Andrew Newberg realizou diversas experiências que incluíram examinar o cérebro de freiras em oração, de sikhs a cantar cânticos religiosos, de budistas em meditação e de pentecostais em prática glossolálica. Dessas suas investigações resultou a obra científica Princípios de Neuroteologia, onde se aplica a ciência e o método científico à espiritualidade através da análise e estudo de imagens cerebrais, tentando assim estabelecer as bases para “um novo tipo de diálogo científico e teológico.”
Segundo Newberg explicou à NPR: “avaliamos o que está a suceder no cérebro dos indivíduos quando estão no exercício duma prática espiritual profunda, como meditação ou oração”. Depois a equipa de investigadores compara esses elementos com o cérebro em estado de repouso.
Além das diferenças verificadas entre ambas as situações, o estudo de Newberg concluiu algo ainda mais extraordinário. É que este tipo de práticas religiosas pode ajudar a moldar o cérebro. Foi o caso de indivíduos mais idosos que apresentavam problemas de memória à partida, e que depois de passarem a praticar exercícios de meditação de doze minutos por dia, durante dois meses, voltaram para realizar novo exame que revelou notórias diferenças: “Verificámos então mudanças muito significativas e profundas nos indivíduos estudados, apenas em repouso, particularmente nas áreas do cérebro que nos ajudam a focar a mente e a atenção”.
Além disso muitos dos participantes no estudo relataram que agora eram capazes de pensar com mais clareza e dispunham de melhor memória, o que se veio a confirmar nos testes de memória a que se submeteram, com ganhos mensuráveis em cerca de 10 a 15 por cento: “Se isto ocorre apenas depois de oito semanas de prática de meditação, a 12 minutos por dia, imaginemos o que acontece com indivíduos profundamente religiosos e que se entregam a tais práticas diárias durante muitos anos”.
É óbvio que o âmbito da neuroteologia é científico e por isso não se confunde com a fé. Também não pretende responder à existência ou não de um ser superior, nem se move nos caminhos da transcendência, todavia fornece uma compreensão mais profunda do ser religioso.
Para quem argumenta que as experiências religiosas e espirituais nada mais são do que fenómenos biológicos, alguns destes dados podem parecer apoiar esse tipo de conclusão, mas, como sublinha o investigador: “os dados recolhidos também não eliminam especificamente a noção de que existe uma presença religiosa, espiritual ou divina no mundo”.
Entretanto Newberg publicou um outro livro que aborda as últimas descobertas da neuroteologia, o campo multidisciplinar que liga a neurociência aos fenómenos religiosos e espirituais: Newberg, A. (2018). “Neurotheology: How science can enlighten us about spirituality” (Como a ciência nos pode esclarecer sobre a espiritualidade), Columbia University Press.
René J. Muller, em Psychiatric Times afirma: “Os neuroteólogos argumentam que a estrutura e a função do cérebro humano nos predispõem a acreditar em Deus. Eles afirmam que o local do substrato biológico de Deus é o sistema límbico nas profundezas do cérebro, que há muito é considerado o centro biológico das emoções. Rhawn Joseph, um proeminente neuroteólogo, vai um passo além ao sugerir que o sistema límbico está repleto de “neurónios de Deus” e “neurotransmissores de Deus”.
Porém, David L. Smith, padre católico romano e psicólogo clínico, desafia a ideia de que a crença religiosa está enraizada em qualquer estrutura ou função cerebral específica: “Se os ‘neurónios de Deus’ ou os ‘neurotransmissores de Deus’ realmente existem no cérebro, serão defeituosos no agnóstico e ausentes no ateu?”
A verdade é que, apesar da sugestão de alguns investigadores, ninguém pode dizer que o cérebro humano está programado para produzir os conteúdos da consciência, meramente numa base biológica, incluindo a crença religiosa. Não será mais óbvio aceitar, com base na investigação científica, que alguns comportamentos e práticas religiosas suscitam a activação de partes do cérebro, com ganhos em diversas áreas?
Ou seja, que a massa de que somos feitos está preparada tanto para a imanência como para a transcendência, como a história multimilenar da humanidade comprova largamente desde sempre.
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