Confundindo, talvez, as suas atuais funções com as que anteriormente desempenhava, o antigo bispo das forças armadas e de segurança, sentiu necessidade de vir a público dizer algumas coisas sobre a PSP.
Primeiro, que aquela polícia dispõe de uma escola de elevado nível de preparação, reconhecida internacionalmente pela competência científica, o ISPSI, o Instituto Superior de Ciências Policiais de Segurança Interna. Segundo, que a atuação daquela força policial no terreno é sempre devidamente planeada. Terceiro, que a sua prática no terreno comporta uma “dimensão ética muito profunda”. Quarto, que “nunca a polícia usa meios que sejam desproporcionais com os fins a que se propõe.” E, finalmente, a afirmação que constitui a cereja no topo do bolo: lamentou que nos últimos tempos, tudo aquilo que envolve as forças de segurança e, concretamente, a PSP, imediatamente se transforme em facto quase político, com leitura política.”
Espera-se que o cidadão comum que ouviu tais declarações possa então colocar algumas perguntas, como: alguém acusou a PSP de incompetência na referida operação? Ou que tal ação não terá sido devidamente planeada? Ou que os agentes não tenham agido individualmente de forma ética? Já a questão da suposta proporcionalidade é muito discutível, tendo em conta os pífios resultados obtidos.
E quanto à declaração porventura mais importante de que a atuação das forças de segurança se transforma ultimamente em factos com leitura política, contém em si mesmo um problema de fundo. Ao querer condenar de forma enviesada os que criticaram a operação do Martim Moniz, Rui Valério acabou por dar um tiro no pé. É que se a mesma tivesse sido estritamente profissional nunca teria tido uma leitura política. Mas acontece que o primeiro-ministro veio a correr dar-lhe total cobertura, depois de há dias ter aparecido em horário nobre nas televisões, com os chefes das forças de segurança atrás de si, a sugerir que o governo as comanda. Segundo Leitão Amaro, “Esta operação, chamada por alguns de megaoperação policial no Martim Moniz, é apenas uma. Temos várias calendarizadas e demos instruções às forças de segurança para continuarem a fazer este trabalho no terreno.”
Montenegro resolveu trabalhar para as perceções mas apenas em matéria de segurança. Se há perceção de insegurança – apesar de sermos um dos países mais seguros do mundo – então há que mostrar as armas e proceder a operações policiais musculadas mostrando-as nas televisões. Pois é, mas também há perceção de pobreza e não se vê uma atuação tão dinâmica e musculada para lhe fazer frente. E há perceção de que o SNS está um caos, mas nunca como este fim de ano houve tantas urgências fechadas e o INEM na crise que se conhece.
O Presidente da República resguardou-se a opinar sobre o caso Rua do Benformoso, há uma queixa na Provedoria de Justiça, a IGAI abriu um processo administrativo, sectores importantes da sociedade civil manifestaram a sua indignação pela adoção pelo governo do mantra da extrema-direita, que associa de modo falso e abusivo migrantes com criminalidade, e é neste contexto que o patriarca de Lisboa resolveu intervir tomando partido, ao saltar assim para a arena política em que se degladiam direita e esquerda, governo e oposição.
Mas Rui Valério defendeu ainda: “Não podemos aceitar que a religião, em algum caso, em alguma circunstância, seja um meio para alcançar, enfim, desígnios ou metas menos nobres para a sociedade.” Pois bem. Depois das declarações anteriores, ficaria bem ao chefe da igreja católica da diocese de Lisboa que se procurasse encontrar rapidamente com líderes religiosos islâmicos, religião a que está ligada a maioria da população hindustânica do Martim Moniz. Esse sinal seria visto como um bom contributo para combater o aumento de 38% dos crimes de ódio em Portugal registado em 2023, em comparação com o ano anterior, de acordo com os números da PSP e GNR.
Neste Dia Mundial da Paz lembremos George Bernard Shaw: “A paz é não só melhor do que a guerra, mas infinitamente mais árdua.” Ou seja, para fazer a guerra basta abrir a boca sem cuidado, já construir a paz dá muito trabalho.
Não se pode ir com uma rosa branca para oferecer à polícia e no mesmo dia usar as palavras como pedras lançadas contra as comunidades migrantes, como fez o inenarrável Ventura. Da mesma forma não convém a um líder religioso a quem se exige neutralidade político-partidária, vir apoiar uma parte do especto político contra o outro. Já para não falar no apoio precipitado oferecido a um proto-candidato presidencial que lhe deu uma medalhinha.
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