Tropecei no livro de François Chobeaux Os Nómadas do Vazio. Não o procurava. Mas ficou essa vida errante, sem propósito, sem destino, apenas a deambular pelos trilhos do quotidiano, como se o amanhã tivesse deixado de existir. Juntou-se-lhe, dias depois, uma crónica da revista VISÃO, Passos Apressados, de Maria Bravo, sobre um homem com quem a autora se cruzou todas as manhãs, durante dois anos, sem alguma vez lhe ver o rosto, até ele desaparecer para um hospital e ela perceber, tarde, que também ela tinha sido observada o tempo todo. Não sei se “inspirou” é a palavra certa. Mas ficou. Uma conceção do absurdo, tecida em formas e teias disruptivas, atravessa um quotidiano anestesiado pelo sistema, um sistema que já não precisa de esconder a rua debaixo do tapete, porque encontrou uma forma mais eficaz de a tornar invisível: chamar-lhe escolha.
Há uma estação em que tudo isto se torna ainda mais fácil de esquecer. O calor faz o que o frio não consegue: dissolve a urgência. Os mecanismos do Estado relaxam, os planos de contingência hibernam à espera do primeiro aviso de frio para se reativarem, como se a fome, a doença, a solidão e o abandono tirassem férias com o calendário, e só regressassem ao trabalho quando a temperatura o exigisse. A fragilidade destes mecanismos não é sazonal. É estrutural. Mas o sol, esse, disfarça bem.
O sem-abrismo já ganhou o seu lugar. Normalizou-se a condição de sem-abrigo: é agora, dizem-nos, a opção consciente de um cidadão que, livre e informado, decidiu prescindir das mordomias de uma casa, comer os restos das caixas do lixo, sofrer de cólicas, defecar na rua. Ninguém obrigou. Ninguém empurrou. Foi um trajeto, uma curva na estrada que o indivíduo tomou de olhos bem abertos, como se por trás de cada corpo deitado numa entrada de prédio não houvesse uma história de rutura, de álcool, drogas, que substituiu tudo o resto, de uma cabeça que um dia deixou de conseguir habitar-se a si própria, de laços que se foram desfazendo um a um até não restar ninguém a quem telefonar.
Aos cidadãos informados cabe-lhes respeitar as decisões tomadas em consciência por outros cidadãos. Aos profissionais e zeladores dessas decisões cabe-lhes garantir e relembrar, a quem por acaso vacile, que a escolha foi sua e há de continuar a ser.
Assim nasceu uma nova profissão: os zeladores das consciências tomadas. Com percursos e formações académicas de diferentes origens – medicina, enfermagem, serviço social, psicologia, ciências da educação, entre outros, enfim, uma panóplia de saber que confere ao zelador das consciências tomadas a competência necessária para assegurar que a decisão tomada é irreversível. Não para a acompanhar. Não para a questionar. Para a selar.
Instalou-se, finalmente, a ordem neste caos. O perigo de os cidadãos viverem em vulnerabilidade acabou. A vulnerabilidade é apenas uma sensação, um ar que passa, não a marca de um corpo que já não regula o frio, não o sinal de uma mente que deixou de distinguir o dia da noite, não o eco de uma infância, uma juventude que ninguém quis ouvir. Uma sensação. Que se dissipa. Que não exige resposta.
Que alívio!
A vida e este vazio, outrora vividos apenas pelos pobres, indigentes, pedintes, os que se chamavam sem-abrigo, finalmente acabaram. Não porque a rua se tenha esvaziado. Porque lhe mudámos o nome.
A narrativa agora é outra: a responsabilidade é de cada um, até ao seu limite. As escolhas, o percurso, o destino, são um traço bem definido que o indivíduo escolhe sem reticências, sem hesitações, de forma consciente e informada. O erro não é escolha, logo, deixou de existir erro. Finalmente, o modelo dominante assumido pelo Estado conseguiu garantir e elevar a consciência humana ao patamar desejado: cada ser humano é capaz de conduzir o seu percurso na linha reta da vida. Não importa que essa reta, vista de perto, seja feita de recaídas, de noites em que o corpo trai a vontade, de pedidos de ajuda que se perderam algures entre um serviço e outro, não por falta de quem quisesse ouvi-los, mas porque a própria sociedade, no seu conjunto, já se instalou confortavelmente na ideia de que não há mais nada a fazer.
