O ano parlamentar terminou com um penoso debate do Estado da Nação com um Governo esgotado pela falta de legitimidade política, pela ausência de uma linha estratégica para desenvolver a sua agenda, incapaz de responder às tempestades de inverno e à crise energética da primavera, e com a economia a definhar a caminho do regresso dos défices orçamentais.
Depois de um ano de braço dado com o Chega, a débâcle da reforma do Código do Trabalho deixou o Governo perdido no seu labirinto.
Paralisado pela incapacidade de estabelecer uma estratégia de diálogo que garanta a estabilidade governativa, Luís Montenegro escolheu a via da fuga para a frente com uma entrada no debate do Estado da Nação marcada pelas provocações dirigidas aos partidos da oposição de quem depende para sobreviver.
É fantástico como o Governo mais minoritário da União Europeia acha que 91 deputados em 230 lhe dão um direito divino a governar, sem fazer acordos nem cedências, exceto quando estejam em causa 620 milhões de euros de fundos europeus como sucedeu no caso da PSU.
A trapalhada da digitalização da correção dos exames do ensino secundário é uma devastadora estocada na credibilidade de um sistema de avaliação que nunca tinha sido posta em causa ao longo de décadas e constitui um terramoto para a anunciada Reforma do Estado de Gonçalo Matias, que já não há CTO do Estado que salve.
A inesperada inépcia de Luis Neves, alvo preferencial da extrema-direita, em lidar com a elevação do nível de escrutínio a que passou a estar sujeito, quando passou de diretor nacional da PJ a ministro, também em nada ajuda uma equipa formada maioritariamente por ministros incapazes e atarantados, escondidos nos gabinetes a ver se os portugueses vão de férias sem reparar neles.
A única estratégia do Governo é sobreviver com a esperança de que, apesar da avaliação negativa da ação governativa, prevaleça a falta de paciência dos portugueses para mais eleições de resultado incerto e soluções de governabilidade duvidosas, face à erosão progressiva de Montenegro perante a arruaça permanente de Ventura e a cortesia paciente de Carneiro.
Só um Governo que não tem já fôlego e suspira por férias prescinde no debate do Estado da Nação de responder às perguntas dos deputados da oposição, quando o PSD tinha imenso tempo disponível para lhe ceder, e olha ansiosamente para o cronómetro da Assembleia da República com o estado de espírito do boxeur desfeito, que aposta tudo em evitar o KO, pela salvação com o esgotamento dos segundos finais do combate.
Infelizmente para o Governo não foi possível evitar esta manhã a sujeição de Fernando Alexandre a um penoso prolongamento da contenda, com o debate de urgência sobre a tragédia dos exames, marcado pela fé de que as pautas com as notas só serão afixadas mais tarde, quando os deputados já tiverem partido para férias até setembro.
Um Governo a que só 12% dos portugueses concedem o reconhecimento de que o País está melhor, enquanto 51% consideram que está pior, só aspira a resistir escudado no facto de 79 % dos inquiridos acharem que apesar de tudo é melhor que tudo se arraste sem sobressaltos eleitorais até 2029.
Os preços da habitação vão continuar a liderar o ranking europeu, as urgências centralizadas de obstetrícia de Loures e de Almada já começaram a recusar grávidas vindas de longe, a ministra do Trabalho continua a delirar com a reforma da legislação laboral, a diretiva europeia sobre igualdade no trabalho continua a ser ignorada perante o silêncio da inexistente ministra da igualdade, os tribunais vão de férias sem resolver qualquer crise nem prestar contas aos portugueses pela sua ineficácia, vários polícias foram condenados esta semana a pesadas penas de prisão por traficar droga por delações, ninguém sabe dos negócios da Defesa nem do novo Conceito Estratégico de Defesa Nacional e a ministra do Ambiente foi desautorizada pelo ministro das Finanças ao questionar porque não baixam os combustíveis quando os preços caem nos mercados internacionais, mas ninguém se importa muito com nada disto porque é tempo de férias, domingo é a final do Mundial de Futebol e para a semana o Benfica inicia a nova temporada europeia.
Pobre democracia em que ninguém acredita na governação, mas a maioria acha que não vale a pena ter emoção pela oposição. Pela fuga ao escrutínio parlamentar, pela arrogância desesperada do sobrevivente e pela pantanosa partida da vida política para férias, o prémio Laranja Amarga do Estado da Nação é o troféu da época para Luís Montenegro.
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