A estas horas já todos viram ou pelo menos ouviram falar da série Adolescência, da Netflix.
É um relato perturbante dos efeitos do consumo incontrolado de internet junto dos mais jovens, numa clara dissociação e sobreposição do virtual sobre a realidade.
Vi a série duma assentada e a imagem que me ficou na retina foi do rosto do protagonista, um miúdo de treze anos, lavado em lágrimas, com as calças de pijama molhadas pelo medo. Naturalmente que existem cenas mais impactantes, mais desafiadoras para os atores, mais perturbantes para o espectador. Mas aquela imagem remeteu-me para uma outra, vista nesse mesmo dia numa reportagem dum jornal televisivo sobre os ataques a Gaza. Defronte das ruínas da que fora, possivelmente, a sua casa, um outro miúdo, aparentemente da mesma idade, deixava correr as lágrimas em rio pelo rosto, num misto de incredulidade e terror. O repórter informava que era o único sobrevivente da família, morta por um raide israelita.
Aparentemente as situações que envolvem estes dois rapazes nada têm em comum. No entanto, elas são representativas da geração que estamos a criar: uma que vive para e das redes sociais e outra que vive num clima de horror desolação e ódio.
Na verdade, ambas vivem situações distópicas que definirão a sua vida, a forma como vêm o mundo e como nele irão agir.
Há alguma dúvida em que este rapaz palestiniano pegará em armas para matar “os outros” que o fizeram sofrer? Alguém põe em causa que este miúdo faça um dia parte de qualquer célula terrorista, que grite Alá é Grande e ceife famílias iguais às dele?
Os estereótipos criados através das redes e a pressão que imprimem sobre a personalidade em formação, a insegurança que transmitem e a seleção não natural que acabam por fazer da forma aparentemente mais inócua pode levar a uma completa incapacidade de dissociar a realidade do virtual. Relatos de crianças que cometem crimes por imitação do que viveram como avatares em jogos ou do que viram sem controle parental, pululam nos manuais de criminologia.
Desfasados dos significados ocultos duma linguagem que não aprendemos, a minha geração viu-se dum momento para o outro confrontada com a perversidade dos bonequinhos a que foi dado o nome fofinho de emojis ou seja bonecos que transmitem emoções. Coraçõezinhos, palminhas, carinhas que riem, que choram que ficam com raiva… Todos nós os utilizamos no quotidiano. Íamos lá adivinhar que por detrás de alguns desses símbolos aparentemente inofensivos se escondiam mensagens de ódio, de bullying, com conotações sexuais, criminais e outras do mesmo teor? É como se de repente o próprio Chucky tivesse decidido escrever, para o universo inteiro, a sua mensagem de ódio e horror.
O miúdo que acaba por matar a sua colega com uma série de facadas e que nega esse facto perante tudo e todos até mesmo quando confrontado com a evidência, está, de certa forma, convencido de que é inocente, que nada daquilo aconteceu. Repare-se na expressão de incredulidade (o rapaz merece um Oscar!) quando revê a cena captada pelas câmaras de segurança. Não há arrependimento, não há empatia. O que existe é uma enorme vontade de se aconchegar ao pai e pedir-lhe que faça com que tudo aquilo desapareça, que o proteja de si mesmo.
Em que tipo de adulto se irá tornar? Dificilmente assumirá os seus erros e responsabilidades. Terá dificuldade em viver num mundo de realidade palpável longe das redes. Terá um nível de empatia muito baixo o que o tornará altamente perigoso. Um indivíduo sem empatia não entende a dor e como tal não a teme, nem a evita. Convive bem com ela e não hesita em a provocar.
Tão incrédulo como Jamie Miller, a personagem da série, o rapaz palestiniano cujo nome ninguém fixou, olha a destruição em seu redor, os corpos de toda a família envoltos em lençóis brancos e deixa-se submergir pela dor. Na sua curta vida já experienciou situações, que a maior parte de nós, se tivermos sorte, nunca viverá. Tudo lhe foi tirado: a casa, a rua onde brincava com amigos que, entretanto, perdeu na distância ou para a morte, a escola, a segurança das refeições em família, a cama em que se deitava para sonhar, aconchegado por uma realidade que lhe era familiar e que lhe dava segurança. Mesmo vivendo num local onde o conflito nunca está muito longe da porta, aquele miúdo era uma criança minimamente feliz. Se repararmos o seu semblante não demonstra falta de cuidados mesmo numa situação de profunda miséria e destruição como a que se vive em Gaza.
Dum momento para o outro, a realidade que conhecia foi mudada por outra feita de gritos, sons de bombas, ruínas, pó, sangue, vísceras espalhadas, medo e horror. Dum momento para o outro, foi como se tivesse entrado num jogo de consola em que, em vez de avatares, ele próprio era o pequeno guerreiro que precisava de se proteger, de sobreviver.
Perante os cadáveres de toda a sua família, aquele garoto experimenta a derrota e o abandono. Mas também a raiva e o ódio contra os que lhe tiraram tudo.
Duas cenas semelhantes culminam ambos os casos: o pai que perante a enormidade do acto do filho ainda assim o abraça porque será sempre pai e ele sempre seu filho, e o tio que aperta contra si o órfão olhando também ele o que já não resta da sua família.
Há alguma dúvida em que este rapaz palestiniano pegará em armas para matar “os outros” que o fizeram sofrer? Alguém põe em causa que este miúdo faça um dia parte de qualquer célula terrorista, que grite Alá é Grande e ceife famílias iguais às dele?
É este o Mundo que estamos a criar. Sem empatia e com muito, muito ódio.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.