Comecemos por esclarecer uma coisa antes que apareça um especialista de Instagram munido de megafone, três hashtags e um doutoramento tirado num reel de 17 segundos: Sydney Sweeney não fez propriamente uma campanha de roupa desportiva. Fez uma campanha para a Novig, uma plataforma americana de apostas e previsões desportivas, sob o lema Novig is Just Sports, aparecendo com pouca roupa, muita parafernália atlética, duas bolas de futebol americano estrategicamente colocadas sobre os seios e, sobretudo, aquela sua capacidade rara de transformar 58 segundos de publicidade numa conferência internacional sobre feminismo, capitalismo, mamas, desporto, moral, apostas, patriarcado e, se lhe dermos mais dois dias, provavelmente também sobre a queda do Império Americano às mãos dos hijabs do Irão. Sweeney não é sequer apenas o rosto contratado: entrou como parceira estratégica e accionista da empresa, o que significa que, enquanto metade da Internet discute se ela está demasiado despida, é perfeitamente possível que esteja apenas muito bem vestida de acções e a ganhar muito dinheiro.
As atletas reagiram. E algumas têm razões perfeitamente compreensíveis para isso. Ariarne Titmus, campeã olímpica, Amy Hunt e outras desportistas lembraram que o desporto feminino é treino, músculo, dor, disciplina, derrotas, lesões, suor e anos de trabalho, não uma actriz seminua segurando convenientemente uma bola diante da câmara. A campanha desencadeou então a resposta this is what a woman in sport looks like, com atletas a mostrarem o corpo verdadeiro do desporto: cansado, musculado, ferido, transpirado, glorioso e, regra geral, muito pouco interessado em filtros Valencia.
Tudo muito respeitável. O problema começa quando uma discussão legítima sobre publicidade entra no enorme centrifugador moral das redes sociais e sai de lá transformada numa guerra civil — ou “guerra cultural”, como agora se diz para dar importância académica a discussões de café — sobre o direito de Sydney Sweeney mostrar as mamas. Foi mais ou menos aí que entrou o Estado da Arte, da RTP, e Rodrigo Moita de Deus decidiu pegar numa bazuca de ironia. Perante a indignação com decotes, tops e carne exposta, sugeriu um “hijabzinho” para Sydney e declarou que “o mulherio tem que aprender outra vez a vestir-se como deve ser”. A ironia tinha a subtileza de um elefante de patins, mas fez rir a mesa. E, reconheçamos, nesta matéria talvez a gargalhada seja ainda o instrumento crítico mais saudável disponível.
A estranha coligação do decote
O mais divertido é que Susana Peralta, partindo de um território ideológico praticamente oposto, acabou por chegar a uma conclusão surpreendentemente próxima. Na sua crónica no PÚBLICO, As mamas são dela, defendeu aquilo que, aparentemente, em 2026 ainda precisa de demonstração matemática: o corpo de Sydney Sweeney pertence, imagine-se, a Sydney Sweeney, e uma mulher adulta, poderosa e economicamente independente pode decidir mostrá-lo e comercializá-lo se assim entender. Não é obrigatório gostar da campanha, nem sequer deixar de achar preguiçoso o velho expediente publicitário do “não sabemos como vender isto, tragam uma mulher bonita e boa e tirem-lhe a camisola”. Mas existe uma distância considerável entre criticar um anúncio e transformar a actriz numa propriedade colectiva cuja quantidade regulamentar de epiderme passa a ser decidida por um soviete de comentadores digitais.
Temos assim um daqueles raríssimos momentos da história contemporânea em que um conservador e uma feminista acabam exactamente no mesmo lugar: entre um par de mamas. A política portuguesa talvez devesse estudar o método. Se o Orçamento do Estado fosse discutido em lingerie, quem sabe se não tínhamos aprovação por unanimidade antes do jantar, poupando os pobres deputados aos longos serões, aos discursos sobre competitividade e àquele sofrimento nacional que consiste em ouvir alguém dizer “saldo estrutural” depois das dez da noite.
