Cristiano Ronaldo começou por ser um futebolista, tornou-se símbolo nacional e acabou transformado num teste de patriotismo. Jorge Jesus passou de selecionador competente a inimigo público para uns e resistente à monarquia CR7 para outros. Quando uma discussão de futebol chega aos outdoors da Segunda Circular, a outros pontos da cidade e arredores, e o primeiro-ministro telefona aos protagonistas, talvez o problema já não seja quem devia ter jogado contra a Noruega. É a assustadora facilidade com que transformámos opiniões em identidades, adversários em inimigos e as redes sociais numa gigantesca máquina de escolher lados.
Acordámos uma manhã e Cristiano Ronaldo — ou uma péssima imagem dele gerada por IA — tinha vinte metros de altura. Estava na Segunda Circular e em outros pontos da cidade, mão no peito, camisola de Portugal, bandeira nacional e um estádio inteiro atrás dele, naquele género de composição visual normalmente reservado a chefes de Estado, candidatos a primeiro-ministro ou filmes de super-heróis. Ao lado, Jorge Jesus — noutra péssima imagem em que está apenas vagamente parecido com o próprio — aparecia a preto e branco, cabisbaixo, com o ar de quem já tinha sido julgado, condenado e estava apenas à espera de saber em que estabelecimento prisional iria cumprir pena. “OBRIGADO CRISTIANO RONALDO”, dizia o cartaz. “Serás sempre o nosso capitão.” Do lado de Jesus, três cruzes vermelhas e a acusação: falta de sensibilidade, tratamento errado do capitão e “ego inflamado”. Nem o Ministério Público costuma precisar de tanto espaço para sustentar uma investigação; basta-lhe um parágrafo, uma denúncia anónima, mas não vamos por aí. Os outdoors apareceram em Lisboa e Oeiras na sequência da crise entre Ronaldo e o selecionador nacional, dois deles na Segunda Circular e outro junto à Cidade do Futebol. Entretanto, o autor, Fernando Maia, empresário do setor dos outdoors, assumiu a iniciativa e explicou que a pagou do próprio bolso, por “gratidão” a Ronaldo e sem qualquer ligação ao jogador ou à sua equipa. A operação custou-lhe cerca de 1900 euros e Maia já admite levar a campanha até ao Porto, ao jogo de domingo no Dragão. Há quem escreva cartas ao diretor, quem publique no Facebook, quem telefone para os programas da manhã e quem, tendo outros recursos, alugue vinte metros de lona numa das principais artérias da capital. A democracia também é isto. O problema não está propriamente no cartaz. Está no facto de o compreendermos tão bem. Porque aquele outdoor é talvez a imagem mais perfeita do nosso tempo: uma caixa de comentários que ganhou existência física.
Quando Ronaldo deixou de ser apenas Ronaldo
Convém começar pelo princípio. Cristiano Ronaldo não é um futebolista qualquer e fingir que é seria tão absurdo como defender que Eusébio foi apenas um senhor que marcava golos. Ronaldo é, provavelmente, a personalidade portuguesa contemporânea mais reconhecida no mundo, marcou uma geração, bateu recordes que pareciam impossíveis, deu à Seleção uma dimensão internacional inédita e participou nas maiores conquistas da história do futebol português. Em muitos lugares do mundo continua a acontecer aquela pequena experiência nacional de dizermos “Portugal” e ouvirmos imediatamente “Cristiano Ronaldo”. Isso conta. É soft power, notoriedade, memória coletiva e também orgulho. O próprio ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, entrou, entretanto, na conversa para dizer que Ronaldo tem “um impacto enorme” na projeção internacional e chegou a chamar-lhe “a empresa mais conhecida de Portugal”. Estamos, portanto, num território fascinante em que já nem sabemos muito bem se Ronaldo é futebolista, instituição, marca, multinacional ou património imaterial da humanidade. Mas daí até à canonização vai a distância entre um jogador extraordinário e Nossa Senhora de Fátima, que não lhe fica atrás e, que eu saiba, não tem conta no Instagram.
