Imagine um lugar perfeito. Montanhas verdes, estradas sinuosas, uma pequena aldeia perdida no meio da natureza, água cristalina, quase ninguém à volta. Uma paisagem que parece ter sido criada para uma fotografia do Instagram. Agora imagine milhares de pessoas a terem exatamente a mesma ideia: “Tenho de ir lá.”
É assim que começa um dos grandes paradoxos do turismo moderno.
Quanto mais mostramos determinados lugares, mais pessoas querem conhecê-los. Quanto mais falamos sobre a necessidade de os proteger, mais podemos contribuir para os tornar desejáveis.
E no centro desta contradição estão eles: os influencers de viagens.
Todos os dias aparecem nas redes sociais fotografias e vídeos de destinos paradisíacos acompanhados de mensagens sobre sustentabilidade, preservação da natureza e turismo responsável:
“Proteja este lugar.”
“Não deixe lixo.”
“Respeite a comunidade local.”
“Viaje de forma sustentável.”
Tudo parece certo.
Mas há uma pergunta incómoda: e se, antes de convencer as pessoas a proteger aquele lugar, a fotografia já as tiver convencido a visitá-lo?
O paradoxo do destino perfeito
O turismo mudou. Já não precisamos de uma agência de viagens para descobrir um destino. Basta abrir o Instagram, o TikTok ou o YouTube. Um vídeo de 30 segundos pode transformar uma aldeia desconhecida num destino obrigatório. Uma fotografia pode transformar uma praia tranquila numa fila de turistas. Um influencer pode fazer com que milhares de pessoas que nunca tinham ouvido falar de determinado lugar passem a querer estar lá.
E há uma razão simples para isso. Não compramos apenas viagens. Compramos histórias, experiências e a sensação de fazer parte de alguma coisa.
Quando vemos alguém a viajar para um determinado lugar, não estamos apenas a ver uma paisagem. Estamos também a ver uma vida que parece interessante, livre e extraordinária. E é aí que entra o famoso FOMO — o medo de ficar de fora. Aquela sensação de que toda a gente está a viver alguma coisa que nós ainda não vivemos. O amigo esteve lá. O influencer esteve lá. Os nossos seguidores já viram fotografias daquele lugar. E nós? Ainda não.
“E se eu for tarde demais?”
O FOMO funciona como uma espécie de relógio invisível. Se um destino está na moda, queremos conhecê-lo enquanto ainda está na moda. Se dizem que determinado lugar está a ficar destruído pelo turismo, podemos até pensar: “Tenho de ir antes que desapareça.” É uma ideia absurda, mas profundamente humana. E é precisamente aqui que uma mensagem ambiental pode acabar por criar um efeito inesperado.
Dizer que um destino está ameaçado pode levar algumas pessoas a afastarem-se. Mas também pode tornar esse destino ainda mais precioso aos olhos de quem o vê. Se é raro, quero conhecer. Se está a desaparecer, quero ir. Se toda a gente fala dele, não quero ser o único que ficou em casa.
Mas há quem tenha descoberto o prazer de não ir
Existe uma reação diferente. Em vez do medo de ficar de fora, há quem comece a sentir satisfação precisamente por não participar na corrida. É o chamado JOMO — Joy of Missing Out. Em português, poderíamos chamar-lhe simplesmente o prazer de ficar de fora. É escolher uma praia menos conhecida em vez daquela que aparece constantemente no Instagram. É preferir uma aldeia tranquila a uma cidade inundada de turistas. É não sentir necessidade de publicar fotografias num local onde já estão milhares de pessoas a fazer exatamente a mesma coisa. É perceber que uma viagem não precisa de ser espetacular aos olhos dos outros para ser importante para nós.
E esta mudança pode ser decisiva. Porque talvez o futuro do turismo não esteja em encontrar o próximo destino viral. Talvez esteja em encontrar destinos que ainda não precisem de ser virais.
O problema é que o medo fala mais alto
A investigação realizada nas estações montanhosas do Norte da Índia mostra precisamente esta tensão. Foram estudados 458 turistas que acompanhavam conteúdos de influencers de viagens. Os resultados apontam para uma diferença importante: as mensagens ecológicas conseguem reduzir o medo de ficar de fora e aumentar o prazer de escolher ficar longe dos destinos mais congestionados. Mas existe um problema: O FOMO parece ter muito mais força do que o JOMO.
Ou seja, o medo de perder uma experiência pode ser muito mais poderoso do que a satisfação de decidir não participar nela. É uma conclusão que deveria fazer pensar quem trabalha em turismo.
Não basta dizer: “Este destino está sobrelotado.”
