Algumas reações à polémica em torno da vinda de Jerry Seinfeld a Portugal e à decisão de vários artistas portugueses de abandonarem o festival têm qualquer coisa de muito errado.
Li e ouvi vários comentadores que começam por confessar que não fazem a mínima ideia de quem são os artistas, que desconhecem o seu trabalho, mas sabem que são medíocres e oportunistas à procura de cinco minutos de fama. Até dizem que os artistas que cancelaram “nunca fizeram nada de relevante”. Isto dito por quem, segundos antes, admitia nunca ter ouvido falar deles. Eu pergunto: como sabem tudo isto? E respondo: não sabem. Inventam.
É uma forma bastante pobre de argumentar, mas parece ter encontrado espaço suficiente em jornais, televisões e redes sociais. Até parece que virou moda.
Não conhecer um artista não é um problema. Ninguém é obrigado a conhecer todos os profissionais que trabalham em Portugal. O problema é transformar essa ignorância num argumento para os desqualificar e, pior ainda, presumir as suas motivações sem conhecer uma única delas.
É difícil imaginar maior arrogância.
Também tenho dificuldade em perceber esta súbita preocupação com a suposta mistura entre política e espetáculo. Os artistas decidiram não participar num festival porque consideram que a presença de determinada pessoa e as suas posições públicas são incompatíveis com os seus valores. Não estão a proibir Seinfeld de atuar. Estão a decidir que não querem estar naquele palco.
É uma escolha. E é uma escolha política, como tantas outras que fazemos todos os dias.
O problema parece ser outro. Uns entendem a liberdade de expressão como um direito exclusivo de quem fala e esquecem-se de que também existe a liberdade de decidir não colaborar, não comprar, não promover, não aplaudir e até de mudar de opinião.
Depois apontam o dedo e dizem que é cancelamento.
Pois bem, nem todo o cancelamento é censura. Há pessoas e posições que, pelo que defendem e legitimam, merecem ser socialmente contestadas e boicotadas. Se alguém defende ou procura normalizar a morte, a destruição e a expulsão de populações civis, não vejo por que razão deveríamos fingir que estamos apenas perante mais uma opinião política, perfeitamente equivalente a qualquer outra.
A liberdade não nos obriga à neutralidade moral.
Convém não confundir, deliberadamente ou por conveniência, aquilo que está realmente em causa. A vinda de Jerry Seinfeld não está a ser contestada por ele ser pró-Israel. Não é essa a questão. O que está a ser contestado são as posições que assumiu perante o genocídio em Gaza, as afirmações desumanizadoras sobre os palestinianos e o discurso de ódio que tem decidido amplificar contra quem defende a libertação da Palestina.
Isto não é uma simples questão de “ter uma opinião política diferente”. Não podemos aceitar essa falsa equivalência.
Durante o Holocausto, não diríamos que alguém que apoiasse Hitler e as SS e condenasse quem resistia ao extermínio estava apenas a exprimir uma opinião política da qual poderíamos discordar.
Não estou a comparar Seinfeld a Hitler. Estou a comparar a forma como a palavra “opinião” serve para neutralizar o que não é neutralizável. Seinfeld visitou a Caliber 3, uma academia israelita de treino militar situada na Cisjordânia ocupada. A academia treina crianças e adolescentes e usa como alvos de tiro figuras árabes em tamanho real. Seinfeld descreveu a experiência como “um dos melhores dias da minha vida”. Em 2025, comparou o movimento “Free Palestine” ao Ku Klux Klan, considerando-o até mais perigoso. São declarações registadas. É isto que está em causa quando se diz que não se trata de uma opinião política equivalente a qualquer outra.
Também não é preciso fingir que Jerry Seinfeld não tem talento. Tem. É um humorista brilhante de enorme importância na história da comédia. Isso não anula o que escolhe dizer e defender publicamente. O talento não se confunde com virtude. A sua obra brilhante não torna menos grave o que decidiu assumir fora dela.
É isto que tanta gente parece querer confundir.
O que está a acontecer na Palestina não é uma discussão académica sobre ideologias. Não é uma simples divergência entre esquerda e direita. Não é uma questão de gosto político nem religioso. Trata-se de uma população civil, com milhares de crianças, submetida a uma violência devastadora.
É possível discutir tudo: as causas, a história, as responsabilidades de cada um dos lados… mas não se pode perder aquilo que deve ser o ponto de partida de qualquer ser humano: as vidas que estão a ser dizimadas. E contra a desumanidade não pode haver tolerância em nome de uma falsa neutralidade.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos surgiu porque a Europa conheceu até onde pode chegar a desumanização quando se começa a estabelecer prioridades entre quem merece ter direitos e proteção e quem não é sequer considerado humano.
O “Never again” tem de significar alguma coisa nos dias de hoje. São seres humanos que estão a sofrer um massacre atual, sustentado por armamento e apoio diplomático ocidental, incluindo de países que se dizem guardiões dos direitos humanos. Estamos a falar de vidas destruídas todos os dias.
Por isso, digo a todos os artistas que sacrificaram uma excelente oportunidade de trabalho com um dos melhores comediantes da atualidade em nome da defesa de valores humanos inegociáveis: muito obrigada e muito respeito.
O ideal teria sido que tivessem tomado essa decisão antes de aceitar participar? Talvez. Mas não vejo nisso a questão essencial. O que importa é que pararam, refletiram e decidiram não continuar quando perceberam que aquela participação entrava em conflito com os seus valores.
Mudar de atitude ou opinião depois de refletir é uma possibilidade que uma sociedade livre deve preservar. E, perante uma realidade desta dimensão, reconhecer que uma decisão anterior deixou de ser compatível com os nossos valores exige coragem e bravura.
Não me interessa e não devia interessar a ninguém a opinião de quem confessa não os conhecer e, ainda assim, se sente habilitado a explicar-nos quem eles são e o valor que têm.
Interessa-me e devia interessar a todos que tenham escolhido alinhar a sua atividade profissional com aquilo em que acreditam.
Triste é o estado de quem comenta apresentando a ignorância como conhecimento. Mais triste ainda é haver quem aplauda essa arrogância.
Discordar e criticar é legítimo. Até achar absurda a decisão dos artistas é também legítimo.
Não é sério substituir a discussão pela desqualificação pessoal e muito menos aceitar que a defesa da dignidade humana seja tratada como uma excentricidade de gente medíocre à procura de cinco minutos de fama.
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