A depressão Kristin não foi apenas mais um episódio de meteorologia extrema. Foi um teste à capacidade do Estado português para antecipar, coordenar e liderar em situação de crise. E, mais uma vez, o resultado foi preocupante.
Quando os efeitos do mau tempo já eram evidentes no terreno — populações isoladas, estradas destruídas, prejuízos significativos — a resposta do Governo surgiu tarde e a reboque dos acontecimentos. Não houve sinal de antecipação estratégica, apenas uma sucessão de reações avulsas, muitas vezes desencadeadas pela pressão mediática.
Situações de crise não nos são completamente estranhas. A tal aprendizagem a que a ministra da Administração Interna não se cansou de aludir podia e deveria ter sido feita por observação do que se passou noutros países aqui ao lado.
Em Espanha, por exemplo, episódios recentes de tempestades severas e cheias em regiões como Valência, Andaluzia ou Catalunha levaram à ativação imediata de planos de emergência multinível, com comunicação coordenada entre governo central, comunidades autónomas e municípios, mobilização precoce das forças armadas (UME) e mensagens claras à população desde as primeiras horas.
Em Portugal, porém, a liderança política demorou a surgir — e, quando surgiu, foi fragmentada.
A ausência política da Ministra da Administração Interna foi particularmente notória. Num contexto em que a Proteção Civil exige liderança visível, comunicação clara e coordenação institucional, o silêncio não foi neutro: foi um fator de agravamento da crise. A incapacidade de comunicar de forma regular, empática e orientadora deixou um vazio que o Estado não pode permitir-se em situações de emergência.
Poderia ter aprendido com o exemplo da França, durante tempestades como Alex ou Ciarán, onde a presença constante do ministro do Interior, com briefings regulares e informação atualizada, foi central para manter a confiança pública, mesmo perante danos elevados. A comunicação não evitou a destruição, mas evitou o caos político e o pânico generalizado bem como a sensação de abandono.
A passagem da Kristin voltou a expor a fragilidade crónica da comunicação de crise em Portugal, já observada aquando do apagão. Também aí não existiu uma mensagem central, nem orientações consistentes, nem uma narrativa que enquadrasse o risco e explicasse a resposta pública. Comunicar em crise não é apenas informar — é governar. Quando essa função falha, a perceção de desorganização instala-se rapidamente.
A prevenção é anestesiada por posicionamentos de “isto não há-de ser nada”, “depois logo se vê” e “a malta desenrasca” que continuam a moldar a ação política bloqueando o planeamento. Enquanto outros países investem em prevenção estruturada, Portugal insiste no improviso como virtude nacional e alimenta a ideia perigosa de que a resiliência popular compensa a ausência do Estado. Todos somos Ronaldo — até ao momento em que o improviso falha e os Ronaldos se lesionam.
Também o envolvimento tardio das Forças Armadas levanta questões sérias. Em países como a Grécia, habituada a incêndios e cheias, os militares são mobilizados de forma quase automática nas primeiras fases da resposta, assegurando logística, engenharia e apoio às populações.
É do conhecimento generalizado que os militares dispõem de meios logísticos, de engenharia e de apoio no terreno, fundamentais em situações de calamidade e a sua mobilização deveria fazer parte dos primeiros momentos da resposta e não surgir quando a crise já está instalada. A demora na sua mobilização bem como a forma como foi comunicada, reforçou a perceção de descoordenação e de falta de um comando político claro.
Outro sinal dessa desarticulação foi a confusão pública em torno do eventual pedido de apoios à União Europeia. Num curto espaço de tempo, surgiram informações contraditórias sobre se Portugal teria ou não, acionado mecanismos europeus de apoio.
Esta oscilação comunicacional descredibilizou e transmitiu incerteza, tudo apontado para a ideia de improviso interno.
Igualmente sintomático foi o facto de o Governo definir apoios às populações de forma reativa, muitas vezes após propostas surgidas de cidadãos, autarquias ou comentários nas redes sociais. A solidariedade não pode depender da pressão pública.
Um Estado preparado tem instrumentos automáticos de resposta, critérios claros e mecanismos previamente definidos para situações de calamidade. Poderíamos ter feito as tais aprendizagens com vários países europeus, onde os apoios em situação de calamidade são automáticos, regulamentados e previsíveis, precisamente para evitar arbitrariedade e desigualdade na resposta.
Neste contexto, importa também discutir o papel que as grandes empresas de construção civil podem e devem desempenhar. Não para substituir o Estado, mas para integrar uma resposta coordenada. Empresas como por exemplo a Mota Engil e outras de semelhante dimensão, detêm meios técnicos e humanos capazes de intervir rapidamente na estabilização de infraestruturas, na reabertura de acessos e na reconstrução. A ausência de protocolos prévios com estas empresas, revela mais uma lacuna no planeamento nacional de emergência.
Num mundo e num país cada vez mais expostos a fenómenos extremos, persistir na cultura do improviso, da comunicação tardia e da descoordenação política é um risco que se paga caro.
Os fenómenos naturais não escolhem governos. Mas a forma como se responde a eles é, sempre, uma escolha política.
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