Mas eis que, precisamente quando a Internet estava ocupadíssima a calcular quantos centímetros quadrados de Sydney Sweeney podem aparecer num anúncio relacionado com desporto sem destruir cem anos de emancipação feminina, chegava de Pequim uma contribuição científica absolutamente devastadora para o debate.
Joanna Wietrzyk, atleta australiana de HYROX — descobri agora mesmo que isto é uma modalidade desportiva e não uma nova marca de detergente: trata-se de uma competição de fitness indoor de alta intensidade que combina corrida e exercícios funcionais — sofreu incontinência fecal durante uma prova. E continuou. Correu, empurrou pesos, utilizou equipamentos partilhados e acabou por vencer. As imagens tornaram-se virais, a organização reconheceu que deveria ter actuado imediatamente e anunciou alterações aos procedimentos; Wietrzyk acabaria por pedir desculpa e retirar retroactivamente o resultado e os pontos conquistados.
E aqui, minhas senhoras, meus senhores e restantes modalidades da existência humana, termina qualquer discussão séria sobre a possibilidade de o desporto ser permanentemente elegante.
O esfíncter não tem Instagram e o Instagram não tem esfíncter
Porque a alta competição possui uma característica que escapa frequentemente aos departamentos de marketing e às redes sociais: acontece dentro de corpos humanos. E os corpos humanos são extraordinários, mas têm canalizações. Durante exercício intenso e prolongado, o organismo desvia parte do fluxo sanguíneo do aparelho digestivo para os músculos; a digestão altera-se, a motilidade intestinal pode aumentar e aparecem cólicas, náuseas, diarreia e aquela terrível urgência para evacuar que nenhuma campanha da Nike alguma vez conseguiu transformar num slogan. Alimentação, cafeína, desidratação e esforço extremo podem agravar tudo. Ou seja, enquanto nós discutimos representação, objectificação, patriarcado e narrativa visual, o intestino está-se perfeitamente nas tintas ou melhor, cagando para a semiótica.
A britânica Paula Radcliffe já teve de parar durante a Maratona de Londres de 2005 para tratar do assunto e regressou à corrida para ganhar. O francês Yohann Diniz sofreu graves problemas intestinais na marcha de 50 quilómetros dos Jogos Olímpicos do Rio. E Gary Lineker protagonizou o seu célebre incidente no Mundial de 1990. O desporto de elite conhece há décadas este lado menos adequado a campanhas de perfume, relógios de luxo e vídeos em câmara lenta acompanhados por uma versão épica de We Will Rock You.
E é precisamente aqui que Sydney Sweeney e Joanna Wietrzyk se encontram, embora provavelmente nenhuma delas tivesse imaginado tão extraordinário encontro. A primeira mostra-nos o corpo transformado pela publicidade em fantasia: iluminado, coreografado, estrategicamente tapado por bolas, tacos e equipamento. A segunda mostrou involuntariamente o corpo que a publicidade nunca quer mostrar: desobediente, vulnerável, biológico e totalmente incapaz de perceber que está a ser filmado em alta definição para ser distribuído mundialmente cinco minutos depois.
Talvez esta seja, afinal, a única conclusão útil de uma polémica bastante parva. Podemos discutir se é preguiçoso sexualizar o desporto feminino e muitas vezes é. Podemos defender o direito de Sydney Sweeney a fazer com o próprio corpo exactamente o que lhe apetecer, evidentemente. Podemos até achar genial o “hijabzinho” do Moita de Deus ou preferir a formulação muito mais simples, e bastante definitiva, de Susana Peralta: as mamas são dela. Mas convém não perder de vista o essencial. O verdadeiro corpo desportivo não é o corpo higienizado da publicidade nem o corpo moralizado do Instagram. É uma máquina magnífica e imperfeita que corre, sua, sangra, vomita, menstrua, sofre cãibras, desidrata e, em circunstâncias particularmente infelizes, faz cocó antes da meta. Sydney Sweeney pode, portanto, continuar sem camisola, sobretudo sem a do Sporting, porque assim sempre evita afrontar os benfiquistas. Joanna Wietrzyk, da próxima vez, talvez deva parar antes de se borrar toda. E o Instagram, por favor, podia experimentar ficar cinco minutos calado. Isso, sim, seria quase um recorde mundial.