Christopher Nolan pode ter navios verdadeiros, película de 70 mm, Matt Damon amarrado ao mastro e um orçamento capaz de comprar meia Ítaca, mas não foi o primeiro a tentar transformar A Odisseia de Homero numa experiência visual acessível a quem não tem tempo, paciência ou formação clássica para atravessar os seus 24 cantos. Antes de Ulisses entrar no IMAX, já tinha passado pela banda desenhada.
A adaptação assinada pelo argumentista francês Christophe Lemoine e pelo desenhador brasileiro Miguel de Lalor Imbiriba foi o terceiro álbum da coleção Clássicos da Literatura em BD, lançada em Portugal pela Levoir em parceria com a RTP. Publicada entre nós em setembro de 2020, com capa dura, 64 páginas a cores e um dossier complementar, regressa agora às livrarias aproveitando, com toda a legitimidade comercial, a estreia do filme de Christopher Nolan. Porque os clássicos são eternos, mas uma campanha de Hollywood ajuda sempre a memória.
Não há nada de indigno nisso. Homero sobreviveu durante quase três mil anos precisamente porque cada época o voltou a contar à sua maneira. Foi recitado, traduzido, ilustrado, filmado, simplificado, estudado, parodiado e provavelmente resumido por muitos alunos dez minutos antes de uma aula. Uma epopeia que resistiu a séculos de professores, tradutores e adaptações televisivas e cinematográficas não será certamente vencida por uma mesa de novidades numa livraria.
Homero para quem tem pressa
O principal mérito desta Odisseia em banda desenhada está na capacidade de condensação. Christophe Lemoine pega numa narrativa enorme, fragmentada e cheia de episódios, personagens, deuses, monstros e histórias dentro de outras histórias e consegue dar-lhe uma linha clara. Ulisses vence Troia através do famoso cavalo, tenta regressar a Ítaca, irrita os deuses, perde homens pelo caminho, encontra o Ciclope, Circe, Calipso, Nausícaa e as sereias, enquanto Penélope tenta impedir que a sua casa se transforme num concurso matrimonial com comida e bebida pagas pela vítima. Está lá o essencial. Por vezes, demasiado essencial.
Lemoine trabalha como um agente de viagens obrigado a vender o Mediterrâneo inteiro num folheto dobrável. Aqui está o Ciclope, à direita temos Circe, mais adiante podem observar as sereias e, por favor, não se afastem do grupo porque Poseidon anda maldisposto. Alguns episódios mal têm tempo para começar antes de Ulisses já estar novamente no barco, a caminho do desastre seguinte.
Mas seria injusto censurar a adaptação por não possuir a extensão do poema. O objectivo não é substituir Homero, como um hambúrguer não substitui um almoço de família, embora em certos dias resolva o problema. O álbum funciona como entrada, mapa e convite. Um leitor jovem ou alguém que apenas conheça vagamente o Cavalo de Troia e a expressão canto das sereias termina as 64 páginas com uma ideia bastante clara da viagem, das personagens e dos temas essenciais da obra.
Christophe Lemoine tem, aliás, experiência neste tipo de operação delicada. O argumentista francês trabalhou em várias adaptações literárias para banda desenhada, entre elas A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, Poil de Carotte, de Jules Renard, A Guerra dos Botões, de Louis Pergaud, e Jacquou le Croquant, de Eugène Le Roy. Não chega, portanto, a Homero como quem encontra um ciclope numa rotunda. Conhece o problema de reduzir um clássico sem lhe retirar completamente a alma.
Um mar um pouco raso
É no desenho que o álbum navega talvez por águas menos convincentes. Miguel de Lalor Imbiriba possui um percurso interessante: estudou Ciências Políticas, Sociologia e Belas-Artes, passou por Barcelona e Portugal, instalou-se depois em Paris e trabalhou no mercado franco-belga, nomeadamente na série Myrkos e na adaptação de O Último Templário. A sua experiência e interesse pela História tornam-no, em teoria, uma escolha natural para Homero.
Na prática, o resultado visual é irregular. Há vinhetas eficazes, alguns bons rostos, monstros com presença e momentos em que a cor consegue dar ao Mediterrâneo uma atmosfera de lenda. Mas falta frequentemente profundidade aos cenários, movimento às cenas de acção e verdadeira grandiosidade a uma história que pede mares ameaçadores, ilhas misteriosas e deuses capazes de estragar as férias de qualquer mortal. O desenho conta a história, mas raramente a faz levantar voo. Ou içar a vela.
Há páginas onde Troia parece pequena demais, tempestades que passam com a rapidez de um duche mais agressivo e batalhas às quais falta o peso físico que esperamos de uma epopeia. Não é uma obra visualmente desastrosa, mas é demasiado modesta para o tamanho do material. Homero entrega-lhe o mar, os monstros, o Olimpo e uma das maiores aventuras da literatura; o álbum devolve-lhe, por vezes, cenários com a profundidade de um biombo.
Ainda assim, talvez a comparação com Nolan seja injusta. Um trabalha com milhões de dólares, câmaras IMAX e um exército técnico; o outro teve de encaixar o Mediterrâneo, o inferno, Ítaca e vários anos de desgraças conjugais em pouco mais de meia centena de páginas. Ulisses também fazia milagres com poucos recursos, embora normalmente deixasse metade da tripulação pelo caminho.
O clássico que não fica em casa
A edição da Levoir compensa algumas limitações gráficas através da boa apresentação material. A capa dura, o papel de qualidade e o dossier final ajudam a contextualizar a obra, explicando ao leitor o universo de Homero, as personagens e a importância cultural da epopeia. Para crianças, jovens ou adultos que fugiram da Cultura Clássica como Ulisses fugia de Poseidon, é uma introdução útil, directa e sem ar de castigo escolar.
E talvez seja esse o verdadeiro interesse do seu regresso às livrarias. O filme de Nolan não serve apenas para vender bilhetes, pipocas e sessões IMAX. Pode devolver leitores a Homero, às traduções do poema, aos estudos sobre a Grécia Antiga e também a esta adaptação em banda desenhada, que funciona como uma pequena ponte entre o clássico e o público contemporâneo.
Alguns entrarão pela porta de Nolan. Outros pelos desenhos de Miguel de Lalor Imbiriba. Outros descobrirão primeiro o Ciclope numa vinheta e só depois perceberão que aquela criatura, além de comer homens, representa a negação absoluta da hospitalidade e da civilização. Não interessa muito por onde se começa. O importante é que a viagem continue.
Esta Odisseia não substitui Homero, nem pretende fazê-lo. Não possui a violência poética do original, a complexidade da sua estrutura ou a magnificência visual que a história merecia. Mas tem clareza, ritmo, utilidade pedagógica e a inteligência de não tratar o clássico como uma relíquia reservada a especialistas.
Ulisses regressa agora às livrarias porque Christopher Nolan o chamou ao grande ecrã. É o tipo de oportunismo cultural que devíamos agradecer mais vezes. Hollywood vende o espectáculo; a banda desenhada oferece o mapa; Homero continua a fornecer a história.
No fim, todos lucram. Até o leitor, o que já é bastante raro.