Setembro é o mês dos regressos. Reabrem as escolas, retomam-se as agendas e os emails recuperam a urgência. Enquanto o País abrandava, os aeroportos aceleravam entre malas e partidas. Agora regressamos com fotografias, memórias e, quando a viagem corre bem, novos sabores. Mas antes há um último território da viagem: o voo. Viajar tornou-se, para mim, uma forma de aprender o mundo, e a gastronomia é uma das suas linguagens. Em terra, procuro o mercado, a padaria e o aroma das especiarias. No ar, observo como cada companhia traduz num menu a identidade do país que representa. É nesse espaço entre geografias que começa a experiência gastronómica. Servir centenas de passageiros num espaço exíguo é complexo. Há limitações de conservação e tempo; até a altitude altera a perceção dos sabores. Não seria realista exigir a mesma experiência em todas as cabinas. É na classe executiva, onde as tarifas permitem outro investimento, que as companhias podem transformar o menu em mais do que uma refeição. A questão é saber como usam essa oportunidade. É precisamente aí que começa a minha curiosidade. Sempre que abro um menu a bordo, procuro perceber que ideia de país a companhia escolheu pôr à mesa.
Na ITA Airways, até a estrutura do menu respeita o ritual da mesa italiana. Começa no antipasto; passa pelo primo, tradicionalmente uma pasta ou um risotto; segue para o secondo, com opções de carne ou peixe; e termina no dolce, a sobremesa. A acompanhar, vinhos italianos e, no final, amaro, limoncello ou café Illy. Itália está nos ingredientes e na forma de os servir.
Na Thai Airways, o menu desenha um mapa da Tailândia através dos sabores, das especiarias e dos modos de cozinhar. Na ANA, há um menu japonês tradicional e uma alternativa ocidental. Em vez de diluir a cozinha japonesa, a companhia preserva a tradição e apresenta, ao lado, a sua tradução. O passageiro escolhe até onde quer viajar. A identidade também pode acompanhar a rota ou o calendário. Num voo da British Airways com destino aos Estados Unidos, no Dia de Ação de Graças, encontrei peru assado e tarte de abóbora. Vi também companhias estrangeiras incorporarem pratos do país de partida. A gastronomia de bordo torna-se então um diálogo entre os lugares que o avião aproxima. A Air France eleva esta representação a outro patamar. A refeição respeita a sequência francesa: aperitivo e amuse-bouche, entrada, prato principal, queijo e sobremesa. Os menus são assinados por chefs distinguidos pelo Guia Michelin, os vinhos escolhidos por um sommelier e até a porcelana faz parte da encenação. Não se serve apenas comida francesa. Serve-se a art de vivre francesa, a convicção de que comer envolve produto, técnica, ritual, estética e tempo. A Air France transporta essa herança. Mas é na TAP que a reflexão se torna pessoal. Há algo profundamente emotivo em reconhecer os sabores de casa antes de voltar a pisar terra portuguesa. Foi um bacalhau com broa; noutra viagem, o polvo à lagareiro. Foram os queijos, o azeite e os vinhos portugueses. São sabores familiares que revelam uma escolha de identidade e fazem o regresso começar ainda no ar. É nesses momentos que percebo que uma companhia aérea não transporta apenas passageiros. Transporta uma ideia do país que representa. A dez mil metros de altitude, cada refeição pode ser uma declaração de identidade. E, quando isso acontece, um país também se serve a bordo.