Ronaldo construiu a maior parte da carreira fora de Portugal e construiu-a, antes de mais, para si próprio, como qualquer profissional. Não tem nenhuma dívida por isso e nós também não precisamos de inventar uma. Ao mesmo tempo, seria injusto reduzir aquilo que deu ao País a golos e fotografias de turistas: a projeção internacional é real e existem atualmente empresas, negócios e investimentos seus em Portugal. A questão interessante é outra: quando é que a gratidão se transforma em obrigação? Podemos considerar Cristiano Ronaldo o maior futebolista português de sempre e achar que nenhum jogador tem direito vitalício a jogar pela Seleção. Podemos reconhecer que Jorge Jesus geriu mal uma situação e admitir simultaneamente que é ao selecionador que compete escolher a equipa. Podemos achar que deixar Ronaldo a aquecer demasiado tempo foi desnecessário e considerar que abandonar uma concentração é uma resposta excessiva. Podemos agradecer-lhe tudo o que fez pela Seleção sem lhe entregar a escritura da Seleção. Só que o “e” está a desaparecer da discussão pública. Agora prefere-se o “ou”: ou Ronaldo ou Jesus, ou herói ou vilão, ou gratidão ou ingratidão, ou estás comigo ou estás contra mim. E isso já não é futebol. É polarização. E está a tornar-se perigoso.
Antigamente discutíamos, agora pertencemos
Durante décadas discutimos futebol no café e, olhando retrospetivamente, talvez o café tenha sido uma das instituições democráticas mais sofisticadas que inventámos. Mas discutíamos também no emprego, à segunda-feira, mandando umas bocas uns aos outros, quase sempre a propósito da velha guerra entre os “três grandes”: Benfica, Sporting e Porto. Não me lembro de se discutir assim por causa da Seleção Nacional. Um benfiquista dizia uma enormidade, o sportinguista respondia com outra, o portista acrescentava uma terceira ainda mais improvável, alguém chamava incompetente ao árbitro e, cinco minutos depois, pedia-se ao empregado do café outra imperial. Ninguém precisava de deixar de seguir ninguém porque não existia botão para bloquear o homem da mesa ao lado. As redes sociais mudaram sobretudo isto: transformaram a opinião numa forma de pertença. Já não basta achar uma coisa. Preciso de encontrar os meus. E, depois de encontrar os meus, preciso dos outros para saber quem sou. A discussão passa então a obedecer à velha mecânica tribal: nós e eles. Os nossos têm razões; os deles têm interesses. Nós cometemos erros; eles revelam o caráter. Quando alguém do nosso lado exagera, estava emocionalmente envolvido; quando alguém do outro lado faz exatamente o mesmo, fica finalmente demonstrado aquilo que sempre dissemos sobre aquela gente.
É aqui que Ronaldo se torna uma figura fascinante e, ao mesmo tempo, potencialmente perigosa enquanto fenómeno de opinião pública. A sua dimensão é tão grande que deixou há muito de ser apenas um atleta. Para alguns, criticá-lo é quase criticar Portugal; para outros, defendê-lo tornou-se sinal de submissão a um culto da personalidade. E quando uma pessoa deixa de ser apenas uma pessoa e passa a representar uma identidade, qualquer discussão sobre ela transforma-se numa discussão sobre nós próprios. Já não se debate simplesmente se devia ter jogado, se Jesus esteve bem ou mal ou se Ronaldo devia ter abandonado Copenhaga. Debate-se gratidão, patriotismo, autoridade, ego, respeito e Portugal. O jogador saiu do estágio, Jesus e Pedro Proença ainda tentaram demovê-lo, e a crise chegou ao ponto de o primeiro-ministro, Luís Montenegro — que parece não ter mais nada em que pensar nem que fazer —, contactar Ronaldo, Jorge Jesus e o presidente da FPF. Foi assim que o futebol encontrou a política. E da bancada para o Parlamento, pelos vistos, são dez minutos.
