Ando há uns dias a pensar em escalar. Quero escalar o Mont Blank. O K2. O Shishapangma. Sim, quero. Li agora mesmo que registam as taxas de mortalidade mais altas do mundo. É lá que os alpinistas morrem e há em mim algo que precisa de morte.
Posso ficar-me pela crista do Shishapangma, sim, apesar de ser apenas a décima quarta montanha mais elevada do mundo. Eu morreria a trepar o muro da casa da minha avó e a descer o escorrega vermelho do parque infantil a trezentos metros do meu apartamento. Nunca escalei e o meu cu não caberia naquele escorrega elegante. Mas, seguindo com a escalada, confesso-vos que ando a pensar em subir montanhas por causa de algo que não sabia que tinha nome, mas descobri esta semana: adaptação hedónica.
Ora, estas duas palavras, juntas, basicamente querem dizer que o humano sabe adaptar-se a tudo, por isso, aquilo que é êxtase num momento, logo deixa de o ser. É como fazer sexo sempre com o mesmo parceiro. No fundo, precisamos de novo parceiro, desculpem, novo êxtase, e assim sucessivamente até andarmos de gatas e língua no chão, quem sabe a lamber mijo de rato.
Trata-se de uma espécie de “Ambrósio, apetece-me algo”, só que mais complexo, porque agora apetece-nos algo a toda a hora, e bem mais bizarro que um bombom com picos. Apetece-nos algo ao ponto de não nos apetecer quase nada pela fadiga que é apetecer-nos quase tudo, e tudo extenuantemente excêntrico.
E o que é excentricidade ou sentir êxtase? Por exemplo, pode passar por comprar um peido engarrafado da Stephanie Matto no Only Fans ou virar um eremita que se maquilha para milhares de seguidores no Instagram, no mato grosso da imbecilidade da sua solidão, para falar de livros que nunca leu.
E quem sabe esta seja a maior tragédia da contemporaneidade: a adaptação hedónica, ou como dizia o visionário Santo Agostinho, “o desejo não tem descanso”.
Eu, por exemplo, estou tão cheia de êxtases que começaram a sair pelas bordas. Mas, porque também estou cheia de buracos, dei por mim vazia-vazia-vazia. Sem gota. Então, sim, o Shishapangma é perfeito. Depois, também é preciso morrer com estilo para ter alguma dignidade na posteridade do post, porque é preciso chamar a atenção no scroll. E Shishapangma é nome exótico. Já estou a ver a minha lápide. Que pintarola! Já agora, que cor fica bem a um morto? Convém saber o que vestir.
Mas esperem, ou ide, que eu não saio daqui tão cedo. Estou agora para aqui a pensar se o meu desejo de escalada e o tamanho do meu cu não terão vindo do streaming. Terá sido isso? De querer o êxtase de outros? Gostei tanto de ver aquele filme… Como se chamava? Apex! Sim! A magra da Charlize Theron, linda, a esfolar os joelhos na pedra… Oh!, mas eu queria era o papel do Taron Egerton, o de predador canibal.
Pensando melhor, não, não estou certa se ando com vontades de morrer ou antes de matar. Preciso sentir-me perigosa. Quero! Não fazer mal a ninguém dá má reputação. Quem sabe não compre uma arma de plástico, e faça aqueles guinchinhos do Taron num reel. Quem sabe… quem sabe… foda-se!
Tenho de aprender a sair do sofá onde me deitei estafada de êxtases.
Oh!, o que eu gostava dos tempos em que jogar à bisca, bastava. O que eu gostava do Tito, o espinhoso. Onde andam os espinhosos? Os feios. As velhas. As gordas. Os que não visitaram o mundo em fast forward e não mandam mensagens feitas pelo ChatGPT enquanto incham o bíceps e tiram um doutoramento em engenharia aeroespacial, remotamente.
Agora mesmo, vejo uma aparição: José Tolentino Mendonça no meu telemóvel, dizendo: “Os computadores não choram”. José, eu tenho a certeza que não, verti as lágrimas todas e nenhuma veio do ecrã.
Quando é que esta escravidão por nós armada acaba?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.