Um cartaz a anunciar uma tourada foi o bastante para avivar esta revolta. Espetar um ferro num touro encurralado, deixá-lo sangrar e persegui-lo. É violência. É cobardia.
Se fosse um cão ou um leão, seria inaceitável. Ninguém hesitaria em chamar-lhe bárbaro e medieval. Mas como é um touro, passa a ser um espetáculo cultural.
Ao contrário do que se diz, o touro de lide não nasce para lutar. Como qualquer outro animal, nem todos têm o mesmo temperamento. Uns são mais reativos, outros menos.
Mas isso nem é o essencial. O que interessa é que, quer seja bravo ou manso, o touro é um ser senciente: sente dor, medo e angústia.
Qual a justificação para transformar o seu sofrimento em entretenimento?
Fadjen é a prova disso. É um touro de raça bravia. Foi salvo ainda bezerro de uma ganadaria e criado por um homem que preferiu dar-lhe carinho em vez de lhe espetar ferros. Hoje, com cerca de 16 anos e mais de meia tonelada, Fadjen, ao som da voz do seu protetor, aproxima-se dele e encosta a cabeça no colo como se fosse um cão.
Os defensores da tourada gostam de dizer que o touro de lide vive quatro ou cinco anos em liberdade no pasto, como um rei, uma vida bem melhor do que outros animais de produção. Mas quatro anos de tranquilidade no campo não anulam o pânico, a dor e o terror dos últimos minutos de vida. Ter uma boa vida no pasto não é um fim em si e não dá a ninguém o direito de transformar a sua morte num espetáculo de tortura.
Na arena, a história é outra. O touro encurralado reage em pânico. Aquilo a que chamam espetáculo cultural não passa de um animal a tentar desesperadamente sobreviver ao ataque que lhe estão a fazer.
O facto de um touro de lide só poder ser lidado uma vez é revelador. Sabemos que os bovinos são capazes de sentir, aprender, memorizar e modificar o comportamento a partir de experiências anteriores.
Falam da “faena”, como se de um bailado ou de arte se tratasse. Mas qual é a arte em brilhar à custa de um animal exausto, massacrado, assustado, ensanguentado, espicaçando-o e ludibriando-o com o capote para lhe espetar ferros no dorso? E depois de deleitarem os espectadores com o animal já moribundo, entra um grupo de supostos corajosos para o pegar e tentar imobilizar. Depois, o destino continua a ser a morte.
Na praça, os toureiros montam cavalos sujeitos ao uso de esporas, colocando a violência acima da extraordinária relação de confiança que um ser humano pode construir com o cavalo.
Há famílias que transmitem esta tradição de geração em geração. Ensinam os filhos a normalizar o sofrimento animal como forma de entretenimento.
Alimentam um negócio disfarçado de património e apoiado direta ou indiretamente por dinheiro público. É verdade que não há um subsídio estatal específico para a tourada, mas há apoios públicos à atividade agrícola e outras formas de financiamento que beneficiam, direta ou indiretamente, este setor.
As ganadarias de touro bravo, quando cumprem os critérios previstos para as explorações agrícolas, podem beneficiar de apoios do FEADER e da Política Agrícola Comum (PAC), assim como existem apoios à atividade pecuária e à conservação e melhoramento de recursos genéticos animais de que os criadores da raça brava de lide podem beneficiar.
Os municípios apoiam financeiramente festas e eventos tauromáquicos, compram bilhetes, suportam despesas relacionadas com as praças e financiam outras estruturas ligadas aos espetáculos.
Para este espetáculo, apresentado como património cultural, o Estado aplica uma taxa de IVA de 6 por cento. Já uma consulta veterinária para tratar um animal de companhia está sujeita a 23%.
O emprego e a economia local são outros argumentos utilizados pelos aficionados. Mas será que as terras, os recursos e os postos de trabalho, sem a tourada, não se podem reconverter em turismo e agricultura sustentáveis e preservação ambiental?
Será que o touro em liberdade no pasto não vale mais como ativo turístico e ambiental vivo do que morto numa praça?
Recordemos que a caça à baleia ou os circos com animais selvagens também geravam empregos e lucros e em Portugal a sociedade já não os aceita.
A ideia de que sem touradas, a raça do touro de lide desaparece, porque não tem viabilidade comercial, simplesmente não se sustenta.
E o Burro de Miranda tem viabilidade económica?
Não, o Burro de Miranda também não tem viabilidade económica. Mesmo assim, é preservado sem que ninguém precise de o torturar em espetáculos públicos.
A preservação de uma raça não tem, necessariamente, de depender da utilização dos seus animais em espetáculos que lhes provoquem sofrimento e morte.
A tradição não justifica tudo. A crueldade não se transforma em cultura só porque é antiga.
Se os defensores das touradas insistem em dizer que esta prática representa o País, então perguntem ao povo. Que se faça um referendo nacional sobre o fim das touradas.
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