Há uma coisa que quase todos fazemos quando chegam as férias: relaxamos. E ainda bem que assim é. Descansamos da pressão do trabalho, alteramos horários, quebramos rotinas e permitimo-nos viver com menos preocupações.
O problema é que, quando relaxamos, também mudamos a forma como decidimos. E é precisamente aí que nos tornamos mais vulneráveis. Não porque existam mais ataques durante o verão, mas porque somos nós que mudamos. E, quando o comportamento muda, muda também o risco.
Ao longo do ano construímos rotinas que funcionam como uma camada invisível de proteção. Ligamo-nos às redes em que confiamos. Utilizamos os mesmos dispositivos. Recorremos aos mesmos serviços. Estranhamos, e ainda bem que o fazemos, quando algo parece diferente. Sem darmos conta, aprendemos a reconhecer aquilo que faz parte da nossa normalidade.
Nas férias acontece exatamente o contrário. Tudo é novidade. Tudo é temporário. E quase tudo nos parece aceitável apenas porque estamos fora do nosso contexto habitual.
Em poucos dias fazemos coisas que dificilmente fariam parte da nossa rotina. Ligamo-nos ao Wi-Fi do alojamento. Instalamos aplicações para encontrar restaurantes ou eventos. Digitalizamos QR Codes. Levantamos dinheiro em caixas automáticas que nunca vimos. Carregamos o telemóvel onde houver uma tomada disponível. Ou, pior ainda, aceitamos um carregador emprestado por alguém que desconhecemos por completo, sem pensar no que esse dispositivo pode fazer para além da sua função mais óbvia.
Nenhum destes gestos é, por si só, perigoso. O problema é outro: deixamos de lhes dedicar a atenção que normalmente lhes daríamos noutro contexto. Agimos com mais celeridade. Confiamos mais depressa. Questionamos muito menos.
A tecnologia, essa, não está de férias. Continua exatamente igual. Os sistemas funcionam da mesma forma. Os ataques exploram as mesmas vulnerabilidades. Ou seja, quem muda somos nós.
Durante as férias estamos mais descontraídos, menos vigilantes e mais disponíveis para confiar. A atenção que durante o resto do ano surge quase automaticamente é substituída pela sensação de que podemos, e merecemos, desligar. É precisamente aqui que vale a pena prestar atenção, nessa mudança de comportamento que continua a ser explorada por quem procura tirar partido do erro humano.
Preparar uma viagem não passa apenas por fazer as malas. Também vale a pena preparar os dispositivos que levamos connosco. Tal como confirmamos os documentos ou fechamos a porta de casa antes de sair, faz sentido dedicar alguns minutos ao telemóvel e ao computador.
Atualizar os nossos equipamentos, ativar a autenticação multifator nas contas mais importantes, utilizar apenas aplicações das lojas oficiais e confirmar a autenticidade das redes Wi-Fi antes de lhes confiar os nossos dados são gestos simples que se podem revelar uma camada importante nas nossas interações no digital. E nem sequer são necessários conhecimentos técnicos ou equipamentos especiais, mas sim uma tomada de consciência de que a segurança começa muito antes de chegarmos ao destino.
Há uma ideia que repito frequentemente: a maioria dos incidentes de cibersegurança não começa com tecnologia sofisticada. Começa com uma decisão aparentemente insignificante. As férias apenas tornam essa realidade mais evidente. Todos precisamos de descansar. E devemos fazê-lo. O problema é que, quando relaxamos, também relaxamos a atenção. É essa pequena mudança que explica muitos desses incidentes.
É o mesmo fenómeno que nos leva a deixar a porta de casa destrancada porque “é só um minuto”. O risco não nasce desse minuto. Nasce da confiança que depositamos nele. Vale a pena para um pouco e refletir nesta ideia. Muito mais do que compra, cibersegurança é atitude.
Em boa verdade, quando regressamos queremos trazer fotografias, histórias e boas memórias. Não precisamos de regressar também com contas comprometidas, dados expostos ou problemas que poderiam ter sido evitados com um simples momento de maior atenção.
Afinal, o grande risco das férias raramente está no destino que escolhemos. Está na forma como nos comportamos quando saímos da nossa rotina.
A tecnologia continua exatamente a mesma. Os ataques também.Quem mudou fomos nós.
Segurança não é técnica. É humana.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.