Vamos lá cambada
Gostava que o Estado percebesse que a pátria que se canta antes do apito inicial é a mesma que arde em agosto e se afoga em fevereiro. Não se pode vestir a camisola só nos dias de jogo
“Send them back”
Ninguém grita “send them back” ao investidor que compra o visto dourado, ao reformado abastado do norte da Europa, ao nómada digital que abre um café de matcha e faz subir as rendas do bairro. O cântico nunca é para esses. É sempre para o outro, o que veio de barco, o que limpa os hospitais e levanta as paredes. Não é que não queiram imigrantes. Só os querem de um certo tipo, por uma certa porta, e de preferência sem direitos. Querem o trabalho. Não querem a pessoa.
Quem limpa o que sujamos
De um lado, quem suja, e quem suja somos quase todos, em maior ou menor grau, acompanhados por um Estado que não cobra a quem devia, não premeia quem merece, e nem sequer se dá ao trabalho de contar bem o problema. Do outro, quem limpa, mal pago e em número a menos, a apanhar às seis da manhã o que atirámos à meia-noite. Entre os dois, a distância não é de educação. É de dignidade
Descobrimos uma ilha
Sazan não foi descoberta. Estava lá. O que é novo não é a ilha. É a ideia, cada vez mais natural para esta gente, de que tudo tem um preço, até uma fortaleza que resistiu a um século de guerras, desde que o comprador esteja suficientemente perto do poder. A ilha aguentou impérios. Falta saber se aguenta um genro
O chapéu, o farnel e a lei: Uma questão de soberania nacional
A praia não deixa de ser pública porque alguém achou que a vista ficava mais arrumada sem o tuga de calções com o farnel. O domínio público não se privatiza pelo incómodo estético de quem está do lado de cá do cordão
Uma caneca de plástico e tudo o que ela diz sobre nós
Digo isto porque me parece que metade da culpa que despejamos sobre o indivíduo está mal endereçada. Ninguém acordou um dia, sozinho, com a ideia genial de que precisava de um relógio de bolso. Essa necessidade foi-lhe construída por gente muito inteligente, muito bem paga, que estuda exatamente como é que o nosso cérebro responde à escassez e ao olhar dos outros
Homossexualidade: Da fogueira ao plenário
Quando alguém me diz que a homossexualidade é uma invenção moderna, custa-me não perguntar se essa pessoa terá alguma vez aberto um livro de história que não fosse o catecismo
O ChatGPT disse que tenho razão
Trabalho muito com condomínios. É uma área que, por razões que a sociologia certamente explica melhor do que eu, desperta nas pessoas o seu eu mais combativo. O vizinho do terceiro que inundou a cave já era um campo minado antes da Inteligência Artificial. Agora é uma catástrofe jurídica em formato Word
Sabemos o que aí vem. Como sempre
Não sou cientista. Sou cidadã. E sei que quando há aviso suficiente e não há resposta suficiente, isso tem nome. Não é azar. Não é imprevisível. É uma escolha. E as escolhas têm consequências, e as consequências têm responsáveis
A vergonha não chega. É preciso mais
Em Portugal, a violação conjugal é crime desde 2007. O artigo 164.º do Código Penal não distingue o agressor cônjuge do agressor desconhecido. Violar é violar, independentemente do laço civil que une os intervenientes. A lei é clara. O problema é que a lei supõe consciência. Supõe que a vítima sabe que foi violada. Supõe que tem capacidade de denunciar. E supõe que o sistema a ouve quando o faz. Quando uma mulher é sistematicamente drogada pelo próprio marido, nenhuma dessas condições está garantida
O mundo governado por velhos homens
O problema talvez não seja apenas o patriarcado. Talvez seja um patriarcado envelhecido, que continua a tentar governar o século XXI com as categorias mentais do século XX
O perigo começa quando o poder normaliza o abuso
Quando titulares do mais alto poder político relativizam a sexualidade precoce de menores, o problema deixa de pertencer a um Estado específico. Passa a dizer respeito ao próprio padrão civilizacional que sustenta as democracias contemporâneas
Apoios públicos, portagens e a estranha moral fiscal do Estado
Há aqui uma inversão moral perigosa. Por um lado, temos cidadãos que viram casas inundadas, bens destruídos, vidas desorganizadas. Por outro, o Estado exige-lhes uma pureza fiscal quase imaculada, incluindo a regularização de portagens cuja cobrança coerciva tem sido contestada em tribunal
A solidão como falha estrutural
Quando é preciso uma médica de família, dois anos depois, para detetar uma ausência, não estamos perante uma falha clínica. Estamos perante uma falha social profunda
Quando a estética substitui a ética
Tudo isto precisa de ser relançado e repensado. A política, o Direito, a forma como comunicamos e, sobretudo, a forma como escolhemos o que é essencial. Porque sem ética, a estética é apenas ruído bem iluminado. E sem verdade, nenhuma sociedade resiste por muito tempo
Condomínios: Quem vive, paga. Quem não paga, manda
Cada processo de condomínio é um retrato do País. Há sempre o vizinho que não paga e acha que “não faz mal”, o administrador que tenta segurar o barco, o morador que dorme com um balde ao lado da cama e uma lei que parece feita por quem nunca viveu num prédio
A nova vergonha: Quando o ódio tem wi-fi...
A imaturidade pode explicar, mas não absolve. Um miúdo que grava e partilha sabe o que faz. Sabe que humilha. Sabe que destrói. E mesmo assim faz. E quando o tribunal decide, já passou tempo demais. O vídeo já circulou. O dano já se tornou permanente. A justiça chega tarde e chega fria. E a vítima fica sozinha a tentar continuar uma vida que nunca mais será a mesma
Terras sem dono, fogo sem freio...
Nas viagens que faço pelo interior, ouvi relatos sobre plantações de eucalipto em terrenos alheios; donos ausentes; câmaras sem meios; medo de denunciar. E há coincidências que inquietam: zonas recentemente ardidas onde, pouco depois, aparecem consultas públicas para parques eólicos ou fotovoltaicos. A sobreposição de mapas não deixa de ser perturbadora, mesmo sem entrar em juízos de culpa