A propósito da trapalhada com os exames nacionais, multiplicaram-se nos canais noticiosos os relatos de professores que tentavam navegar pelo rocambolesco processo. Uma destas participações foi particularmente reveladora. Parafraseio de memória: as respostas, em papel, eram recolhidas dos alunos, transportadas para um local seguro, digitalizadas, colocadas na plataforma, acedidas pelos professores, impressas para facilidade de correção e anotações, digitalizadas e submetidas de novo através da plataforma. É admirável a simplicidade do mundo novo.
Tudo isto ganha dimensão por causa do que está em jogo, mas esta lógica do recurso ao digital como se fosse uma inevitabilidade desejável não será novidade para ninguém. Não são poucas as vezes que temos de dar uma volta maior do que a necessária para acomodar a eficiência digital.
No restaurante que nos obriga a abrir um link através de um código QR para navegar por um menu num ecrã demasiado pequeno para perceber seja o que for, e sem ajuda nem oportunidade para fazer perguntas. No atendimento telefónico de inteligência artificial que tenta fazer à força com que o nosso problema se encaixe nas suas capacidades. Nas caixas de supermercado onde temos de passar as nossas próprias contas, acertar nos códigos, lembrarmo-nos do nome do pão e do tipo de tangerina, esperar pela ajuda humana quando há erro e depois ainda passar o talão para provar que não se é um larápio. Quando se faz o “check-in online” para “evitar complicações e filas” e depois temos de ir para a fila na mesma porque o processo não se completa sem a intervenção de uma pessoa. Quando se pede a pessoas com pouca escolaridade, capacidades físicas reduzidas, pouca familiaridade com o mundo digital que “siga o QR code e faça download da app a partir da appstore e faça login com o seu email”.
Instalou-se um ambiente de obsessão pelo digital. A própria ideia de ter um país com áreas em que o processo de digitalização não está completamente instalado é suficiente para fazer uma pessoa decente ter afrontamentos, que horror.
A sofreguidão que mostramos em nos juntarmos ao mundo digitalizado mostra bem como andamos completamente desnorteados. Em vez de pararmos para pensar, por exemplo, no modelo de educação que queremos para termos cidadãos mais críticos, com maior capacidade de aprendizagem, mais empáticos e mais inseridos numa comunidade viva e solidária, vivemos obcecados em ideias obsoletas e contraproducentes como são a excelência e o mérito.
É à boleia desses lugares comuns que se aceitam acriticamente como evidentes que também se embarca na ideia de que é preciso digitalizar tudo, é preciso pôr tecnologia em tudo e subordinar tudo a esta nova lógica.
Não penso que a solução esteja no regresso à idade da pedra. É óbvio que muitos avanços tecnológicos aumentaram as nossas vidas, tornaram-nas mais cheias e aumentaram aquilo que é possível fazermos enquanto formos vivos com maior conforto. Também é óbvio que muitos avanços tecnológicos nos transformaram em agarrados, drogados do ecrã que gastam tempo e dinheiro que não têm para satisfazer o vício.
Na minha terra eram conhecidas as histórias das pessoas que se endividavam para comprar um carro todo-o-terreno para o passearem aos fins-de-semana pelas marginais da zona e serem vistos naquele monstro gigante de metal. Lá do cimo olhavam cá para baixo, para os comuns mortais imaginando-os cheios de inveja e rancor. Quem lhes dera poder também comprar um jipe para o passearem pelas marginais. Nunca tiveram outro uso para os carros que não esse. Usaram a tração às quatro rodas uma vez, para mostrar ao cunhado a bomba que tinham comprado e pronto, ali estava a bomba. Ninguém tinha uso para elas e toda a gente queria uma.
Assim acontece com a tecnologia. Aceitamo-la como símbolo de sucesso de um país e andamos loucos atrás dela sem sabermos porquê. Na verdade, pouco interessa. A tecnologia é feita por empresas que geram riqueza e postos de trabalho e Deus sabe que não há nada neste mundo que se consiga meter entre um empreendedor e o seu lucro. Fazermos perguntas tontas como “precisamos mesmo disto?” é conversa de velho do Restelo que quer voltar para as cavernas, pá! Conversa de herege que com certeza só está bem a ver Portugal na cauda da Europa.
Precisamos mesmo de exames digitalizados? Mesmo partindo do princípio que a transição poderia ter sido livre de incidentes e todos os problemas são passageiros, para além de se aceitar como óbvia a necessidade da digitalização, não valeria a pena para um pouco para pensar se é mesmo assim. Até poderíamos chegar à conclusão de que assim é, mas parece que ninguém está interessado em fazê-lo.
No meio do imediatismo da espuma, ficam sempre por fazer as perguntas que mais ganharíamos em fazer. Mas quem sou eu? Deixe-se estar tudo assim que prefiro estar aqui no meu sofá agarrado ao telemóvel do que pendurado pelas pernas no pelourinho.
A vida não passa de itens digitalizados
A tecnologia é uma solucionadora. Soluciona tão completamente que chega a solucionar o problema que deveras não está presente.
