Estamos numa encosta perto de Leiria a pouco mais de 20 quilómetros do oceano Atlântico. A Quinta da Serradinha, no último dia de agosto, já vai a meio da vindima, toda manual. Há mulheres experientes a ‘limpar’ a vinha de encruzado com rapidez e precisão. Lembram-se que setembro e outubro eram os meses da vindima quando andavam nos ranchos de quinta em quinta. E não ficavam por aqui. Depois da uva, vinha a outra fruta, nomeadamente a maçã. Idalina conta que começou aos 14 anos e que se lembra de trabalhar com menos calor e mais gente nos campos. A seu lado, há quem relate que teve de deixar a escola a seguir à quarta classe para ir para a vindima e para o campo. E Joaquim, o decano e líder dos vindimadores, natural da zona do Porto, começou igualmente aos 11 anos. Eram outros tempos, sem “vindimas com tanto calor”, apesar de neste dia sermos bafejados com uma brisa.
António Marques da Cruz herdou o testemunho do pai e hoje lidera a propriedade com sete hectares. É a quinta geração a produzir vinho na Serradinha, inconfundível pela joaninha no topo de cada rolha. Com certificação biológica desde 1994, a Serradinha sofreu este ano os piores rigores das alterações climáticas. A tempestade Kristin passou por ali com ventos que ninguém quer recordar: o telhado da adega ficou parcialmente destruído e as árvores caíram todas. Um hectare de vinhas ficou sob árvores. Felizmente, e depois do choque inicial, a solidariedade de muitos amigos e até de desconhecidos fez a diferença. Ao longo de dois fins de semana de entreajuda, António e a mulher, Joana Cartaxo, que também dá rosto à Serradinha, conseguiram reerguer a quinta e recuperar as vinhas. Sete meses depois, António não poderia estar mais otimista com a colheita deste ano, e com a promissora qualidade das uvas. No dia em que visitámos, há encruzado a ser vindimado de manhã, enquanto o alfrocheiro fica para a tarde, curiosamente duas castas mais associadas ao Dão mas que ali encontraram um bom porto.
