1. Hoje há em Portugal muitas fundações, algumas já de assinalável dimensão, com louváveis objetivos e muito meritório trabalho. Mas quando se fala de “a Fundação”, sem nada mais acrescentar, é da Gulbenkian que se fala. As pessoas compreendem-no. O que é só um dos sinais do generalizado reconhecimento pelos portugueses, com um mínimo de literacia e conhecimento da história recente do País, da ação única, em múltiplos domínios, da Casa há 70 anos instituída por Calouste Gulbenkian com o seu imenso património.
Ação única? Sem dúvida. E é dizer pouco. Porque a Fundação Calouste Gulbenkian mudou Portugal. Ou ajudou decisivamente a mudar Portugal. Para melhor. Sempre. Numas fases mais do que noutras, com picos e menos altos, dependendo também de fatores externos. E, creio, sobretudo, ou de forma mais nítida, nos seus primeiros quase 20 anos, durante a ditadura.
Nesse tempo a Fundação foi, quanto possível, uma espécie de Ministério da Cultura e de Ministério da Ciência que não existiam. Além, quanto as circunstâncias permitiam, um exemplo de autonomia perante o totalitário poder vigente, no sentido de não condicionar aos seus, desse poder, interesses e critérios políticos os apoios nas suas áreas de intervenção (artes/cultura, social/desenvolvimento humano, educação, ciência).
Para tal mudança, também a Fundação contribuiu com uma certa modernização de métodos e mentalidades. De múltiplas formas. Uma delas através da posterior ação de muitos das dezenas de milhares de bolseiros que apoiou, lá irei. E de organizações como a do Festival de Música da Gulbenkian, com 1ª edição em 1957, trazendo a Portugal grandes artistas que nunca cá tinham estado, o que tornou o país conhecido em círculos artísticos internacionais onde antes era completamente ignorado.
Para esse conhecimento, na área dos museus, tendo sido fundamental o que reúne a coleção do fundador e tem o seu nome, integrado nos belos edifício e jardim da Fundação. Inaugurado em 1969, e que agora vai reabrir, após obras de renovação e requalificação.
2. Sobre esse admirável museu, espécie de “sala de visitas”/símbolo da Fundação, e sobre outras vertentes especialmente notórias, destacadas e reconhecidas do seu património, da sua obra, escrevem aqui figuras com muito mais autoridade para o fazerem que eu. Assim, como aliás é próprio desta coluna, dou apenas o meu testemunho de cidadão empenhado que ao longo dos tempos seguiu a ação da Gulbenkian, também foi seu beneficiário, não pessoal, e colaborador, não remunerado, em quatro conselhos consultivos.
Os primeiros contactos que tive com a Fundação foi como dirigente associativo estudantil, em Coimbra (e a nível nacional), no início da década de 60. Era a Gulbenkian quem apoiava muitas das nossas iniciativas culturais em diversas áreas, mormente no teatro: por exemplo, tornando possível a contratação de importantes encenadores, como os que dirigiram o CITAC, então presidido por quem 40 anos mais tarde presidiria à própria Fundação – o Emílio Rui Vilar. Para a ação cultural, e de formação cívica, das combativas – também pela democracia – associações estudantis, como de numerosas outras agremiações, a Gulbenkian foi fundamental.
Recorde-se, por exemplo, o apoio dado à Sociedade Portuguesa de Escritores e o financiamento dos seus prémios, até à sua extinção/destruição por ter atribuído o de romance a Luandino Vieira, então preso no Tarrafal. Sendo certo que no domínio da promoção cultural, do livro e da leitura, logo em 1958 a Fundação criou o Serviço de Bibliotecas Itinerantes (e Fixas), 15 no início, em 1961 já 47 – tendo, em 62, 350 mil leitores inscritos e 3,5 milhões de livros requisitados! -, depois vindo a ultrapassar as 60. Tais bibliotecas, em que trabalharam no terreno alguns conhecidos escritores, enquanto outros integraram uma comissão que selecionava os livros a adquirir para leitura, percorreram todo o país e tiveram um papel importantíssimo, exemplar a vários níveis.
A criação da Rede Nacional de Bibliotecas, nas autarquias e nas escolas, foi diminuindo a necessidade dessas bibliotecas itinerantes, extintas em 2002. Mas aquele Serviço manteve-se, dirigido por David Mourão-Ferreira desde 81 até à sua morte em 96 (David que dirigiu também a revista Colóquio), sucedendo-lhe na direção Vasco Graça Moura, com o seu consabido dinamismo lançando novas formas de intervenção, e criando um conselho consultivo (que integrei).
