Sou peão, ciclista, condutor e utilizador de transportes públicos. Nos últimos meses, já tive de me desviar de peões que andavam com os olhos postos no telemóvel, ciclistas a fazerem razias em cima de passeios, utilizadores de trotinetes em zonas pedonais, carros a desrespeitarem sinais vermelhos e passadeiras a 100 km/h no meio da cidade e autocarros a passar largos segundos depois de o sinal ficar vermelho.
Após viver quase dez anos no estrangeiro, o regresso a Portugal foi marcado por uma assustadora sensação de que, sempre que circulo no espaço público, me torno invisível ou a minha vida perde todo o valor. E nunca senti isso de forma tão vincada como perante automobilistas.
Eu sei que o debate público sobre a segurança rodoviária se costuma ter naquele elevado nível do “Os automobilistas? E os ciclistas? Esses é que são completamente desvairados!” contra um “Os ciclistas? Os automobilistas é que parece que nos estão sempre a querer matar!”. Mas a verdade, e isto pode chocar muita gente, é que o nível de civismo e respeito pelos outros está, de forma geral, na sarjeta. Pouco importa se é pessoa que usa calções de licra e se julga no sprint da etapa final do tour ou indivíduo que se imagina o Michael Knight no seu blusão de cabedal.
A diferença está, obviamente, no grau de letalidade da arma que se conduz. Entre um projétil de uma tonelada a 70 km/h e um outro de 15 kg a 30 km/h, não é necessário recorrer a complexas equações matemáticas para perceber a abissal diferença. Uma pedrada na cabeça não é agradável, mas não nos passa pela cabeça compará-la a uma bomba bunker buster de duas toneladas.
Não posso deixar de assistir com um misto de incredulidade e exasperação a tentativas de diminuir vias para bicicletas, proibir sistemas de trotinetes partilhadas, aumentar número de vias para automóveis, implementar limites de velocidade mais permissivos ou resistir a processos de pedonalização e de proteção de peões.
Como sempre, a raiz dos problemas passa despercebida à boleia de um espaço público e político que premeia o imediato e o contencioso, a peixeirada barulhenta em detrimento das políticas públicas lentas, pensadas e sem espalhafato. É mais um fruto da mercantilização da política. Os partidos precisam de ganhar eleições, os seus quadros têm carreiras que dependem disso e, tal como várias indústrias perceberam que ganhavam mais dinheiro a fazer produtos reles e baratos, também os partidos do “arco do poder” se aperceberam de que garantiam melhor a sua presença nos lugares de poder se se rendessem e até incentivassem uma esfera pública em que anda toda a gente entretida a agredir-se.
O objetivo não é representar as pessoas, nem resolver problemas, nem pensar um futuro justo e confortável para todos. O objetivo é, antes, encontrar aquele ponto de equilíbrio ideal que permite dar a entender a uns que se está do lado deles sem que se seja tão claro que se antagonize demasiado os outros. Particularmente se “os outros” tiverem peso eleitoral.
Para o primeiro objetivo é preciso conhecimento, ideologia, planos, humildade democrática, ouvir as pessoas, sugerir soluções e estar preparado para as alterar, construir o futuro coletivamente. Para o segundo objetivo é preciso contratar exércitos de soldados do marketing político. A primeira opção olha para a política como espaço de concretização democrática, a segunda como espaço de concretização do próprio.
Voltemos às trotinetes. Se a política local fosse um espaço de confronto de ideias diferentes de cidade, com propostas claras de base comunitária, talvez isto não fosse um problema. Talvez se olhasse a montante para as cidades hiper-individualizadas movidas a automóveis que ocupam figurada e literalmente o espaço que devia ser das pessoas.
O problema não são as trotinetes. O problema é que, quando se olha para as propostas políticas dos maiores partidos, não há ninguém que consiga formular uma imagem mental do tipo de cidade que eles querem. E o pior é que os próprios também não.
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