Acabou. Pelo menos a parte em que ainda podemos fingir que vimos os filmes apenas para os ver. A partir de agora começa aquela modalidade paralela dos festivais chamada matemática crítica, com um dia de intervalo para recuperar o corpo: contam-se estrelas, cruzam-se grelhas, somam-se entusiasmos, subtraem-se ódios, interrogam-se colegas à porta das salas e, finalmente, consegue-se fazer uma refeição de jeito depois de dez dias em que a fome foi quase sempre resolvida à pressa entre duas sessões. Esta noite até se pode dormir sem o despertador apontado às sete da manhã para chegar à sessão das 8h30. Um luxo. Amanhã, alguém — provavelmente a presidente do júri, Maggie Gyllenhaal — subirá ao palco da Sala Grande para anunciar quem ganha o Leão de Ouro 2026, depois de nós passarmos o dia a fingir que já sabemos. As tabelas da crítica italiana e internacional publicadas diariamente no Venezia News ajudarão à especulação e, cinco minutos depois, o júri poderá muito bem demonstrar que não leu nenhuma. É também para isso que servem os júris. O décimo e último dia da Competição decidiu, entretanto, não se despedir com champanhe e festarolas, coisas que aqui, sem mercado do filme e longe do frenesim de Cannes, são bem mais discretas.
O Irão, um médico e a difícil profissão de continuar vivo
A Bit of Light, de Ali Asgari, que no ano passado aqui apresentou Divina Comédia, chega à Competição com uma premissa que poderia facilmente cair no melodrama: um médico iraniano, depois de ser preso e de perder o consultório, decide suicidar-se. Antes disso resolve visitar a família, distribuir despedidas sem lhes chamar despedidas e passar algumas horas com os irmãos e a mãe. Felizmente, o cinema começa precisamente onde termina a sinopse. Asgari não está muito interessado no grande gesto; interessa-lhe tudo aquilo que parece pequeno. Uma refeição, uma conversa interrompida, uma mão, um silêncio, uma mãe que continua a cuidar do filho mesmo quando o filho já decidiu deixar de cuidar de si próprio. É dessa matéria aparentemente insignificante que o filme retira a sua força. Poderia carregar no sofrimento, pedir lágrimas ao ator, música ao compositor e lenços ao espectador. Faz o contrário. E quanto menos força a emoção, mais ela nos bate.
É inevitável que O Gosto da Cereja, de Abbas Kiarostami, atravesse a memória. Também ali um homem procurava a morte; também ali o cinema iraniano perguntava se existe alguma coisa suficientemente forte para nos convencer a permanecer vivos. Mas passaram quase trinta anos e mudou quase tudo. O Irão rural, de estradas de terra, montes, campos e horizontes, deu lugar à Teerão de Asgari, urbana, moderna, atravessada por automóveis, apartamentos, cafés e uma classe média que tenta simplesmente viver enquanto o poder político-religioso insiste em explicar-lhe como deve fazê-lo. O protagonista não está esmagado apenas por uma depressão individual. Atrás dele existe um país cansado de crise económica, repressão, instabilidade política e da sombra permanente da guerra, agora também alimentada pelas ameaças vindas de Washington. Asgari não precisa de transformar o filme num panfleto porque a política já entrou na cozinha, no consultório, na rua e, pior ainda, na cabeça das pessoas.
E talvez esteja aí o verdadeiro gesto político do filme: recusar que o desespero tenha a última palavra. Não através de uma redenção fabricada, mas pela soma quase ridícula das coisas que nos prendem uns aos outros. A Bit of Light percebe uma coisa elementar que muito cinema esqueceu: ninguém vive sozinho e, por isso, ninguém morre inteiramente sozinho. As nossas decisões deixam sempre estilhaços nos outros. Num país como o Irão, onde fazer cinema — e sobretudo fazê-lo com liberdade — pode transformar-se numa batalha direta contra um sistema que vigia, proíbe e controla, Asgari filma como quem resiste. Não precisa de levantar a voz. Limita-se a continuar a filmar. Às vezes chega.
Um advogado excelente para os outros
Depois deste mergulho pouco turístico pela alma humana apareceu Un bon avocat, do francês Tristan Séguéla, realizador de Tapie — ou Class Act, como a Netflix lhe chamou internacionalmente —, série sobre Bernard Tapie que lhe valeu um BAFTA Internacional. Agora volta a trabalhar com Laurent Lafitte e troca o empresário francês por outro homem convencido de que as regras são uma espécie de recomendação destinada aos restantes cidadãos. Léonard Landry (Lafitte) é um advogado criminal brilhante, espetacular, arrogante e viciado em cocaína. A combinação funciona razoavelmente bem até sofrer uma overdose em plena audiência. Quando um advogado cai redondo no tribunal, até o mais imaginativo departamento de comunicação tem dificuldade em apresentar aquilo como um simples “incidente de agenda”.
Sai da reabilitação com uma semana para tentar recuperar a carreira, preparar o próprio julgamento, defender clientes suficientemente poderosos para pagarem bem e, já agora, arranjar maneira de continuar vivo e solvente. Ao seu lado surge um jovem estagiário, interpretado por Anthony Bajon, com aquela ingrata função cinematográfica de possuir o bom senso que o protagonista perdeu algures entre dois processos e três linhas de cocaína. Séguéla conhece o ritmo, Lafitte conhece o espetáculo e o filme sabe perfeitamente aquilo que quer ser. Não reinventa o thriller judicial, nem precisa. Diverte-se com a elasticidade moral da profissão e com a facilidade com que um homem consegue passar anos a encontrar circunstâncias atenuantes para os outros sem descobrir uma única desculpa convincente para si próprio.