A propósito da trapalhada com os exames nacionais, multiplicaram-se nos canais noticiosos os relatos de professores que tentavam navegar pelo rocambolesco processo. Uma destas participações foi particularmente reveladora. Parafraseio de memória: as respostas, em papel, eram recolhidas dos alunos, transportadas para um local seguro, digitalizadas, colocadas na plataforma, acedidas pelos professores, impressas para facilidade de correção e anotações, digitalizadas e submetidas de novo através da plataforma. É admirável a simplicidade do mundo novo.
Tudo isto ganha dimensão por causa do que está em jogo, mas esta lógica do recurso ao digital como se fosse uma inevitabilidade desejável não será novidade para ninguém. Não são poucas as vezes que temos de dar uma volta maior do que a necessária para acomodar a eficiência digital.
No restaurante que nos obriga a abrir um link através de um código QR para navegar por um menu num ecrã demasiado pequeno para perceber seja o que for, e sem ajuda nem oportunidade para fazer perguntas. No atendimento telefónico de inteligência artificial que tenta fazer à força com que o nosso problema se encaixe nas suas capacidades. Nas caixas de supermercado onde temos de passar as nossas próprias contas, acertar nos códigos, lembrarmo-nos do nome do pão e do tipo de tangerina, esperar pela ajuda humana quando há erro e depois ainda passar o talão para provar que não se é um larápio. Quando se faz o “check-in online” para “evitar complicações e filas” e depois temos de ir para a fila na mesma porque o processo não se completa sem a intervenção de uma pessoa. Quando se pede a pessoas com pouca escolaridade, capacidades físicas reduzidas, pouca familiaridade com o mundo digital que “siga o QR code e faça download da app a partir da appstore e faça login com o seu email”.
Instalou-se um ambiente de obsessão pelo digital. A própria ideia de ter um país com áreas em que o processo de digitalização não está completamente instalado é suficiente para fazer uma pessoa decente ter afrontamentos, que horror.
A sofreguidão que mostramos em nos juntarmos ao mundo digitalizado mostra bem como andamos completamente desnorteados. Em vez de pararmos para pensar, por exemplo, no modelo de educação que queremos para termos cidadãos mais críticos, com maior capacidade de aprendizagem, mais empáticos e mais inseridos numa comunidade viva e solidária, vivemos obcecados em ideias obsoletas e contraproducentes como são a excelência e o mérito.
É à boleia desses lugares comuns que se aceitam acriticamente como evidentes que também se embarca na ideia de que é preciso digitalizar tudo, é preciso pôr tecnologia em tudo e subordinar tudo a esta nova lógica.
Não penso que a solução esteja no regresso à idade da pedra. É óbvio que muitos avanços tecnológicos aumentaram as nossas vidas, tornaram-nas mais cheias e aumentaram aquilo que é possível fazermos enquanto formos vivos com maior conforto. Também é óbvio que muitos avanços tecnológicos nos transformaram em agarrados, drogados do ecrã que gastam tempo e dinheiro que não têm para satisfazer o vício.
Na minha terra eram conhecidas as histórias das pessoas que se endividavam para comprar um carro todo-o-terreno para o passearem aos fins-de-semana pelas marginais da zona e serem vistos naquele monstro gigante de metal. Lá do cimo olhavam cá para baixo, para os comuns mortais imaginando-os cheios de inveja e rancor. Quem lhes dera poder também comprar um jipe para o passearem pelas marginais. Nunca tiveram outro uso para os carros que não esse. Usaram a tração às quatro rodas uma vez, para mostrar ao cunhado a bomba que tinham comprado e pronto, ali estava a bomba. Ninguém tinha uso para elas e toda a gente queria uma.
Assim acontece com a tecnologia. Aceitamo-la como símbolo de sucesso de um país e andamos loucos atrás dela sem sabermos porquê. Na verdade, pouco interessa. A tecnologia é feita por empresas que geram riqueza e postos de trabalho e Deus sabe que não há nada neste mundo que se consiga meter entre um empreendedor e o seu lucro. Fazermos perguntas tontas como “precisamos mesmo disto?” é conversa de velho do Restelo que quer voltar para as cavernas, pá! Conversa de herege que com certeza só está bem a ver Portugal na cauda da Europa.
Precisamos mesmo de exames digitalizados? Mesmo partindo do princípio que a transição poderia ter sido livre de incidentes e todos os problemas são passageiros, para além de se aceitar como óbvia a necessidade da digitalização, não valeria a pena para um pouco para pensar se é mesmo assim. Até poderíamos chegar à conclusão de que assim é, mas parece que ninguém está interessado em fazê-lo.
No meio do imediatismo da espuma, ficam sempre por fazer as perguntas que mais ganharíamos em fazer. Mas quem sou eu? Deixe-se estar tudo assim que prefiro estar aqui no meu sofá agarrado ao telemóvel do que pendurado pelas pernas no pelourinho.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.