A porta quase passa despercebida na parede ao lado do lavatório de mármore. Pequena, de madeira pintada de um cinzento muito claro. É preciso alçar a perna para a atravessar e chegar a umas escadas de madeira estreitas e íngremes. Lá em cima, no sótão insuportavelmente quente no verão ribatejano, no lugar onde estavam sempre espalhadas ratoeiras pelo chão, ficava o quarto das criadas na casa dos meus bisavós. Também havia um sótão gelado no inverno e sufocante no verão onde dormiam as empregadas em casa dos meus avós paternos. E na casa dos meus avós maternos, a divisão, mais simpática, com janela e casa de banho, ao fundo de um corredor que a ligava à cozinha, já se tinha transformado há muito num quarto de costura quando eu nasci. No tempo em que eu vim ao mundo, deixou de ser normal ter criadas. E isso, por muita nostalgia que alguns privilegiados pudessem ter de outros tempos, foi uma grande conquista da liberdade e do progresso. Significava que o trabalho tinha ficado mais caro.
Há uns tempos, ouvi uma amiga brasileira, com dois filhos pequenos, queixar-se candidamente de que aqui é impossível arranjar ajuda. “No Brasil é mais fácil porque há muita desigualdade.” E basta percorrer o mapa do mundo de sul para norte para perceber que, à medida que se avança para geografias onde o preço do trabalho é mais alto, é menos comum ter empregados domésticos.
No tempo dos meus avós, dizia-se “criadas” e o termo era cruelmente verdadeiro, porque eram quase sempre meninas que vinham para a casa dos patrões ainda por criar, tantas vezes ajudando a tratar de outras crianças. Conheço uma, hoje quase nonagenária, que começou a trabalhar aos 7 anos, vinda de uma família de muitos filhos, que chegava a andar à esmola para comer. Um dia, contou-me ela, na casa da família que serviu, estava tão cansada que adormeceu. “Ali, depois de arrumar a loiça”, disse, apontando para o louceiro que, agora na minha cabeça, passou a ser o símbolo da exploração dessa infância. Ao meu lado, estava a minha filha então com 7 anos, e é escusado dizer o aperto no peito que senti.
É também nisto que penso quando digo que são precisos muitos pobres para fazer um rico. Quanto mais frágeis forem os que estão na base da sociedade, mais poder consegue exercer quem está no topo. Só a existência de muita miséria consegue assegurar um trabalho de servidão próximo da escravatura. É o desespero que garante a submissão. E o desespero é tanto maior quanto menos redes de apoio se tem, quanto mais sozinhos estamos, quantos mais desprotegidos nos sentimos.
Nos últimos 50 anos, deixou de ser normal ter criadas em casa porque felizmente as meninas e mulheres deste país ganharam outras escolhas. Continua a haver trabalho doméstico, mas o preço e as condições laborais são outros. E não é só uma questão de oferta e procura, tem que ver com o contexto social desta força de trabalho, que acedeu à escolarização e teve apoios sociais, e com as leis que foram feitas para a proteger. E essa é uma parte da história que os gurus da autoajuda financeira não gostam de contar. Para os crentes na meritocracia, cada empreendedor individual fica mais livre e “alcança melhor o seu potencial” (como eles dizem) sem regulação, sem leis, sem coletivo. Eles dizem também “sem Estado”, mas aproveito aqui para lembrar que na I Guerra Mundial, quando em países como o Reino Unido e Itália o Estado passou a controlar e a gerir quase todas as indústrias, esse Estado atuou para esmagar direitos e salários de trabalhadores, numa altura em que a escassez de mão de obra teria feito disparar o custo do trabalho. Por isso, é bom lembrar que não se pode confundir Estado com interesse público, a menos que existam condições políticas de pressão que forcem esse Estado a agir na defesa do bem comum.
No rescaldo das duas Grandes Guerras, uma parte importante do mundo ocidental teve de lidar com classes trabalhadoras com capacidade de luta que era preciso apaziguar. Foi isso que deu origem ao Estado social. Dar direitos e apoios foi a forma de a elite económica garantir a sua própria sobrevivência. Hoje, percebemos que o poder se deslocou, outra vez da base para o topo. E a tecnologia é uma parte importante dessa história.
Vejo na BBC Brasil um vídeo em que um robot humanoide esfrega uma sanita, limpa uma bancada e aspira. “Finalmente, uma boa aplicação da tecnologia”, suspiro, cansada de máquinas de guerra e sistemas de IA desenhados para nos dispensar de pensar e criar. Mas depois paro por um momento e penso em todas as mães solteiras da periferia que só conseguem ter comida no prato dos filhos por fazerem estes trabalhos. E penso em como, num mundo em que se desmantelam apoios sociais, se corta em saúde, educação e habitação públicas, haverá cada vez mais um exército de humanos descartáveis, inúteis, obsoletos e desesperados.
É impossível adivinhar o que vem a seguir. Elon Musk está obcecado com a ideia de guerra civil e sonha há décadas com uma fuga para o espaço. As suas obsessões podem parecer risíveis, mas dizem-nos alguma coisa sobre o que estes tecnocratas oligarcas andam a produzir. Eles sabem que o mundo de exploração intensiva de recursos para alimentar os seus monstros tecnológicos terá uma fatura pesada para o planeta. Mas sabem também que o caos e a divisão que os seus algoritmos estimulam, ajudando-os a concentrar poder, tem como efeito colateral a criação destas hordas de desesperados.
A questão é: vão os trabalhadores despojados de direitos e empobrecidos continuar a alimentar a máquina cada vez mais extrema da desigualdade ou vão revoltar-se contra quem os oprime? Desta vez, as elites têm robots capazes de substituir os humanos em quase todas as tarefas e de os aniquilar a uma simples ordem, sem uma hesitação moral ou um lampejo de empatia. Talvez não seja só o fantasma dos quartos das criadas a regressar, talvez seja uma coisa ainda mais negra do que isso.
Esse é, por enquanto, só um cenário de futuro. Não é uma condenação. A lucidez não deve paralisar-nos. Pelo contrário, deve ser o motor de uma luta que não se faça só de resistência, mas de sonho. Se os senhores do mundo sonham com os nossos piores pesadelos, imaginemos nós o nosso sonho. Não é por acaso que a ficção científica se tem ocupado tanto de distopias e apocalipses. Faz parte da ideia de desmantelamento de alternativas. A realidade começa a mudar no momento em que imaginamos. Porque é a imaginação que mostra o caminho.
O caminho que nos fará mais felizes não passa por produzir mais pobres desesperados. Passa por democracia real, direitos e salários dignos. Por um mundo em que os sótãos onde dormiam as criadas continuem fechados a ganhar pó.