Lafitte transforma Landry num daqueles sujeitos insuportáveis que dão um enorme prazer a observar precisamente porque não gostaríamos de os ter como amigos, vizinhos ou, provavelmente, advogados. É inteligente, rápido, sedutor e está profundamente convencido de que a inteligência lhe garante imunidade perante as regras aplicáveis aos restantes mortais. Não garante. O corpo, descobrimos, respeita ainda menos a retórica forense do que um juiz mal-humorado. Un bon avocat é Netflix de embalagem premium — estrelas, droga, tribunais, poder, dinheiro, queda e uma possível redenção — mas possui uma agradável dose de veneno: o homem que passou a vida a vender versões plausíveis da verdade é finalmente obrigado a confrontar-se com uma versão de si próprio que não consegue contraditar, recorrer ou ganhar.
A Argentina não acabou quando acabou a ditadura
E depois chegou o argentino Marco Bechis, o realizador de Garage Olimpo, com Ritorno a Buenos Aires, e o dia ficou imediatamente mais pesado. Buenos Aires, 2008. Mariano Guerra, interpretado pelo italiano Adriano Giannini, regressa à Argentina 33 anos depois de ter partido para Itália. Vai testemunhar no julgamento dos antigos militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura. Encontra outros sobreviventes, espera pela sua vez de falar e percebe aquilo que provavelmente sempre soube: regressar a um lugar não significa regressar ao passado, porque o passado nunca deixou de viajar connosco. O elenco junta ainda Ana Celentano, Vero Gerez, Olivia Nuss e os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy, num filme rodado entre Porto Alegre e Turim, uma geografia de exílio bastante adequada a uma história construída precisamente sobre pessoas obrigadas a viver longe daquilo que lhes aconteceu.
Bechis sabe exactamente do que fala. Foi sequestrado em Buenos Aires em 1977, tinha 20 anos, conheceu os centros clandestinos da repressão e acabou expulso para Itália. O seu cinema nunca conseguiu — nem quis — libertar-se completamente dessa ferida. Garage Olimpo, Hijos e agora Ritorno a Buenos Aires pertencem à mesma obsessão: o que sobra num ser humano quando a História declara oficialmente que acabou?
O mérito do filme está em não oferecer a Mariano a confortável pose do herói sobrevivente. Sobreviver pode parecer uma vitória para quem olha de fora; para quem ficou vivo, pode transformar-se numa sentença. Existe a culpa de ter sobrevivido, a memória do que se disse ou fez sob tortura e a terrível suspeita de que permanecer vivo talvez tenha um preço moral impossível de pagar. Bechis filma a espera, os rostos e os silêncios, dispensa grandes diálogo ou discursos explicativos e afasta a violência do centro do enquadramento. A violência já aconteceu. Agora interessam-lhe as marcas que deixou. E isso é muito mais perturbador. As ditaduras gostam particularmente desta ilusão político-administrativa: um regime cai, realizam-se eleições, mudam-se as bandeiras nos edifícios oficiais e declara-se encerrado o assunto. O corpo das vítimas tem outro calendário.
Foi assim que terminou a Competição de Veneza 83. Um homem pergunta-se se ainda vale a pena viver; outro pergunta-se como conseguiu continuar vivo. Entre ambos, um advogado francês descobre que a cocaína não respeita currículos nem eloquência. Não é um mau resumo de dez dias de cinema: poder, culpa, sobrevivência, memória e pessoas a tentarem não ser esmagadas pelas máquinas — políticas, económicas, familiares ou simplesmente interiores — que nós próprios fomos construindo à nossa volta.
Amanhã muda o género cinematográfico. Saímos do drama e entramos no suspense leonino. Às 19h00 em Veneza, 18h00 em Lisboa, começa a cerimónia de encerramento e o júri terá finalmente de fazer aquilo que nós passámos dez dias a fazer nos cafés, nos corredores e à saída das salas: escolher. Possible Love, de Lee Chang-dong, chega à noite dos prémios à frente em muitas tabelas da crítica italiana e internacional e, para mim também, com razões mais do que suficientes para sonhar com o Leão de Ouro 2026. É daqueles filmes que não terminam quando começam os créditos: acompanham-nos até à rua e, em vez de diminuírem, crescem na memória, como um amor que se tornou finalmente possível.
Quer isto dizer que vai ganhar? Claro que não. Quer apenas dizer que passámos dez dias a aprender sobre cinema e amanhã poderemos voltar a aprender uma das mais antigas lições dos grandes festivais: os críticos fazem listas, os jornalistas fazem previsões e os júris fazem o que lhes apetece. Ainda bem. Se o Leão de Ouro pudesse ser atribuído pela soma das estrelas de uma tabela, Veneza não precisava de júri. Bastava uma calculadora. Amanhã saberemos quem leva o Leão de Ouro 2026. Até lá, felizmente, ainda podemos continuar a discutir cinema.