E se Ronaldo fosse bolseiro? Opinião de uma advogada
Para se ter uma noção das proporções, e sem nenhum reparo ao dinheiro que é dele e de quem lho paga, a Forbes calcula que Ronaldo tenha ganho 300 milhões de dólares no último ano, mais de 700 mil euros por dia, ao passo que um doutorando português recebe do Estado pouco mais de 1.300 euros por mês, de maneira que os quatro anos de bolsa de quem anda à procura de um planeta ou de uma vacina valem pouco mais de duas horas do capitão
A chuva já tem dono
A água é de todos. Foi isso que dissemos durante quinze séculos, é isso que a nossa lei ainda diz. A questão que se coloca agora, em Sines, no Algarve, em Chicago e em Jackson, é se continua a ser para todos, ou se vai sendo, discretamente e com boas razões, cada vez mais para alguns
Não é quem chega
Quando um pai decide que o filho não leva a vacina do sarampo, não está a exercer uma liberdade. Está a usar a imunidade de grupo que os outros construíram, sem contribuir, e a apostar que a conta nunca lhe chega
A medida de todas as coisas
A fórmula que regula a temperatura dos escritórios foi calculada nos anos sessenta a partir da taxa metabólica de um homem de quarenta anos e setenta quilos, e sobrestima o metabolismo feminino em até 35%. É por isso que tanta mulher leva casaco para o escritório em pleno agosto. Até o ar condicionado tem sexo
"Foi só isto?"
O fenómeno natural passou a ter obrigações de performance. Deve ser rápido, deve ser fotogénico, deve caber num ecrã vertical e deve justificar o investimento de atenção, que hoje se mede ao segundo. Dão-se estrelas ao Sol como se dá a um alojamento local
A História já não se escreve - publica-se
Os livros de História do futuro já não se escrevem assim. Escrevem-se num telemóvel, em tempo real, por quem não estava lá, não conhece o assunto e não tem obrigação nenhuma de acertar
Vamos lá cambada
Gostava que o Estado percebesse que a pátria que se canta antes do apito inicial é a mesma que arde em agosto e se afoga em fevereiro. Não se pode vestir a camisola só nos dias de jogo
“Send them back”
Ninguém grita “send them back” ao investidor que compra o visto dourado, ao reformado abastado do norte da Europa, ao nómada digital que abre um café de matcha e faz subir as rendas do bairro. O cântico nunca é para esses. É sempre para o outro, o que veio de barco, o que limpa os hospitais e levanta as paredes. Não é que não queiram imigrantes. Só os querem de um certo tipo, por uma certa porta, e de preferência sem direitos. Querem o trabalho. Não querem a pessoa.
Quem limpa o que sujamos
De um lado, quem suja, e quem suja somos quase todos, em maior ou menor grau, acompanhados por um Estado que não cobra a quem devia, não premeia quem merece, e nem sequer se dá ao trabalho de contar bem o problema. Do outro, quem limpa, mal pago e em número a menos, a apanhar às seis da manhã o que atirámos à meia-noite. Entre os dois, a distância não é de educação. É de dignidade
Descobrimos uma ilha
Sazan não foi descoberta. Estava lá. O que é novo não é a ilha. É a ideia, cada vez mais natural para esta gente, de que tudo tem um preço, até uma fortaleza que resistiu a um século de guerras, desde que o comprador esteja suficientemente perto do poder. A ilha aguentou impérios. Falta saber se aguenta um genro
O chapéu, o farnel e a lei: Uma questão de soberania nacional
A praia não deixa de ser pública porque alguém achou que a vista ficava mais arrumada sem o tuga de calções com o farnel. O domínio público não se privatiza pelo incómodo estético de quem está do lado de cá do cordão
Uma caneca de plástico e tudo o que ela diz sobre nós
Digo isto porque me parece que metade da culpa que despejamos sobre o indivíduo está mal endereçada. Ninguém acordou um dia, sozinho, com a ideia genial de que precisava de um relógio de bolso. Essa necessidade foi-lhe construída por gente muito inteligente, muito bem paga, que estuda exatamente como é que o nosso cérebro responde à escassez e ao olhar dos outros
Homossexualidade: Da fogueira ao plenário
Quando alguém me diz que a homossexualidade é uma invenção moderna, custa-me não perguntar se essa pessoa terá alguma vez aberto um livro de história que não fosse o catecismo
O ChatGPT disse que tenho razão
Trabalho muito com condomínios. É uma área que, por razões que a sociologia certamente explica melhor do que eu, desperta nas pessoas o seu eu mais combativo. O vizinho do terceiro que inundou a cave já era um campo minado antes da Inteligência Artificial. Agora é uma catástrofe jurídica em formato Word
Sabemos o que aí vem. Como sempre
Não sou cientista. Sou cidadã. E sei que quando há aviso suficiente e não há resposta suficiente, isso tem nome. Não é azar. Não é imprevisível. É uma escolha. E as escolhas têm consequências, e as consequências têm responsáveis
A vergonha não chega. É preciso mais
Em Portugal, a violação conjugal é crime desde 2007. O artigo 164.º do Código Penal não distingue o agressor cônjuge do agressor desconhecido. Violar é violar, independentemente do laço civil que une os intervenientes. A lei é clara. O problema é que a lei supõe consciência. Supõe que a vítima sabe que foi violada. Supõe que tem capacidade de denunciar. E supõe que o sistema a ouve quando o faz. Quando uma mulher é sistematicamente drogada pelo próprio marido, nenhuma dessas condições está garantida
O mundo governado por velhos homens
O problema talvez não seja apenas o patriarcado. Talvez seja um patriarcado envelhecido, que continua a tentar governar o século XXI com as categorias mentais do século XX
O perigo começa quando o poder normaliza o abuso
Quando titulares do mais alto poder político relativizam a sexualidade precoce de menores, o problema deixa de pertencer a um Estado específico. Passa a dizer respeito ao próprio padrão civilizacional que sustenta as democracias contemporâneas
Apoios públicos, portagens e a estranha moral fiscal do Estado
Há aqui uma inversão moral perigosa. Por um lado, temos cidadãos que viram casas inundadas, bens destruídos, vidas desorganizadas. Por outro, o Estado exige-lhes uma pureza fiscal quase imaculada, incluindo a regularização de portagens cuja cobrança coerciva tem sido contestada em tribunal
A solidão como falha estrutural
Quando é preciso uma médica de família, dois anos depois, para detetar uma ausência, não estamos perante uma falha clínica. Estamos perante uma falha social profunda
Quando a estética substitui a ética
Tudo isto precisa de ser relançado e repensado. A política, o Direito, a forma como comunicamos e, sobretudo, a forma como escolhemos o que é essencial. Porque sem ética, a estética é apenas ruído bem iluminado. E sem verdade, nenhuma sociedade resiste por muito tempo