Esta gente na rua não é um acidente do sistema, é o seu resíduo previsível, o preço que o modo de produção cobrae distribui sempre aos mesmos: aos que perderam o emprego quando já não serviam, aos que adoeceram sem seguroque os cobrisse, aos que a família não pôde sustentar porque também ela mal se sustenta a si própria
Que alívio!
Com isto, acabámos com os marginais, os drogados, os bêbados. Sendo, como é, uma escolha consciente, só nos resta respeitá-la e ignorar que existem. Temos os zeladores das tomadas de consciência para garantir que assim é, e continuará a ser, enquanto for preciso repeti-lo.
Para lembrar aos incautos voluntariosos que nada têm a fazer porque foi uma escolha, e há que respeitar a dignidade da decisão consciente de viver em caixotes, para além disso, o problema só existe no inverno. Mas ainda assim os zeladores destacam brigadas para garantir que o frio não dê cabo deles, porque, afinal, o frio já não é uma escolha deles, nem depende deles. Só a rua era escolha. O frio, esse, continua a ser do sistema.
Haja coerência.
Talvez a incoerência seja precisamente o ponto: proteger do frio quem, supostamente, escolheu a rua é admitir, por um instante, que a escolha tem limites que a própria escolha não previu. É admitir que por trás da palavra “opção” há um corpo que não regula temperatura, uma mente que não delibera com a limpidez que o discurso exige, uma vida que se foi desfiando, não decidindo, até restar apenas a rua como último lugar disponível. Mas basta destacar a brigada, cumprir o gesto, e devolver depois o indivíduo à sua “escolha”, para que o incómodo desapareça outra vez e a narrativa possa prosseguir intocada.
Porque, no fundo, chamar-lhe escolha é o preço mais barato que o sistema paga. Sai mais barato um zelador que sela consciências do que uma resposta social que trate causas: o desemprego que nunca mais devolveu ninguém ao trabalho, a garrafa que ocupou o lugar de tudo o que faltou, a família que um dia deixou de atender o telefone. É mais barato e mais confortável decretar que o destino já estava traçado do que perguntar que rutura, que abandono, que doença não tratada trouxe aquele corpo até àquela esquina.
E convém não simplificar: a cumplicidade não nasce da ignorância. Ninguém, hoje, pode dizer que não sabe. As imagens circulam, as notícias existem, os números são públicos. A cumplicidade nasce de outro lugar do conforto de uma sociedade acomodada, que aprendeu a conviver com o corpo estendido na entrada do prédio da mesma forma que aprendeu a conviver com o trânsito ou com a chuva: contornando-o. Não é a mão que falta. É a vontade coletiva de perturbar um equilíbrio que, para a maioria, funciona bem que baste. Cada cidadão que atravessa a rua para não cruzar o olhar com quem pede, cada instituição que cumpre o protocolo sem questionar o que vem depois do protocolo, cada eleitor que prefere o silêncio à exigência, é uma peça pequena de uma cumplicidade grande. Ninguém é o único culpado. Todos são, um pouco, culpados.
E é aqui que a coisa deixa de ser apenas moral e passa a ser material. Porque esta gente na rua não é um acidente do sistema, é o seu resíduo previsível, o preço que o modo de produção cobra e distribui sempre aos mesmos: aos que perderam o emprego quando já não serviam, aos que adoeceram sem seguro que os cobrisse, aos que a família não pôde sustentar porque também ela mal se sustenta a si própria. Um sistema que mede o valor de uma vida pela sua utilidade produtiva não tem, estruturalmente, lugar para quem deixou de produzir. A narrativa da “escolha consciente” não é um erro de discurso: é uma peça indispensável do mecanismo, porque transforma uma vítima do sistema em autor da própria queda, e liberta o sistema, e todos nós, que dele beneficiamos, da obrigação de responder por ela. Culpar o indivíduo é, sempre, a forma mais barata de absolver a estrutura.
Que alívio.
Mas o alívio, convém dizê-lo, não é de quem dorme na rua. É de quem passa ao lado.