A política percebeu há muito o mesmo mecanismo. Naturalmente que esquerda e direita sempre discordaram e ainda bem. Uma democracia sem conflito político seria uma reunião de amigalhaços ou do clube lá do bairro, onde todos concordassem com a administração, situação hoje suficientemente suspeita para justificar imediatamente uma auditoria. O problema contemporâneo não é discordarmos mais. É gostarmos menos de quem discorda de nós. A divergência transforma-se em identidade moral e o adversário deixa de estar simplesmente errado: passa a ser burro, corrupto, fascista, comunista, woke, reacionário, vendido, traidor ou membro de qualquer outra categoria suficientemente desagradável para nos poupar ao incómodo de ouvir aquilo que efetivamente disse. A política transforma-se progressivamente num dérbi em que já conhecemos o resultado antes de o jogo começar porque, evidentemente, o árbitro já está comprado.
O algoritmo, em primeiro lugar, somos nós
As redes sociais encontraram neste comportamento humano um negócio extraordinário. Não inventaram o tribalismo — Alexandre, César, Napoleão e o senhor que discute comigo no café já o conheciam bastante bem —, mas deram-lhe velocidade industrial, alcance planetário e um sistema permanente de recompensa. A investigação recente aconselha, aliás, prudência perante a explicação demasiado confortável segundo a qual “os algoritmos radicalizam toda a gente”. A realidade é mais subtil e talvez mais inquietante. Um estudo publicado este ano na Nature, realizado durante oito semanas, em torno das presidenciais norte-americanas de 2024, concluiu que feeds orientados pelo engagement davam maior exposição a conteúdos políticos, emocionais, moralizados, tóxicos e, sobretudo, indignados, aumentando a perceção de animosidade entre os grupos políticos. O algoritmo não precisa sequer de me transformar num extremista. Basta convencer-me de que os outros já são extremistas.
E talvez esteja aqui a perversidade perfeita desta e de tantas outras situações. Entramos no telefone e encontramos um país permanentemente furioso; saímos à rua e o homem que supostamente pertence à tribo inimiga segura-nos a porta do elevador. A realidade é, portanto, muito mais complicada do que culpar simplesmente Zuckerberg, Musk ou meia dúzia de engenheiros de Silicon Valley, na Califórnia. O algoritmo somos também nós. Aprende aquilo que nos prende ao ecrã e, aparentemente, ficamos muito mais tempo a olhar para alguém que odiamos do que para alguém que diz sensatamente: “A questão é complexa e talvez ambos tenham alguma razão.” Experimentem pôr isto num TikTok e vejam quantos milhões de visualizações conseguem.
Os sonâmbulos agora têm Wi-Fi
Foi impossível olhar para esta pequena guerra portuguesa sem me lembrar de Os Sonâmbulos, o extraordinário livro de Christopher Clark sobre a forma como a Europa entrou na Primeira Guerra Mundial. Não porque Cristiano Ronaldo seja o arquiduque Francisco Fernando nem porque Jorge Jesus esteja a preparar o Plano Schlieffen. Convém esclarecer isto antes que alguém recorte a frase e amanhã apareça no X: “Jornalista compara CR7 à Primeira Guerra Mundial”. O que interessa em Clark é outra coisa: a dinâmica da escalada. A Europa de 1914 não acordou numa manhã coletivamente enlouquecida e decidiu suicidar-se. Clark descreve dirigentes que tomavam decisões dentro das suas próprias lógicas, reagiam às decisões dos outros, interpretavam reações como ameaças e respondiam com novas decisões que provocavam novas reações. Cada passo podia parecer racional isoladamente. O resultado coletivo tornou-se monstruosamente irracional.
