Ciclicamente vemos notícias na comunicação social sobre pastores evangélicos ligados a suspeitas de crimes. Diga-se desde já que praticamente todas essas notícias se referem a indivíduos estrangeiros, frequentemente oriundos do Brasil, e cujas comunidades de fé nem sequer integram a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP), que conta um século de existência e representa a generalidade das comunidades de fé evangélica em Portugal, ou o Conselho Português de Igrejas Cristãs (COPIC), ligado ao World Council of Churches, fundado em 1948, e que integra as igrejas protestantes reformadas.
Ambas as instituições são reconhecidas pelo estado português e mantêm um diálogo permanente e fraterno com a Conferência Episcopal (igreja católica).
Desta vez foi o Expresso e o CM que noticiaram a existência duma rede condenada por trazer imigrantes ilegais para Portugal, um esquema que passava pela criação de empresas para angariar trabalhadores. Os condenados são dois pastores brasileiros que teceram um esquema criminoso que introduziu no país mais de 150 imigrantes ilegais, durante sete anos. Foram mais de vinte os arguidos acusados dos crimes de tráfico de seres humanos e angariação de mão-de-obra ilegal, mas as investigações ainda prosseguem também a nível internacional.
Diga-se em abono da verdade que a candidatura de grupos denominados neopentecostais como a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) à Aliança Evangélica foi chumbada em devido tempo, assim como a de outros grupos, de pendor carismático mas com graves problemas de falta de transparência na sua organização interna.
Depois da sua rejeição a IURD ainda tentou criar uma federação de igrejas para concorrer com a AEP, procurando seduzir pequenos grupos a partir da
sua posição expressiva, mas a iniciativa veio a revelar-se um fiasco completo.
As igrejas evangélicas dignas desse nome têm mecanismos de fiscalização das contas exercidos por parte dos fiéis, e uma gestão transparente pela qual as lideranças prestam contas regularmente à comunidade de fé. Mas essa não é a prática de muitos dos grupos autodenominados evangélicos que por aí pululam, e que assim se prestam a toda a espécie de abusos.
Como separar então as águas?
O estado receia sempre ferir o princípio sagrado da liberdade religiosa nos regimes de direito democrático, pelo que vai pactuando com situações pouco claras. Isso sucede porque normalmente os governantes não entendem muito de matéria religiosa, mas também não fazem nada para se assessorar de especialistas no assunto.
Hoje em dia qualquer indivíduo chega a Portugal, declara-se pastor, mesmo que nunca tenha sido ordenado a essa função eclesiástica, e abre uma igreja dita evangélica na forma jurídica de associação. Depois procura viver à conta dos donativos dos fiéis. Quando a coisa não resulta desaparece, de um dia para o outro, e deixa atrás de si um rasto de dívidas de aluguer do espaço de culto, do fornecimento de água, electricidade, telefone, e vai para outra cidade, região ou país fazer o mesmo.
É por isso que se torna necessária e urgente a criação duma Ordem de Pastores e Ministros do Evangelho, por um organismo ligado à AEP, ao COPIC e destinado exclusivamente a atribuir a creditação temporária e renovável dos indivíduos indicados pelas igrejas integradas por ambas as plataformas eclesiásticas.
Essa creditação permitiria fazer a separação pública e notória entre os vigaristas que pululam no meio, quase sempre vindos de fora do país e os religiosos sérios, que apesar de tudo são a regra. De certo modo essa creditação salvaguardaria também os senhorios e os fornecedores de serviços.
Apesar de os evangélicos em Portugal constituírem a maior minoria religiosa, a World Evangelical Aliance é uma das maiores plataformas religiosas globais ao integrar mais de 600 milhões de fiéis em todo o mundo, como expliquei em tempos nesta mesma coluna.
Para bem do País, do meio religioso e da justiça, é tempo de separar as águas.
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