Num tempo em que as viagens ao espaço voltaram a aterrar nas notícias, e tirando no coração do Douro vinhateiro, onde prevejo que nunca será esquecido, talvez poucos se lembrem de Tadeu, o rapaz-foguete de Nagozelo do Douro, freguesia de São João da Pesqueira, o concelho mais antigo do país. Naquelas terras, viveu o homem que viria a ser conhecido por Marquês de Pombal, mas nelas uma mulher deu à luz, aos dezassete dias do mês de fevereiro do ano de mil novecentos e oitenta e quatro, um varão que, embora desconhecido no que sobra do país, muito mais conhecido seria em toda a região. Não é mentira: todas as gentes durienses se lembram dele e das vezes que foi preciso ir buscá-lo ao rio, até uma vez se ter afundado como uma pedra, no nascer do inverno de 2003.
Não exagerarei se afirmar que Tadeu foi o mais notável dos entusiastas espaciais do nosso país. Fez o doutoramento na Universidade de Ciências Aeroespaciais de Lovaina, na Flandres? Não. Estagiou durante um ano na base espacial soviética de Baikonur, no Cazaquistão? Não. Era convidado para festas do jet set no eixo Estoril-Cascais? Não. Deu entrevistas a jornais, rádios e televisões? Também não. Convenhamos: e isso que importa? O que podem currículos desses se isentamente comparados com o mais puro entusiasmo de um jovem mergulhado num rio de sonhos e imaginação?
Tadeu sentia coisas deste e de outros mundos. A mãe, Arminda Freitas Teodósio, dizia-se possuidora de um sétimo sentido (o que me obrigará, talvez numa outra ocasião, a explicar como funcionava aquele que afirmava ser o sexto), que alegadamente lhe permitia encontrar água a grandes profundidades. Trabalhou mais de quarenta anos como vedora, sendo o principal ativo da empresa dirigida pelo marido, que era poceiro, a Furos Fundos Lda. O filho habituou-se desde garoto a acompanhar os pais durante os trabalhos e, desse ambiente de descida às profundezas da terra, parece-me admissível que tenha nascido a ambição desgovernada de subida ao firmamento. Tadeu sonhava ter um ZX Spectrum, como o do primo, mesmo quando eles já não se fabricavam, mas desejava ainda mais chegar a Júpiter antes dos soviéticos. E toda a gente o sabia, porque Tadeu ensaiava sem cessar.
De cada vez que passava no minimercado da Sónia, uma moça de Valongo dos Azeites, jurava que haveria de levá-la à lua, mesmo sem saber o que tal promessa poderia significar fora do seu universo povoado por Gagarins, Shepards, Armstrongs e outros cosmonautas e astronautas, a maioria deles obscuros para o comum cidadão, mas não para ele, Tadeu, o rapaz-foguete de Nagozelo do Douro. Pouco prestigiada em termos de beleza, e por isso pouco acostumada a galanteios, Sónia ria-se ao ouvir os delírios cósmico-passionais de Tadeu. Não conseguia resistir, era-lhe impossível fingir e esconder a felicidade que a inundava ao sentir-se desejada. E então ele ria-se também, mais ainda do que ela, deitando logo depois a correr rua abaixo, norteado pelo rio brilhante, que lá do fundo o seduzia espreitando como uma sereia por um monóculo. Tadeu conhecia o dialeto daquelas águas, mas nadava tão bem como uma nave espacial. Pouco lhe interessava. Nada timorato, Sónia já a telefonar para os bombeiros, Tadeu continuava a correr até ao cais dos passadores, ao qual chamava base de lançamento, e atirava-se ao ar como um foguete, jogava-se em frente e para cima, caindo com estrondo sobre as águas, inglórios dois segundos depois: splash!
No instante seguinte, porque tinha como segunda ambição ser poeta, começava a gritar: acudi, gente de boa grei! Acudi, que Gagarin se afoga! Glup. Lançamento abortado por sob o manto celestial! Glup. Nasci com as asas dos meus sonhos, mas ai de mim que – glup – morro por me faltarem guelras e barbatanas. Acudi, espíritos nobres! Glup. Gente maior, acordai! Dizia tudo isto enquanto ia engolindo a água que, tirando naquela trágica tarde fria de 2003, acabaria por vomitar deitado sobre o cais, os bombeiros reanimando-o e Sónia, de joelhos, segurando-lhe as mãos frias.
Foi a descer e não a subir, foi em modo submarino e não foguetão, a última missão de Tadeu. Lembrei-me dele hoje, como decerto muitos dos que o conheceram costumam lembrar-se, quando de carro se abeiram do cais dos passadores, atualmente cheio de ricos barcos de passeio atracados, ou do minimercado da Sónia, fechado desde aquele dia.