Há um gesto que eu faço de cor, e qualquer mulher o conhece. Entro no carro, puxo o banco para a frente, endireito o encosto, corrijo o cinto que teima em serrar-me o pescoço em vez de assentar no ombro. Faço isto há anos sem pensar. Até que um dia pensei. E o gesto diz o que diz: o carro não foi feito para mim. Foi feito para outro corpo, e eu vou-me desenrascando, todos os dias, como quem mora em casa emprestada.
A suspeita não me largou e eu fiz o que faço sempre que uma suspeita não me larga: fui ver. E não, não era impressão minha. A regulamentação internacional de segurança automóvel continua a exigir que os testes de colisão se façam com bonecos baseados nas proporções do homem médio, um modelo que ficou parado nos anos setenta do século passado. O boneco dito “feminino” que por vezes aparece nos ensaios não é uma mulher média: é um homem em ponto pequeno, à escala das mulheres mais miúdas da população, e quase nunca vai ao volante. Sentada no lugar do condutor, a mulher média nunca foi, em rigor, testada.
Os resultados, esses, andam pelos hospitais. Li estudos da Universidade da Virgínia que apontam para mais 17% de probabilidade de morrer num acidente e até mais 73% de sofrer ferimentos graves numa colisão frontal. Nas lesões cervicais, as vulgares chicotadas, as mais comuns em acidentes de baixa velocidade, o risco delas é o dobro do deles. A morfologia do pescoço é outra, os apoios de cabeça foram desenhados para outra. E li quem investiga isto há trinta anos dizer, em entrevista, que nada disto é novidade: sabe-se desde o final dos anos sessenta. Meio século, portanto, a fazer contas ao problema sem lhe mexer.
E agora a parte que me escandalizou mais do que os números todos juntos. A solução existe. Uma engenheira sueca, Astrid Linder, desenvolveu o primeiro boneco de ensaio à escala da mulher média, o SET 50F: um metro e sessenta e dois, sessenta e dois quilos, ombros mais estreitos, anca mais larga, centro de gravidade mais baixo. Está pronto desde 2022. Alguns fabricantes já o usam de livre vontade. Fui procurar a norma que obrigasse os restantes e não a encontrei, pela simples razão de que não existe, em país nenhum. O boneco está testado, está publicado. E fica ali, à espera de vez.
Do carro segui para o hospital, e a história é a mesma, só muda a bata. Em 1977, a agência norte-americana do medicamento recomendou a exclusão das “mulheres em idade fértil” dos ensaios clínicos iniciais. Fui ler o que aquilo abrangia e a definição era tão larga que excluía por atacado: mulheres solteiras, mulheres que usavam contracepção, mulheres casadas com homens vasectomizados. A regra só caiu em 1993. Durante uma geração inteira, os medicamentos chegaram ao mercado com doses, perfis de segurança e efeitos estudados sobretudo em corpos masculinos e jovens, e depois receitados a toda a gente como se toda a gente fosse aquilo.
O zolpidem, por exemplo, o célebre indutor do sono. Foi vendido durante vinte anos na mesma dose para homens e mulheres, até se perceber que o organismo feminino o metaboliza mais devagar e que havia mulheres a pegar no carro de manhã com o fármaco ainda a fazer efeito. Em 2013, cortaram a dose delas a metade. Vinte anos depois, note-se. O estudo que pôs meio mundo a tomar aspirina para prevenir o enfarte teve 22.071 participantes: homens, todos eles. E por falar em enfarte, encontrei uma investigação inglesa, feita sobre mais de meio milhão de doentes, segundo a qual as mulheres têm mais 50% de probabilidade de receber um diagnóstico inicial errado, porque os sintomas delas, mais cansaço e náusea do que a clássica dor no peito, são despachados como “atípicos”. Atípicos em relação a quê? Ao homem, pois claro, que continua a ser a bitola. E errar o diagnóstico aumenta em cerca de 70% o risco de morrer no mês seguinte.
Depois quis saber de onde vinham os próprios instrumentos, e o quadro escureceu. O espéculo moderno descende do trabalho de J. Marion Sims, o médico do século XIX a quem ainda hoje se chama “pai da ginecologia”. Sims aperfeiçoou os seus instrumentos e as suas cirurgias operando mulheres negras escravizadas, sem anestesia, vezes sem conta, porque acreditava, como acreditava a medicina do seu tempo, que elas não sentiam a dor como as brancas. Algumas têm nome: Anarcha, operada à volta de trinta vezes; Lucy; Betsey. A ginecologia que trata os corpos das mulheres nasceu sobre corpos de mulheres a quem nunca ninguém perguntou nada. E isto não é um pormenor mórbido: é de lá que vem o instrumento que ainda hoje se usa nas consultas.
E a menopausa, por onde passa metade da humanidade? Fui espreitar os orçamentos do maior financiador mundial de ciência médica, o NIH norte-americano: 56 milhões de dólares em 2023, trocos numa dotação de dezenas de milhares de milhões. Numa década, menos de 9% do financiamento foi parar à saúde da mulher. Não é que a menopausa tenha sido mal estudada. É que quase não foi estudada, ponto, porque quem decidia o que merecia estudo não passava por ela.
E depois há o ridículo de todos os dias. A fórmula que regula a temperatura dos escritórios foi calculada nos anos sessenta a partir da taxa metabólica de um homem de quarenta anos e setenta quilos, e sobrestima o metabolismo feminino em até 35%. É por isso que tanta mulher leva casaco para o escritório em pleno agosto. Até o ar condicionado tem sexo.
A dada altura percebi que andava a refazer, por conta própria, um caminho que já tinha sido percorrido. Caroline Criado Perez juntou centenas destes exemplos em “Invisible Women” e deu ao fenómeno o nome certo: o mundo por defeito é masculino. Não porque alguém se tenha sentado a desenhar um carro, um comprimido ou um termóstato para prejudicar mulheres. Ninguém teve esse trabalho, nem foi preciso. Bastou que, durante mais de um século, “pessoa” quisesse dizer “homem” nos laboratórios, nas fábricas, nos gabinetes de engenharia e nas agências reguladoras. O resto veio por arrasto, sem malícia e sem autor.
E é aqui que eu, que desconfio de palavras grandes por dever de ofício, quero usar uma com todo o cuidado. Um cinto que protege mal um corpo nunca testado é uma lacuna. Repetido anos a fio, é negligência. Agora, quando os dados existem há décadas, quando as mortes e as lesões estão contadas e publicadas, quando a solução está construída e pronta, e mesmo assim nada mexe porque mexer custa dinheiro e aquele corpo nunca foi prioridade, isso já não é esquecimento nenhum. É uma escolha, feita e refeita. E a uma escolha que deixa uns corpos protegidos e outros entregues à sorte, sabendo-se o que se sabe, eu não encontro nome mais honesto do que violência. Invisível, reparte-se por tantas mãos que parece não estar em nenhumas. Mas conta-se nos hospitais.
O boneco chama-se SET 50F. Mede um metro e sessenta e dois. Está pronto desde 2022. Falta só a lei dar por ele.
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