Segundo Mariano Rajoy, a seleção francesa não joga com franceses. Conhecendo todos os regulamentos do Campeonato do Mundo de Futebol, poderíamos pensar que o ex-primeiro-ministro espanhol estava apenas a tentar ganhar na secretaria uma partida de futebol. Mas não. O antigo líder do Partido Popular limitou-se a revelar aquilo que claramente é: um racista.
Estará Rajoy sozinho? Claro que não. Alguém já se esqueceu do que Jean-Marie Le Pen dizia sobre a seleção francesa, alegando que, por ter demasiados jogadores negros, não representava França? Ou do que Éric Zemmour continua a afirmar, sustentando que aquela equipa já não representa a sociedade francesa tradicional?
Agora que já discorremos sobre estas tristes figuras, faço outra pergunta: quantas vezes ouviu, entre amigos, familiares, colegas, num café ou nas redes sociais, que a seleção francesa – ou qualquer outra seleção europeia – não é verdadeiramente daquele país porque está “cheia de negros”, de muçulmanos ou, simplesmente, de pessoas não brancas? A resposta é simples: muitas. Demasiadas. E, frequentemente, dito por pessoas que juraríamos incapazes de um comentário racista ou xenófobo.
É também assim que se manifesta o racismo estrutural. Não apenas através das desigualdades no acesso a cargos políticos, lugares de direção, educação ou oportunidades económicas e profissionais. Manifesta-se igualmente na normalização de ideias que excluem cidadãos da comunidade nacional apenas pela sua origem, cor da pele ou religião. Quase ninguém se assume racista ou xenófobo, mas há muita gente que faz comentários indistinguíveis dos de Rajoy. E as pessoas são aquilo que fazem e dizem, não aquilo que afirmam ser.
Aliás, é frequente ouvir que quem vota no Chega não é necessariamente racista ou xenófobo, apesar de o partido assentar uma parte significativa do seu discurso precisamente nesses preconceitos. Discordo. Quem vota num partido que faz da discriminação uma bandeira está, no mínimo, a considerar aceitável que esses valores integrem a esfera democrática. Está a tratar princípios elementares de igualdade e dignidade humana como se fossem apenas mais um tema de debate político.
É sinal dos tempos que tenham surgido tantos comentários racistas de figuras políticas relevantes durante este Mundial. Jean-Marie Le Pen fazia-os há décadas, mas era visto como um extremista. Quando um antigo primeiro-ministro de Espanha os repete, a leitura é inevitável: Rajoy sente que o ambiente político lhe é favorável. No fundo, acredita estar a dar voz a uma opinião amplamente partilhada. E o problema é que, em parte, está.
A extrema-direita trouxe consigo uma profunda legitimação do discurso racista e xenófobo. Essas ideias já existiam, naturalmente, mas eram socialmente censuradas e os partidos tradicionais evitavam reproduzi-las. Quando surgiram líderes dispostos a dizê-las sem pudor, muitos passaram a sentir-se autorizados a pensar e a falar da mesma forma, sem vergonha nem culpa.
O passo seguinte é talvez ainda mais preocupante e revela até que ponto uma parte significativa da direita tradicional traiu os princípios fundamentais da democracia liberal. Percebendo que esse discurso mobilizava eleitorado, resolveu incorporá-lo. Mais do que normalizar o racismo e a xenofobia, começou a transformá-los em política pública. Basta olhar para muitos dos pacotes legislativos sobre imigração e nacionalidade que percorrem atualmente a Europa. E, para agravar o cenário, alguns partidos e governos de esquerda acabaram por seguir o mesmo caminho. O caso do governo de Keir Starmer é particularmente ilustrativo, embora sem atingir a dimensão e a radicalidade das propostas da extrema-direita.
Espero que alguém pergunte um dia a Mariano Rajoy o que é, afinal, um francês. Ou um espanhol. Ou um português.
Se houver disponibilidade para o diálogo, seria interessante perguntar-lhe quem eram os habitantes da Andaluzia em 1491. Eram espanhóis? Marroquinos? Marcianos? A resposta é evidente: nenhuma dessas categorias fazia sentido naquela época. E os galegos, como Rajoy, há quantos séculos são espanhóis? Quantos anos tem, afinal, essa identidade nacional que ele trata como se fosse eterna e imutável?
Já agora, convinha lembrar-lhe que cerca de 8% do vocabulário espanhol tem origem árabe. Será que isso faz da língua espanhola menos espanhola? Ou do próprio Rajoy um espanhol incompleto?
Os franceses, os espanhóis e os portugueses são aqueles que a lei define como tal, atribuindo-lhes um conjunto de direitos e deveres dentro de um determinado território. Gostar de paella ou de pastéis de nata, ouvir Edith Piaf, Paco de Lucía ou Amália, ser católico, budista ou ateu, ser branco, negro ou asiático, ou até falar a língua dominante, não determina a nacionalidade de ninguém.
Não existem portugueses “originais”, como não existem franceses, angolanos, chineses ou brasileiros “originais”. As nações são construções históricas e sociais. Resultam de processos longos, feitos de migrações, invasões, miscigenação, alianças, guerras e transformações culturais.
Se a população que hoje habita Portugal deixar de se reproduzir, existem apenas duas possibilidades: ou outras pessoas ocuparão este espaço e, ao longo das gerações, transformarão inevitavelmente a identidade coletiva; ou o último português fechará a porta e apagará a luz.
Há uma realidade que nenhuma fronteira consegue contrariar: o desejo de procurar uma vida melhor, de oferecer mais oportunidades aos filhos ou de viver de acordo com as próprias convicções religiosas é incomparavelmente mais forte do que qualquer projeto de congelar culturas ou preservar imaginárias identidades nacionais.
As culturas, os modos de vida e as formas de organização social adaptam-se sempre às pessoas que vivem num determinado território. As sociedades podem tentar impor uma dada identidade (sempre artificial) durante algum tempo, mas, repetidamente, a realidade acaba sempre por prevalecer. Basta abrir um manual de História.
Aquilo que podemos impor é a lei: os direitos, os deveres, a Constituição e as regras da convivência democrática. Mesmo isso, porém, muda ao longo do tempo, porque também as sociedades mudam.
O que Mariano Rajoy disse é racismo puro e simples. Mas é também uma extraordinária demonstração de ignorância histórica. E, como tantas vezes acontece, uma coisa alimenta a outra.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.