Há uma pergunta que parece demasiado simples para merecer grande atenção: quanto custa aquilo que temos? A resposta, porém, nem sempre é tão óbvia como parece. Muitas pessoas sabem quanto recebem todos os meses, conhecem o valor da prestação da casa, sabem quanto pagam de seguro ou quanto custa o pacote de telecomunicações. Mas, quando se pergunta quanto gastam realmente por mês, quanto lhes custa um crédito até ao fim ou o que está efetivamente coberto por um seguro, a resposta já não é tão imediata.
E este desconhecimento tem um preço.
Não necessariamente porque alguém esteja a gastar demasiado ou tenha contratado produtos inadequados. O problema está em tomar decisões sem conhecer completamente a realidade sobre a qual estamos a decidir. E, quando isso acontece, é fácil confundir perceção com realidade.
Imagine uma família com um rendimento líquido mensal de 3.000 euros. Sabe que recebe 3.000 euros, conhece a prestação da casa, que é de 900 euros, e acredita que, depois de pagar as principais despesas, ainda consegue poupar alguma coisa. Mas, ao chegar ao final do mês, o dinheiro desaparece. Onde? Não sabe exatamente.
É aqui que começa o problema.
Se essa família identificar 900 euros de crédito à habitação, 300 euros de supermercado, 150 euros de energia e telecomunicações, 250 euros de transportes, 200 euros de seguros e outros compromissos e mais 400 euros em despesas correntes, poderá parecer que ainda existe uma margem confortável. Mas faltam as despesas que raramente entram nas contas mentais: refeições fora, pequenos pagamentos, subscrições, compras ocasionais, despesas escolares, manutenção do automóvel, saúde ou outras despesas não mensais que, quando distribuídas pelo ano, representam um valor significativo.
O dinheiro não desapareceu. Foi gasto. O problema é que não sabemos exatamente onde.
E esta diferença entre saber e perceber é fundamental. Saber que se recebe 3.000 euros é informação. Saber quanto custa, em média, manter o nosso modo de vida é conhecimento. E conhecer essa diferença é o que permite tomar decisões.
O mesmo acontece com o crédito.
É relativamente comum alguém dizer: “Pago 850 euros pela minha casa.” Mas os 850 euros são a prestação mensal, não o custo do crédito. O custo total depende do capital financiado, da taxa de juro, do prazo, do spread, dos seguros e de outros encargos associados. Um empréstimo de 200.000 euros a 30 anos não custa 200.000 euros: ao longo do tempo, o montante efetivamente pago será bastante superior, porque inclui os juros e os restantes custos associados ao financiamento.
Isto não significa que o crédito seja uma má decisão. Significa apenas que uma decisão financeira importante deve ser tomada conhecendo o seu verdadeiro custo.
Aliás, duas pessoas podem contratar empréstimos com prestações muito semelhantes e acabar por pagar valores bastante diferentes pelo financiamento. Basta existirem diferenças no prazo, na taxa de juro, no spread ou nos produtos associados. Uma prestação mais baixa pode, por exemplo, resultar simplesmente de um prazo mais longo, o que reduz o encargo mensal mas pode aumentar significativamente o custo total do crédito.
É por isso que olhar apenas para a prestação pode ser enganador.
O mesmo princípio aplica-se aos seguros. Muitas pessoas sabem que pagam 30, 40 ou 50 euros por mês, mas não sabem responder a uma pergunta bastante mais importante: “O que é que este seguro paga se alguma coisa acontecer?”
Num seguro de vida associado ao crédito à habitação, por exemplo, é fundamental conhecer as coberturas contratadas e perceber o que acontece em caso de morte, invalidez ou outras situações previstas na apólice. No seguro multirriscos habitação, importa saber que riscos estão cobertos, quais os capitais seguros, quais as exclusões e quais as franquias. Pagar um seguro não significa automaticamente estar protegido para tudo aquilo que imaginamos.
O desconhecimento também aparece nas despesas mais pequenas.
