Como sucede com inúmeros termos da nossa língua (e de outras línguas chamadas “vivas”) a etimologia da palavra é frequentemente sacrificada no altar do uso corrente e popular, que acaba por lhe enxertar novo significado. Um desses termos é “seita”. Para muito boas almas em Portugal, seitas são todas as correntes religiosas que não a católica romana. Ainda há umas semanas Paulo Portas prestou esse mau serviço na televisão ao classificar como “seitas religiosas” nos Estados Unidos tudo que não era da sua religião.
Com efeito, seitas são sempre as outras tradições religiosas que não a nossa. A ideia pode ser associada ao conceito de “igreja verdadeira” – coisa que não existe! – ou mesmo “religião verdadeira”, o que ainda será pior.
Se há área onde o sectarismo campeia é no mundo das religiões. O extremismo ou sectarismo mais perigoso de todos é, sem sombra de dúvida, o religioso. A religião mexe não apenas com filosofias ou doutrinas políticas ou sociais, mas com crenças profundas que se inserem no domínio da transcendência, paredes meias com a pura irracionalidade. E no entanto a fé não é irracional, antes se move num patamar diferente da razão.
Convém dizer que o cristianismo nasceu como uma seita dentro do judaísmo da segunda metade do I século. Jesus de Nazaré era judeu. Saulo de Tarso, mais tarde o grande “apóstolo dos gentios”, era não só judeu, como fariseu, e fazia questão de o recordar sempre que falava com judeus: “E Paulo, sabendo que uma parte era de saduceus e outra de fariseus, clamou no conselho: Homens irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseu; no tocante à esperança e ressurreição dos mortos sou julgado” (Actos 23:6). Portanto, quando alguns católicos consideram seitas todas as outras correntes cristãs conviria lembrar-lhes as palavras de Jesus: “E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?” (Mateus 7:3).
Em Ciência das Religiões a utilização do termo “seita” não faz sentido, dada a carga pejorativa que carrega. E mesmo quanto à origem etimológica da palavra muito há a dizer, em termos de aplicação ao campo religioso. Se seguirmos a definição do dicionário “Grupo que segue uma doutrina que deriva ou diverge de uma religião”, isto é uma nova vertente religiosa que procede de uma anterior, temos um problema, mesmo com as religiões monoteístas.
Tanto o cristianismo como o Islão procedem do Judaísmo, com diferentes nuances, e o Islão apresenta ainda influências cristãs (Jesus como profeta, Maria de Nazaré). Mas mesmo os hebreus sofreram influências pagãs recorrentes como se atesta pelo estudo histórico do Antigo Testamento. Não existem religiões puras (sem influências externas) tal como não existe criação intelectual ou artística pura, no mesmo sentido.
Um teólogo espanhol publicou recentemente um livro em Portugal no qual afirma que “mais de 2% da população portuguesa pertence a seitas”. Segundo o DN, à partida ele refere-se a grupos cristãos restauracionistas como Testemunhas de Jeová, Mórmons e Adventistas do Sétimo Dia: “Nos países ocidentais, estima-se que cerca de 1% da população pertence a seitas. Se pudermos aplicar este cálculo a Portugal, estaríamos a falar de cerca de 100.000 portugueses em seitas”.
Mas o autor de “Seitas: Mito e Realidades” vai mesmo mais longe. Inclui também dois grupos religiosos lusófonos no mesmo saco: a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e a Igreja Maná bem como muitos outros “grupos orientais, esotéricos, New Age, etc”. Ou seja, mete no mesmo saco grupos cristãos restauracionistas, neopentecostais, carismáticos, orientais e tudo o mais que apareça.
Permito-me discordar deste tipo de abordagem. Desde as religiões mais antigas às recentes, em termos históricos, todos devem ser considerados grupos, confissões ou tradições religiosas. Classificar umas quantas confissões como seitas fica mal a um ministro religioso. Mesmo quando muitas delas nos merecem as maiores reservas, por várias razões.
Várias vezes ouvi em conversa com o saudoso Pe. Vítor Feytor Pinto (1932-2021), pároco do Campo Grande, antigo coordenador da Pastoral da Saúde, referir com muita graça “a minha seita” falando da sua igreja católica… Sempre entendi essa expressão como um exercício de abertura ao diferente, de tolerância para com o outro e de respeito a todos.
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