Só sei de uma pessoa que, conhecendo-me pessoalmente, não tenha gostado de mim. Eis uma frase insuportavelmente presunçosa; também por isso a escrevi, e também por isso peço desculpa. Compreendo perfeitamente as reservas que a minha figura possa gerar ao longe. E até sou capaz de atender algumas delas com simpatia. Mas ao perto estou certo de ser cortês, de bom trato; ou pelo menos é assim que procuro ser com os outros. Uma das características que o ensimesmado auto-consciente procura contrariar é precisamente a tendência para se alhear inconscientemente das necessidades das pessoas com quem calha estar. Às vezes, bolas, até da própria presença dessas pessoas.
Mas estou a mentir. Pensando bem, foram duas pessoas. Já viram isto? Como é possível haver, neste mundo criado por Deus, dois indivíduos que, tendo convivido comigo, tendo beneficiado da originalidade das minhas piadas, tendo até experimentado um pouco das minhas garbosas tentativas de auto-sabotagem pública — mostrando que, apesar de tudo, não me levo assim tão a sério — possam considerar que sou má pessoa? Isto perturba qualquer um.
E o ensimesmado, naturalmente, fica marcado para sempre. Afinal, quem vive tendencialmente absorvido consigo mesmo interpreta o que acontece à sua volta em função de si próprio. É complicado. É viver na ilusão de se ser protagonista da vida dos outros.
Parece vaidade, eu sei. Mas é uma coisa pior. É uma forma sofisticada de narcisismo que se disfarça de humildade. “Que mal lhes terei eu feito?”, pergunta o ensimesmado, como quem faz um exame de consciência, não se apercebendo de que a pergunta já nasce inquinada.
Para uma pessoa de outra índole talvez seja mais fácil conviver com a suspeita de existirem pessoas que, conhecendo-a pessoalmente, não gostem dela. Para o ensimesmado isso não é bem assim. Não dá para se libertar da ideia. Não sai. É um pega-monstro da alma. E, por lá se manter agarrado, o assunto é sempre actual.
Sabem quem também é assim? George Costanza, claro. O rei dos ensimesmados. Num episódio de Seinfeld, George descobre que a rapariga com quem Jerry anda a sair não gosta dele e torna-se incapaz de pensar noutra coisa. A obsessão chega ao ponto de desejar mais a aprovação daquela mulher do que a afeição da própria namorada. Não lhe basta que alguém goste dele; é imperioso converter quem não gosta. Para o ensimesmado, quem o estima é sensato; quem não o estima é um problema metafísico.
No caso de uma das tais duas pessoas que, conhecendo-me pessoalmente, não gostaram de mim, fiquei com a impressão de que se tratava de um equívoco. Para o ensimesmado só pode ser um equívoco. Um retrato nosso em termos depreciativos não pode, pura e simplesmente, ser um retrato legítimo. Isso seria insuportável. E estatisticamente improvável: se duas em cada setecentas e cinquenta pessoas que nos conhecem pessoalmente não gostam de nós, então o problema é delas — não são as outras setecentas e quarenta e oito que estão erradas. Mas não. Nem duas, nem setecentas e quarenta e oito. O verdadeiro problema é só de uma pessoa. Exacto: do ensimesmado. Porque, nas contas de cabeça que se põe a fazer, nunca lhe surge a frase em que pensa sempre que se depara com outro igual a ele: “O mundo não gira à tua volta.”
O mais natural nunca ocorre ao ensimesmado: que as coisas acontecem apesar dele. Por exemplo, a pessoa do caso anterior, pensando um bocadinho melhor, até era reservada, pouco expansiva, senhora de uma certa timidez. Talvez não fosse dada a manifestações de lisonja. E, quem sabe se — hipótese verdadeiramente ofensiva — nem sequer pensasse em mim o suficiente para não gostar de mim.
O outro caso é diferente. A pessoa não gostou mesmo de mim. E, se querem que vos diga, sem razão nenhuma. Mas o ponto é outro.
Este não é um texto sobre duas pessoas que não gostam de mim. E, apesar de não parecer, nem é sobre mim em sentido estrito. É sobre a hipótese de um homem, não sei quantos anos depois, ainda fazer contas a duas pessoas que julga não gostarem dele, quando, entretanto, milhares de outras tiveram coisas mais importantes em que pensar.
O ensimesmado sobrestima sempre a importância da forma como existe na cabeça dos outros. É incapaz de interpretar seja o que for fora da lógica do teatro do mundo de que se julga protagonista. O denominador comum nunca é a razão do outro. É ele. Ou melhor: sou eu.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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