Quando preciso de inspiração ou de ensinamentos, não preciso de olhar para o horizonte no cimo de uma montanha, ou de estar sentado na praia a vislumbrar o mar, ou de fazer um retiro de silêncio, na Índia preferencialmente.
Habitualmente só preciso de cinco minutos de LinkedIn.
Quando estou mais em baixo ou desiludido com o mundo em que vivemos, sem grande esperança no futuro, o LinkedIn realinha-me os “chakras”.
Como posso ter medo do futuro quando o mundo está carregado de líderes, CEOs, directores, CFOs, gurus, altruístas, profissionais premium, gourmet, pensadores, filósofos….consultores, poetas, escritores, “influencers” e comentadores.
Fico assoberbado com tanta riqueza humana que nos rodeia.
Todos os dias há alguém com alguma epifania ou irritação relacionada com aquilo que viu no trabalho ou no supermercado ou no ginásio, degenerando num texto profundo e filosófico e que termina sempre com uma questão. “O que acham? Concordam?”
Todos os dias há alguém que nos tenta ensinar como devemos fazer para sermos os melhores, os mais eficientes, os que melhor gerem o trabalho e a justiça no mesmo. Tudo isto acompanhado com uma fotografia de um computador e uma caneta.
Todos os dias há alguém que nos fala do que acabou de fazer, ou o que está a começar a fazer. Um curso, um doutoramento, uma pós graduação, uma palestra, uma dissertação. Sempre com um sentimento de honra, entusiasmo e dedicação. A excitação é imensa!
Todos os dias há alguém que se reformou aos 40 anos, geralmente com uma foto na praia, muito estilo “roots”, revelando como é bom dedicar-se à vida e à família, falando de liberdade, prazer e amor.
Na grande maioria dos casos, salvo raras excepções, que as há, parece tudo uma mão cheia de nada.
Começamos a partilhar tudo o que ainda não foi feito. Basicamente somos tudo antes de sê- lo.
Não interessa se aprendemos, não partilhamos resultados, apenas o que fizemos ou vamos fazer. É como levar os livros para a praia e não estudar. Fingimos que estudamos e temos um certo conforto no fingimento. Mostrar que estivemos lá. Digamos que tudo o que rodeia o produto final é mais importante do que o produto final.
Recentemente, acompanhei o lançamento de um livro. Meses antes, o autor foi feroz na publicidade falando sobre tudo menos o livro em concreto.
Fotos do escritor, seja no ginásio, a beber café, a pensar. Após o lançamento, poucos dias depois, selfies com lágrimas nos olhos, centenas de pessoas a publicar fotos da capa do livro, a elogiar fervorosamente o autor. Houve uma histeria e alavancagem do mesmo sem qualquer fundamento. Acredito que a maioria das pessoas ainda não o tinha lido, e provavelmente nem o irão ler. No entanto, a necessidade de fazer parte de algo faz com que as pessoas se entusiasmem e falem de tudo antes de tudo acontecer.
Parece que para além de estarmos a viver um período de toxicodependência digital, somos uns verdadeiros “ejaculadores precoces”. Para meu espanto, esta condição foi muito além da Urologia. Está imersa na sociedade moderna.
Comentamos e falamos antes, durante e segundos após o “orgasmo”. Isto aplica-se a tudo em geral. Seja no trabalho, férias ou lazer. Inicio um curso , talvez nem assista as aulas, nem me sento a estudar um segundo e não aprendi nada, no entanto, lá fica a foto do “badge” com o nosso nome a dizer que o estamos a frequentar.
Ora pomos a foto a dizer que estamos a ser pais, ora que não estamos, que estamos a viajar, que estamos a contemplar, que estamos a tratar de nós e acima de tudo a ensinar-nos a viver. Que escola da vida! O LinkedIn terá sido criado para as pessoas falarem de trabalho, agora é para falarem de tudo que não seja o trabalho.
Lembro-me do tempo em que me sentava horas a estudar e de facto fazia-o. Nunca pensei em colocar uma fotografia a dizer que estava a estudar, como se isso me credibilizasse.
São, de facto, tempos despudorados e sem vergonha e por isso de grande desconfiança. Nunca saberemos a verdade sobre as pessoas, sobre quem são genuinamente e se nos seus gestos não existe, sempre, um objetivo tácito.
É tanto o ruído , que fazer um scroll numa qualquer plataforma social cansa muito. O autor Pedro Paixão que admiro muito, tem um livro com o título “Viver Todos os Dias Cansa”. Se ele abrisse o LinkedIn já estava morto.
Parece que o mundo vai acabar amanhã, e temos que deitar tudo cá para fora e já, não vá ele mesmo acabar.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.