3. Mas se neste domínio a Fundação teve um notável trabalho, o mesmo aconteceu noutros campos. Mesmo para lá do da música, que adquiriu mais visibilidade e projeção, quer por aquele Festival, quer pela criação, em 1962, de uma orquestra, primeiro só de câmara, depois alargada, a partir de 71 chamada “Orquestra Gulbenkian”, com cerca de 60 músicos efetivos, que continua em plena atividade e com muito bom nível.
Mesmo para lá da música, dizia. Por exemplo, nas artes plásticas, logo em 57 a Fundação organizou uma grande exposição, com uma nova e ainda mais expressiva 2ª edição, em dezº 61/janº 62, pela primeira vez incluindo a arquitetura ao lado da pintura, escultura, etc.. No espaço da FIL, com 298 obras de 145 artistas, seleção e premiação de um qualificado júri, a exposição marcou uma época: consagrou quem vinha de trás e o merecia, de par com outros muito novos e até então (quase) desconhecidos – de certa forma estabelecendo uma mais justa avaliação/valorização no panorama da arte portuguesa. E entre 1957 e 2024 a Gulbenkian organizou 1462 exposições!…
4. O contributo da Fundação para a mudança do país, para a formação e a criação de condições para que artistas, cientistas, investigadores, estudiosos de inúmeras disciplinas e matérias, etc., tivessem acesso a condições e instrumentos para desenvolver o seu trabalho, tem uma expressão maior nas bolsas concedidas ao longo do tempo – que incluem também as para Novos Talentos e as para bons estudantes sem meios para prosseguir os seus estudos. Ainda antes da elaboração dos estatutos, em 55, já havia um programa de bolsas, o que quer dizer que Azeredo Perdigão sempre as considerou uma forma privilegiada de atingir os seus objetivos.
Ao longo dos anos foram numerosos e diversificados os programas de bolsas atribuídos a dezenas de milhares de beneficiários, tendo já sido ou estando a ser feitos inquéritos sobre os seus “resultados”. O primeiro livro, de um conjunto programado de cinco volumes, com prefácio de Eduardo Marçal Grilo, o Inquérito aos bolseiros de investigação em Cultura Portuguesa e Lusófona, entre 2000 e 2013.
Mas, sem prejuízo do interesse desses inquéritos, se há coisa que se pode garantir é o enorme, e incalculável por mais estudos que se façam, valor da atribuição dessas bolsas, insisto, para a criação artística, a formação de quadros e progresso do país em diversíssimas áreas.
De facto, se olharmos, por exemplo, para o teatro, o cinema, as artes visuais, ou para a ciência, a investigação, a docência universitária, veremos que boa parte das suas figuras relevantes usufruíram de bolsas da Fundação. Uma vez, se bem me lembro numa longa entrevista que lhe fiz, Belmiro de Azevedo, referiu a certo passo que tinha sido bolseiro da Gulbenkian, o que eu ignorava. Ele era então o então o empresário de maior sucesso e o homem mais rico de Portugal – e o então Presidente da República também tinha sido: uma amostra significativa…
5. Eu queria falar aqui de dois ou três aspetos da Gulbenkian, de certo modo vista por dentro, da época em que pertenci (até à sua extinção) ao seu Conselho Geral. Como queria falar um pouco dos seus dois primeiros presidentes, Azeredo Perdigão e Ferrer Correia, e de outros seus “responsáveis”. Já não cabe, tem de ficar para outra oportunidade.
Termino, porém, lembrando outra vertente da ação da Fundação, hoje pouco lembrada e que foi de grande relevância: a “recuperação” de algum do muito património construído que os portugueses deixaram espalhado pelo mundo e que estava em risco de deterioração irrecuperável. O José Blanco, muitos anos administrador com esse e outros pelouros, foi muito importante para esse trabalho, que teve como principal mentor e executor o Viana de Lima, exatamente o distinguido com o Grande Prémio de Arquitetura na referida II Exposição de Artes Plásticas da Fundação, em 1961. De notar, aliás, que numa outra vertente menos falada da Fundação, a editorial, a Gulbenkian publicou três volumes, coordenados por José Mattoso, inventariando todo o património de origem portuguesa existente fora da Europa.