Todo o país tem um, certo? Ele aparece ao churrasco de família, de tenaz numa mão e copo na outra, e anuncia com a autoridade de um catedrático que nunca leu um livro sobre o assunto: “O homem nasceu para comer carne!” Segue-se um silêncio ponderado, porque ninguém discute biologia com quem controla a grelha, não é?
Embora o tio ou o cunhado dos domingos de churrasco acredite convictamente que somos carnívoros, na mesma linhagem que aqueles predadores de ápex, como a chita ou o crocodilo, o que implicaria que comer carne é obrigatório para a sobrevivência, o consenso científico é que os seres humanos são omnívoros. E é aqui que reside a trapalhice que gera discussão desnecessária, pois este conceito frequentemente provoca confusão no que toca ao seu significado. Sim, somos omnívoros. Só que omnívoro significa que podemos comer carne, não significa que temos que. Ou seja, deveria ser lido como “pode”, não “tem de”. É quase como pensarmos que ter uma carta de condução não implica que tenhamos que ter um carro ou conduzir, mesmo que estejamos aptos para isso.
“Mas foi a carne que nos deu este cérebro!”, insiste o tio, que também viu um documentário. No nosso passado evolutivo, é possível que comer carne nos tenha dado uma vantagem evolutiva, devido ao grande aproveitamento energético e proteico, ajudando a nutrir um cérebro cada vez maior e mais complexo, e a nossa flexibilidade alimentar foi um dos fatores que determinou o nosso sucesso como espécie, isto é, poder ir variando entre obter energia a partir daquilo que íamos colhendo da terra e das árvores, e o que íamos caçando. Isto embora vários antropólogos sugiram que os nossos antepassados eram frequentemente bons aproveitadores de restos alheios, de uma carcaça já deixada para trás, e nem sempre os caçadores heroicos que se projeta no nosso imaginário coletivo.
Porém, já não vivemos no Paleolítico. Se alguns dos nossos antepassados pré-históricos estavam mais limitados no que toca à escolha dos seus alimentos, para a maioria dos humanos modernos, escolher entre comer ou não comer carne é uma opção, pois o nosso organismo não necessita de carne para sobreviver nem garantir a ingestão de todos os nutrientes essenciais.
Em boa verdade, os humanos são bastante próximos, em termos de funcionamento fisiológico, de outros primatas próximos, como os chimpanzés e orangotangos, também eles omnívoros, ou seja, que vão buscar nutrientes quer a plantas como a animais, mas que têm uma alimentação predominantemente de origem vegetal. Até o gorila, um outro parente evolutivo próximo, tem uma dieta que é quase 99% à base de consumo de diversas plantas, alimentando-se apenas esporadicamente de uns ocasionais insetos com que se cruza, mas dificilmente alguém o acusa de fraqueza física, certo? Se o gorila fosse a jantares de família, ninguém lhe perguntava pela proteína. Não por educação, mas por instinto de sobrevivência.
O motor principal deste mito nunca foi a ciência, foi a velha ideia de que, se é natural, então é bom, necessário e indiscutível. Mas, será? Ora, o arsénio é natural, e o cianeto também é extraído da natureza, mas não quer dizer que sejam lá muito bons para nós, certo? O tio do churrasco costuma estar parcialmente vestido (pelo menos a parte de baixo) frente à grelha (felizmente!) , e aparentemente não se deu conta que as roupas dele não vieram à nascença. E quanto ao garfo que usa para se empanturrar, este chegou na Europa a ser ridicularizado como uma artificialidade decadente, condenado por gente devota que achava que comer com as mãos é que era conforme à natureza. Hoje, o mesmo utensílio poderia servir de ponteiro ao tio que nos explica o que é natural, mas é melhor nos coibimos dos instintos mais animalescos da pré-história…
A evidência científica deixa claro que somos bichos flexíveis, que atravessámos milénios a comer o que havia, e que a obrigação biológica não existe. Se a natureza nos deixou instruções tão claras sobre o que devemos comer, onde é que ficou o manual? Porque ninguém o encontra. E, entretanto, continuamos todos a comer com garfo.
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