É evidente que o próprio Clark recomenda prudência nas analogias históricas e rejeitou, por exemplo, uma equivalência simples entre o complexo processo de 1914 e a responsabilidade concreta da Rússia pela invasão da Ucrânia. Mas a mecânica da escalada continua perturbadoramente reconhecível. Alguém diz qualquer coisa. O outro responde. Nós reagimos à resposta. Alguém reage à nossa reação. Um comentador indigna-se, outro comenta a indignação do comentador, surge uma hashtag, aparece um vídeo, o vídeo gera um meme, a televisão noticia que “as redes sociais estão ao rubro” e, quando damos por isso, o primeiro-ministro já telefonou aos protagonistas de uma discussão que começou porque um jogador ficou no banco. É quase impossível imaginar melhor demonstração da nossa capacidade contemporânea de escalada. Com uma diferença essencial relativamente aos sonâmbulos de Clark: os nossos sonâmbulos têm Wi-Fi.
A caixa de comentários chegou à Segunda Circular
Voltemos então à Segunda Circular e ao resto, que, como de costume, tem um trânsito infernal, e olhemos bem para aquele cartaz, porque talvez um historiador do futuro o venha a considerar um objeto antropológico perfeito de 2026. O herói está a cores. O culpado, a preto e branco. O primeiro tem a mão sobre o coração; o segundo baixa a cabeça. Há bandeira, estádio, emoção, acusações, cruzes vermelhas e uma sentença. Não há dúvida, contexto, contraditório ou sequer a possibilidade de duas coisas serem simultaneamente verdadeiras. É exatamente a gramática das redes sociais, só que impressa numa lona gigantesca. Falta apenas um enorme botão no fundo: PARTILHAR. E talvez seja isso que verdadeiramente me inquieta nesta história aparentemente cómica. Não o facto de um português gostar tanto de Cristiano Ronaldo que decidiu pagar outdoors para o defender. Tem todo o direito e até há qualquer coisa de maravilhosamente portuguesa no gesto. O que assusta é reconhecermos imediatamente a linguagem: precisamos cada vez menos de convencer e cada vez mais de exibir a nossa posição. Não perguntamos “o que aconteceu?”. Perguntamos “de que lado estás?”.
Hoje é Ronaldo. Amanhã é imigração, habitação, Gaza, Ucrânia, alterações climáticas, uma eleição ou qualquer assunto que o algoritmo resolva servir-nos ao pequeno-almoço antes de termos bebido café suficiente para enfrentar a civilização. Uma democracia precisa de conflito. Precisa de esquerda e direita, Governo e oposição, conservadores e progressistas, benfiquistas e sportinguistas e até, em circunstâncias excecionais, portistas; digo isto apenas para irritar os meus amigos azuis e brancos, com quem tomo todas as cervejas do mundo. O que uma democracia não consegue suportar indefinidamente é que cada diferença seja convertida numa fronteira moral entre pessoas boas e pessoas más, porque então mudar de opinião torna-se traição, reconhecer razão ao adversário transforma-se em fraqueza, dizer “não sei”parece cobardia e aquela atividade antiga chamada compromisso passa a ser vista como capitulação. Talvez seja essa a lição involuntária destes outdoors. Cristiano Ronaldo merece a nossa admiração sem precisar da nossa submissão. Jorge Jesus pode estar errado sem precisar de ser transformado num inimigo nacional. E nós podemos discutir ambos sem exigir vinte metros de parede para provar que temos razão.
Christopher Clark chamou-lhes sonâmbulos porque avançavam sem compreender inteiramente onde os levaria a soma das suas decisões. Nós temos uma vantagem extraordinária sobre a Europa de 1914: estamos acordados. Temos jornais, televisão, Internet, smartphones, Google, Inteligência Artificial, 5G e praticamente todo o conhecimento produzido pela humanidade disponível no bolso. E, apesar disso, passamos uma parte cada vez maior dos nossos dias a escolher trincheiras. Pelo menos Portugal ainda conserva algum sentido de proporção: em 1914 mobilizavam-se exércitos; em 2026 mobilizam-se seguidores. E, quando os seguidores já não chegam, aluga-se um outdoor na Segunda Circular.