Uma subscrição de 12,99 euros por mês parece irrelevante. Cinco subscrições semelhantes representam quase 65 euros mensais, ou cerca de 780 euros por ano. Um serviço que já não utilizamos, um seguro que nunca mais comparámos ou um contrato de telecomunicações que continuamos a pagar simplesmente porque “sempre foi assim” podem parecer decisões insignificantes quando analisados individualmente. Quando somamos tudo, deixam de ser insignificantes.
É por isso que conhecer os nossos números não significa viver obcecado com cada euro. Significa saber onde estamos para podermos decidir para onde queremos ir.
E talvez esta seja uma das razões pelas quais tantas pessoas sentem que não conseguem melhorar financeiramente apesar de fazerem um esforço. Tentam poupar sem saber quanto gastam, tentam reduzir despesas sem saber quais têm maior impacto, procuram melhores investimentos sem terem criado margem financeira ou procuram um crédito mais barato olhando apenas para a prestação mensal.
É difícil melhorar aquilo que não se mede e é impossível decidir bem sobre aquilo que não se conhece.
A solução não passa necessariamente por construir uma folha de cálculo complexa ou transformar a gestão financeira numa tarefa diária. Pode começar por algo muito mais simples: fazer um diagnóstico honesto.
Quanto entra todos os meses? Quanto sai, em média? Quanto está comprometido com créditos? Quanto representam os seguros? Quanto custam os contratos de energia e telecomunicações? Quanto é gasto em serviços e subscrições? Quanto se paga efetivamente pelos créditos, para além da prestação? E, sobretudo, quanto sobra no final de um mês normal?
Depois, importa olhar para os contratos que representam compromissos mais significativos. Não apenas para saber quanto se paga, mas para perceber o que se contratou, em que condições e se essas condições continuam adequadas à realidade atual.
Esse exercício pode produzir surpresas. Pode revelar despesas que já não fazem sentido, contratos que merecem ser renegociados, seguros que precisam de ser melhor compreendidos ou créditos cujas condições justificam uma nova análise. Mas pode também concluir que determinadas decisões continuam adequadas.
E isso é igualmente importante.
Conhecer não significa necessariamente mudar. Significa decidir com consciência se devemos mudar ou manter.
Ao longo desta rúbrica temos insistido numa ideia: ter finanças com cabeça não significa encontrar fórmulas mágicas para gastar menos ou ganhar mais. Significa desenvolver a capacidade de questionar aquilo que damos como adquirido. E, para questionar, precisamos primeiro de conhecer.
Porque o desconhecimento financeiro também tem um custo. Pode ser o juro que continuamos a pagar sem perceber que existem alternativas, a comissão que não conhecíamos, o seguro que não cobre aquilo que julgávamos, o serviço que já não utilizamos ou simplesmente a ausência de margem que nos impede de enfrentar um imprevisto.
Nenhum destes custos aparece necessariamente numa fatura com a indicação “custo do desconhecimento”. Mas todos podem ter impacto no orçamento.
Ter finanças com cabeça começa por saber quanto custa a nossa vida financeira.
Não é preciso saber tudo sobre finanças. É preciso conhecer aquilo que condiciona as nossas decisões. Saber quanto ganhamos é importante. Saber quanto gastamos é fundamental. Saber quanto devemos, quanto pagamos, o que contratámos e o que realmente estamos a receber em troca desses pagamentos é o passo seguinte.
Só depois podemos comparar, renegociar, mudar ou simplesmente decidir manter.
E talvez a pergunta mais importante não seja “estou a pagar demasiado?”. Talvez seja esta: “Se eu nem sei exatamente quanto pago e o que tenho contratado, como posso saber se estou a pagar o valor certo?”
No próximo artigo vamos aplicar esta mesma lógica a um dos seguros mais importantes para quem tem uma casa: o seguro multirriscos habitação. É muitas vezes visto apenas como mais uma condição associada ao crédito à habitação, mas a sua função vai muito além dessa obrigação contratual. Vamos perceber o que este seguro protege, quais as principais coberturas, o que pode ficar de fora e porque é que proteger uma casa não deve ser encarado apenas como uma exigência do banco, mas como uma forma de proteger um dos patrimónios mais importantes de uma família.
Porque conhecer o preço de um seguro é importante.
Saber o que estamos a proteger é ainda mais importante.
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