Não basta colocar uma fotografia de uma montanha acompanhada por uma mensagem sobre sustentabilidade. E muito menos basta terminar uma publicação com um coração verde. Se a imagem continuar a transmitir exclusividade, aventura e a sensação de que estamos perante uma oportunidade única, a mensagem pode não chegar onde se pretende.
A fotografia pode vencer a legenda
Esta talvez seja a parte mais desconfortável de todas. Imagine uma publicação. Na fotografia, uma paisagem espetacular. Na legenda: “Este lugar está a sofrer com o excesso de turismo. Por favor, viaje de forma responsável.” Quantas pessoas vão ler a legenda? E quantas vão guardar a fotografia? É possível que o nosso cérebro retenha a imagem antes da mensagem. E é precisamente por isso que a comunicação turística precisa de mudar. Durante décadas, a indústria aprendeu a criar desejo. Agora precisa de aprender uma coisa aparentemente contraditória: a criar desejo sem criar multidões.
O influencer pode ser parte do problema. Mas também pode ser parte da solução. Seria fácil apontar o dedo aos influencers. Mas a realidade é mais complicada. Eles não inventaram o desejo de viajar. Também não são os únicos responsáveis pela sobrelotação dos destinos. No entanto, têm uma capacidade extraordinária para chamar a atenção para determinados lugares. E essa capacidade pode ser utilizada de duas formas. Pode dizer:
“Olhem para este lugar. Têm de vir.”
Ou pode dizer:
“Olhem para este lugar. Talvez seja melhor não virem todos.”
A diferença parece pequena. Na prática, pode ser enorme.
A investigação mostra que as pessoas mais preocupadas com o ambiente respondem de forma particularmente forte às mensagens ecológicas. Para estas pessoas, falar de preservação pode diminuir ainda mais o desejo provocado pelo FOMO e aumentar a satisfação de escolher alternativas menos congestionadas.
Isto significa que não existe uma única mensagem capaz de convencer toda a gente. Há pessoas que querem aventura. Há pessoas que querem fotografias. Há pessoas que querem fugir das multidões. E há cada vez mais pessoas que começam simplesmente a perguntar: “Será que preciso mesmo de ir?”
Quando o sucesso se transforma num problema
O caso das montanhas do norte da Índia é particularmente revelador. A região tem recebido milhões de turistas e algumas infraestruturas já enfrentam uma pressão considerável. Em Shimla, por exemplo, a procura de água durante os períodos de maior afluência ultrapassa largamente a capacidade de abastecimento disponível. No corredor do Atal Tunnel, o número de veículos também tem ultrapassado a capacidade indicada para a via.
É o lado perverso do sucesso turístico. Primeiro queremos que o mundo descubra o nosso destino. Depois descobrimos que o mundo inteiro descobriu. E aquilo que era uma vantagem transforma-se num problema. Mais turistas. Mais carros. Mais lixo. Mais consumo de água. Mais pressão sobre as comunidades locais. Mais fotografias. E, ironicamente, menos do que todos procuravam inicialmente: tranquilidade.
Talvez tenhamos de deixar de procurar o “último paraíso”
A indústria turística passou décadas a vender a ideia do lugar secreto.
A praia secreta.
A aldeia secreta.
A montanha secreta.
O restaurante que “ninguém conhece”.
O problema é que, nas redes sociais, um segredo pode durar apenas algumas horas. Basta um vídeo tornar-se viral. Depois vêm milhares. E aquilo que era especial deixa de ser especial. Talvez seja altura de abandonar a obsessão pelo próximo lugar “imperdível”. Porque há uma diferença entre descobrir um destino e consumi-lo. Viajar pode significar conhecer. Pode significar aprender. Pode significar apoiar comunidades locais. Pode significar escolher épocas menos movimentadas ou destinos alternativos. E, em alguns casos, pode significar simplesmente não ir.
A verdadeira viagem pode começar quando deixamos de competir
Durante muito tempo, viajar também foi uma forma de mostrar aos outros que estávamos a viver. A fotografia servia como prova. “Eu estive aqui.” Hoje, talvez seja necessário fazer a pergunta inversa: “Porque preciso que toda a gente saiba que estive aqui?”
O turismo sustentável não será construído apenas com campanhas institucionais ou palavras como “verde”, “responsável” e “ecológico”. Será construído quando conseguirmos mudar aquilo que consideramos uma boa viagem. Uma boa viagem não precisa de ser a mais popular. Não precisa de ser a mais fotografada. Não precisa de ser aquela que aparece em todos os feeds. E talvez nem precise de acontecer no lugar que toda a gente está a visitar. Porque, no fim, existe uma ironia difícil de ignorar: se todos queremos descobrir o paraíso, podemos acabar por destruí-lo no caminho até lá.
E talvez a próxima grande tendência do turismo não seja o FOMO. Talvez seja aprender, finalmente, a não ter medo de ficar de fora.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.