Do fogo que consumiu mais uma boa fatia da paupérrima floresta nacional à Universidade de Verão, este retorno da silly season nada tem de original. Talvez a rentrée seja animada apenas pela aproximação de mais um ato eleitoral, prova de que já não vivemos em democracia mas sim em plena partidocracia.
Para se enquadrar esta realidade, basta olhar para essa invenção tão querida da política portuguesa: as juventudes partidárias. À primeira vista — e talvez até no início — o objetivo parecia inocente, até nobre: criar uma consciência política numa geração que, felizmente, não teve de combater totalitarismos. Só que a promessa de formação cívica depressa se converteu em retiros partidário-espirituais com manual de sobrevivência: decorar a cartilha, subir na hierarquia, e sorrir para a fotografia.
A consciência política que a minha geração aprendeu em Gramsci (nos Cadernos do Cárcere), em Marx (O Capital), em Hayek (O Caminho da Servidão), em Steinbeck (As Vinhas da Ira), ou até em filmes como Chove em Santiago, sobre a queda de Allende, pretendia-se agora reproduzir em acampamentos políticos com powerpoints e mesas-redondas. Daí a transformarem-se em partidos-mirins e agências de emprego foi um ápice. Hoje lê-se o regulamento interno da juventude partidária e decoram-se frases feitas para os debates televisivos de domingo à noite. A partir daí, a progressão é natural. Quem não entra cedo no recreio partidário descobre mais tarde que a política é como aquelas discotecas exclusivas: sem cartão certo não há pulseira, sem pulseira não há entrada.
E como se isto não bastasse, acrescentemos o bloqueio aos independentes. A democracia permite votar em quem quisermos, mas só se quem quisermos tiver a bênção de uma sigla. A ideia de que um cidadão reconhecido na sua comunidade, sem padrinho nem estrutura por trás, possa candidatar-se a uma câmara municipal parece um delírio. Resultado: os partidos guardam as chaves das autarquias como se fossem propriedades privadas, e o eleitor limita-se a escolher entre o azul e o rosa, o rosa e o laranja, o laranja e o verde… com a sensação de estar sempre a comprar a mesma embalagem com rótulo diferente.
Há depois a dança das cadeiras nos altos cargos da Função Pública.
A CRESAP foi criada para libertar o Estado do compadrio mas rapidamente se transformou numa farsa em que participa relutantemente porquanto sabe que todas as escolhas, mesmo as que deveriam ser exclusivamente técnicas, esbarram com o chavão da confiança política!
Como se para gerir eficazmente, ou traçar projetos de desenvolvimento a longo prazo fosse mais necessário seguir “the master voice” do que o mérito. Enredada em longos pareceres, entrevistas solenes e grelhas de avaliação que legitimam escolhas antecipadamente feitas. Dizia-me um opositor a estes concursos, com provas dadas, que “é como ir ao teatro: os atores esforçam-se, o público aplaude, mas toda a gente sabe que o final já estava escrito no guião”.
Ora, perante isto, a indignação das pessoas é tão compreensível como perigosa. Quando percebem que o jogo está viciado, que independentes são barrados e que até os concursos públicos parecem peças de ficção, muitos cidadãos concluem que só resta uma alternativa: a extrema-direita. É a resposta simples e raivosa, a promessa de “varrer o sistema”. Mas é também o clássico salto do desespero: trocar a frustração com a partidocracia pelo abraço de quem nos acena com soluções autoritárias. Um pouco como incendiar a própria casa porque o senhorio não veio arranjar a torneira.
É um exercício de humor negro: a democracia portuguesa, na ânsia de se proteger a si mesma, pode estar a cavar a sua própria sepultura.
Ao blindar as instituições contra independentes, ao manter partidos como alfândegas de carreiras políticas e ao permitir que organismos como a CRESAP sejam percebidos como fachada, abre-se a porta a quem promete resolver tudo pela força. E, se a História ensina alguma coisa, é que esses “salvadores” acabam invariavelmente por conduzir-nos ao mesmo beco: uma ditadura.
Entre juventudes que fabricam carreiristas, concursos encenados e cidadãos seduzidos por discursos autoritários, resta a pergunta: será que ainda vivemos numa democracia… ou apenas no ensaio geral da sua queda?
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