsto contratualmente e passa a servir de base para o período seguinte.
Por exemplo, num crédito indexado à Euribor a 6 meses, cuja revisão ocorre em julho, o banco utilizará a média da Euribor a 6 meses apurada no mês definido contratualmente para recalcular a taxa aplicável. Essa nova taxa ficará em vigor durante os seis meses seguintes, independentemente das oscilações diárias que ocorram entretanto nos mercados. Ou seja, embora a Euribor seja publicada diariamente, o que conta para o cálculo da prestação é a média considerada na data da revisão.
Euribor e spread: os dois componentes da taxa do crédito
Para perceber o impacto da Euribor na prestação, é importante compreender que a taxa aplicada ao crédito resulta da combinação de dois elementos distintos.
Por um lado, existe a Euribor, que varia ao longo do tempo em função das condições dos mercados financeiros. Por outro existe o spread, que corresponde à margem comercial definida pelo banco e acordada com o cliente no momento da contratação.
A taxa aplicada ao crédito resulta da soma destes dois componentes:
Taxa do crédito = Euribor + Spread
Imaginemos um contrato com:• Euribor a 6 meses: 2,50% • Spread: 0,80%
Neste caso, a taxa aplicada ao crédito será de 3,30 por cento.
Se, na revisão seguinte, a Euribor subir para 3,00%, a taxa passará para 3,80 por cento. Se descer para 2,00%, a taxa aplicada passará para 2,80 por cento.
O spread mantém-se inalterado; o que varia é a componente Euribor. É precisamente por isso que a prestação de um crédito com taxa variável sobe ou desce ao longo da vida do contrato.
O impacto na prática: um exemplo concreto
Os números ajudam a perceber melhor esta realidade. Imagine-se um crédito à habitação com um capital em dívida de 200.000 euros, prazo remanescente de 30 anos e spread de 0,80 por cento.
Se a Euribor utilizada na revisão aumentar 0,50 pontos percentuais, o impacto na prestação poderá facilmente traduzir-se em várias dezenas de euros por mês. Dependendo do prazo remanescente e do capital em dívida, esse aumento pode representar mais de 500 euros por ano no orçamento familiar.
Para um crédito de 300.000 euros, o impacto será naturalmente superior. Já para um financiamento de menor dimensão, o efeito será mais reduzido.
O que importa reter é que pequenas variações na Euribor podem produzir efeitos significativos quando aplicadas a montantes elevados e durante muitos anos.
É precisamente por isso que milhares de famílias sentiram de forma tão evidente o ciclo de subida das taxas de juro que ocorreu nos últimos anos.
O que pode ser feito quando as taxas mudam?
Uma das conclusões erradas que por vezes surge é a ideia de que, por não ser possível controlar a Euribor, também não existe qualquer margem de atuação.
Não é bem assim. É verdade que a Euribor é determinada pelos mercados financeiros e não pode ser negociada individualmente. No entanto, isso não significa que o contrato de crédito tenha de permanecer inalterado ao longo dos anos.
Existem situações em que pode fazer sentido analisar alternativas, seja através da renegociação de condições junto da instituição financeira atual, seja através da transferência do crédito para outro banco.
Em alguns casos, o foco pode estar na redução do spread. Noutros, pode passar pela revisão dos seguros associados ao crédito, que muitas vezes representam uma parcela relevante do encargo mensal.
Mas existe também outra possibilidade que ganhou particular relevância nos últimos anos: a alteração do tipo de taxa.
Ter finanças com cabeça…
Ter finanças com cabeça não significa acompanhar diariamente a evolução da Euribor nem tentar adivinhar o comportamento futuro dos mercados financeiros. Significa compreender os mecanismos que influenciam o valor da prestação da casa e perceber de que forma esses mecanismos afetam o orçamento familiar.
Significa saber qual a maturidade associada ao seu contrato, quando ocorre a próxima revisão e como é calculada a taxa que irá determinar a prestação dos meses seguintes. Significa compreender que a prestação não depende apenas da Euribor, mas também do spread contratado e das opções que foram feitas no momento da contratação do crédito.
Porque quanto maior for o conhecimento sobre estes conceitos, menor será a probabilidade de ser surpreendido por alterações que, apesar de externas, têm consequências muito concretas na vida financeira de cada família.
Na próxima semana, vamos aprofundar precisamente uma das decisões mais relevantes no crédito à habitação: a escolha entre taxa variável, taxa mista e taxa fixa.
Porque, mais do que escolher uma prestação mensal, essa decisão representa uma escolha entre previsibilidade, flexibilidade e exposição ao risco. E perceber as diferenças pode fazer toda a diferença nos próximos anos.
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