Hoje, sobretudo na Ásia Oriental, quase 2 mil milhões de pessoas celebram a oitava lua cheia do ano, a mais brilhante de todas e que abençoa as colheitas. Consoante os locais, chama-se Festa da Lua, Festa do Bolo Lunar ou Festival de Meio do Outono, celebrando a família, os amigos, a prosperidade e a confiança em dias melhores.
Habituei-me a celebrar este dia simbólico nos meus anos de Oriente, quando a China estava a dar os primeiros passos de abertura ao mundo com Deng Xiao Ping a superar os traumas da Revolução Cultural maoista que enfeitiçou tantos jovens europeus, que entretanto envelheceram e engordaram, muitos deles agora convertidos a vários modelos de pensamento neoconservador ou ultraliberal.
Andaram pelo maoismo juvenil figuras como Durão Barroso, Ana Gomes, Pacheco Pereira, João Carlos Espada ou Maria José Morgado, que se desinteressaram quando a China passou a promover a educação de qualidade, a aposta na ciência, a defesa do comércio livre e a recuperar o lugar na economia mundial que tivera até às humilhações imperialistas do século XIX e às sucessivas agressões japonesas entre 1894 e 1945.
A China será naturalmente, dentro de poucos anos, a maior economia mundial em volume, o que significa que um chinês terá um quarto do rendimento médio de um americano, mas, apesar de liderar hoje a inovação tecnológica, a transição para a economia verde, a revolução em curso da IA e ser o maior exportador mundial, enfrenta agora novos desafios provocados pela crise demográfica do envelhecimento súbito (perde 3 milhões de pessoas por ano), pelo abrandamento do ritmo de crescimento económico, pela falta de recursos naturais e pelas aspirações de uma nova classe média urbana em risco de cair na armadilha dos países de desenvolvimento intermédio.
Portugal, que esteve presente na China durante mais de quatro séculos, tem hoje uma liderança, como disse Marcelo Rebelo de Sousa, “rural” e tacanha, no pior dos sentidos, que tem sido subserviente relativamente aos Estados Unidos, irrelevante no plano europeu, negligente na valorização do espaço lusófono, que despreza com uma política migratória colonizada culturalmente pela extrema-direita, e ignorante do potencial que representa uma imagem mítica de Portugal que resiste ao abandono e desinteresse, tanto na China como no Japão e por todo o extremo-oriente.
A opção chinesa de Passos Coelho, que substituiu empresas públicas portuguesas por empresas públicas chinesas, na EDP e na REN, e abriu as portas para a presença dos novos empresários chineses no BCP, na Mota-Engil, na Fidelidade e no Hospital da Luz, não foi estratégia foi desespero. Tal como a apressada e insólita limitação da atividade da Huawei não foi mudança de estratégia – foi seguidismo acéfalo aos novos ditames do protecionismo americano.
A relação com a China, mas também com a Coreia, o Japão, a Tailândia e toda a ASEAN, onde temos agora a presença de Timor, só pode ser vista com uma visão de longo prazo, jamais ao sabor das maiorias governativas de turno ou dos arrufos e do nepotismo do autocrata instável de Washington.
Face à pequenez de uma governação apostada na mera sobrevivência dia a dia de Montenegro, que vê o mundo com o quadro mental do areal de Espinho, e os arroubos nacionalistas de Nuno Melo, herói de Olivença, dificilmente voltaremos nos próximos tempos a ter a projeção global conquistada com António Guterres ou António Costa.
Pouco ficará, mesmo na agenda doméstica, do discurso de Montenegro na ONU e o País continuará mais preocupado com as obras da PJ e o tanque de Luís Neves, bem como a forma, sem nada fazer pela eficiência energética nem pelo apoio aos setores mais carenciados, de comprar a paz social de pensionistas e das classes de rendimentos intermédios fortemente dependentes do carrinho e dos combustíveis fósseis.
A relação da Europa com parceiros alternativos ao pouco fiável amigo americano, como são o Brasil, a África do Sul, a Índia, o Canadá, e sobretudo uma relação dinâmica da União Europeia com a China, que são os dois maiores parceiros comercias globais, é olhada como um exotismo muito distante das prioridades do debate público português.
Pela capacidade de sonhar passar entre os pingos da chuva, salvo algumas inócuas preocupações humanitárias perante atrocidades em Gaza e na Cisjordânia, e pela ausência de uma estratégia para a relação de Portugal com a China e o Oriente, o prémio Laranja sem Sumo da maior lua do ano vai para ministro das relações exteriores deste Governo em quarto minguante, Paulo Rangel.
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