“Vivemos o maior paradoxo da história da imagem. Cada um de nós traz no bolso uma câmara melhor do que aquelas com que se fizeram filmes inteiros… e, ao mesmo tempo, nunca documentámos tão pouco aquilo que os nossos filhos realmente foram. Temos a galeria cheia e o álbum vazio”, diz Ricardo Silva, fundador da Tales of Light, um projeto dedicado à “fotografia de família com intenção e consciência”, baseado no Porto.
Isto porque, prossegue, entre as milhares de fotografias que guardamos – do primeiro aniversário ao primeiro dia de escola – “falta lá quase tudo”. E passa a explicar: “Falta a terça-feira vulgar, o pequeno-almoço de pijama, a cara de concentração de quem tenta apertar um atacador pela primeira vez, o tédio de uma tarde de chuva à janela, a birra e a reconciliação que vem a seguir”.

“Falta, em suma, a vida!”, resume, lembrando que “a vida de uma criança não é feita dos picos que fotografamos, mas das centenas de dias comuns que deixamos passar sem registo”. Por outras palavras, não são as imagens (encenadas) da criança “apresentável, a sorrir para a câmara” que fazem história. E interroga: “Que tipo de memoria estamos a guardar para os nossos filhos?”.
Ricardo Silva, criador do programa de workshops “Captar com Intenção” e da Tribo da Luz, uma comunidade de pais que fotografam “com presença e propósito”, conclui: “Não se trata de fazer fotos perfeitas. Trata-se de estar presente nos momentos que importam”, resume. Um objetivo que assume agora como “missão” e para a qual dá 7 dicas:
- Disparo único. Quando levantar a câmara, tire só uma fotografia. Sem rajada, sem “deixa tirar mais uma”. Parece uma limitação, mas é precisamente o contrário: obriga-nos a olhar antes de carregar. A esperar o instante em vez de o caçar a metralhar. Quem dispara cem vezes espera a sorte e acaso. Quem dispara apenas uma, observou antes de o fazer.
- Pare de dizer “olha para aqui” e “sorri”. No segundo em que o faz, mata o que queria guardar. O sorriso de encomenda não é o seu filho, é a obediência do seu filho. Treine-se para ser invisível: fotografe de lado, de longe, a meio de uma frase deles.
- Fotografe o “depois”, não o “durante”. Toda a gente fotografa o bolo a ser soprado. Ninguém fotografa a criança exausta a dormir ainda de fato de festa, o chão coberto de papel de embrulho, a cara lambuzada cinco minutos depois. O auge é o cliché; o rescaldo é onde mora a verdade do dia. Vire a câmara para onde os outros já a baixaram.
- Registe o tédio e o intervalo. A infância não é feita de picos, mas de dias comuns. A criança à janela numa tarde de chuva, a espera na paragem do autocarro, o pequeno-almoço de pijama, o olhar perdido a meio de nada… São os momentos que parecem não valer a pena fotografar, aqueles que documentam o ordinário com a seriedade com que os outros documentam o extraordinário.
5. Fotografe o seu ponto de vista e a escala. Quase todas as fotos de pais são frontais, a cara da criança a olhar para a câmara. Falta a sua perspetiva: a mão dele dentro da sua, o sapatinho ao lado do seu sapato, a cabeça que mal lhe chega à anca. A escala é a única coisa que não consegue reconstruir mais tarde e vai esquecer-se de quão pequenos eles foram.
6. Escreva uma frase por fotografia. Fotografia quer dizer escrever com luz. Leve isso à letra. Junte a cada imagem que importa uma linha com aquilo que a imagem não mostra: o que ela disse nesse instante, o cheiro da cozinha, o que aconteceu a seguir. Daqui a vinte anos a foto é muda sem essas palavras. É o que transforma a galeria cheia num álbum verdadeiro, e o “presente enviado para o futuro” chega com um bilhete.
7. Fotografe também o difícil. A birra, o choro antes de adormecer, o dia de febre no sofá. Não para humilhar, não para publicar, mas sim para o arquivo privado da família. Os seus filhos não vão precisar de provas de que foram sempre felizes, mas vão precisar de saber que foram vistos inteiros e que alguém os achou dignos de serem olhados mesmo quando não estavam a sorrir.
A fotografar crianças e famílias há 13 anos sem poses forçadas nem cenários artificiais, Ricardo Silva propõe-se agora, através de uma palestra (gratuita), “ensinar” pais, educadores e “qualquer outra pessoa interessada em fotografia de família e parentalidade consciente” a fazer um trabalho “centrado na emoção e na espontaneidade”.
“A Infância que Ninguém Fotografa” é uma palestra de 30 a 40 minutos (com projeção de imagens e sem componente prática) onde Ricardo Silva convida a olhar para a fotografia “não como técnica, mas como prática de presença”. Uma conversa para “todos os pais que querem olhar o mundo de forma um bocadinho diferente” e que é também “uma forma de abrandar, de observar, de estar verdadeiramente atento à vida que está a acontecer à nossa volta”. Mais. Uma reflexão sobre “o que significa estar presente na infância dos nossos filhos, sobre o legado visual que estamos (ou não) a construir e sobre como uma simples fotografia pode transformar a forma como vivemos o dia-a-dia em família”
Palestra
Duração: 30 a 40 minutos + 15 minutos para perguntas (opcional)
Público-alvo: Pais, mães, educadores, e qualquer pessoa interessada em fotografia de família e parentalidade consciente
Formato: Palestra com projeção de imagens. Sem componente prática
Requisitos técnicos: Projetor/ecrã, sistema de som, e microfone (para salas maiores)
Dimensão: Adaptável a grupos de 15 a 200 pessoas
Língua: Português (disponível em inglês mediante pedido)
Contactos
Email: info@talesoflight.pt
Instagram: @talesoflight_by_ricardo
Website: www.talesoflight.pt
Informações práticas