Um assassino em série na Vitoria, capital do País Basco, do século XIX, a Argentina que continua a tropeçar nas suas ditaduras, raparigas entregues pelo próprio pai à moral franquista e mortos que se recusam a ficar mortos, que nos ofereceu o chileno Pablo Larraín a concorrer à Concha de Ouro com uma minissérie de televisão transformada em filme de 187 minutos. Porque, aparentemente, três horas já são um formato
San Sebastián chegou ao domingo com aquela particular alegria dos festivais de cinema em que uma pessoa começa o dia com mulheres estranguladas, continua com fascistas argentinos, passa a tarde num reformatório de freiras e termina a conversar com mortos. Depois perguntam por que razão os críticos começam a “passar-se” ao terceiro dia. O programa desta jornada ofereceu quatro maneiras diferentes de falar da mesma coisa: aquilo que uma sociedade enterra nunca fica propriamente enterrado. Pode mudar de nome, de regime, de século ou de plataforma de streaming, mas acaba por regressar. Às vezes sob a forma de um assassino chamado Juan Díaz de Garayo, outras como um ex-comissário da polícia política e assassino da ditadura, uma madre superiora repressiva ou simplesmente um fantasma que se senta na sala e espera que alguém finalmente lhe preste atenção.
O monstro estava em casa
Comecemos por Sacamantecas, terceiro filme do espanhol David Pérez Sañudo, depois de Ane e Os Últimos Românticos, e provavelmente o mais ambicioso que realizou até agora. Estamos na Álava de finais do século XIX, a III Guerra Carlista ainda está a acabar, várias mulheres aparecem estranguladas nos arredores de Vitoria e Juan Díaz de Garayo, interpretado por Antonio de la Torre, vai construindo a reputação que o transformaria numa espécie de papão nacional muito antes de alguém ter inventado a expressão “serial killer”.
A boa ideia de Sañudo consiste em perceber que o verdadeiro terror não está apenas no assassino. Está naquilo que gira em redor dele. Na guerra, na miséria, numa sociedade onde uma mulher assassinada pode ser sobretudo um incómodo administrativo e onde as autoridades parecem mais preocupadas em manter a ordem do que em descobrir quem está a matar. Patricia López Arnaiz interpreta Ángela Berrosteguieta, irmã de uma das vítimas, e é ela quem introduz no filme aquilo de que o sistema menos gosta: uma mulher que faz perguntas e insiste em obter respostas. Ou melhor: que investiga.
Visualmente, Sacamantecas tem músculo: lama, névoa, figurantes, uniformes, interiores escuros, cavalos, guerra e uma Vitoria suficientemente húmida para provocar uma pneumonia só de olhar. Sañudo queria um filme “hipernaturalista” e percebe-se a intenção. O problema é que tamanho investimento na reconstrução histórica nem sempre encontra igual energia dramática. Está tudo muito bem vestido, muito bem fotografado, muito bem produzido e, justamente por isso, às vezes sentimos que a produção chegou ao cenário alguns minutos antes do filme. Antonio de la Torre recusa transformar Garayo num monstro óbvio e faz bem; Patricia López Arnaiz (vimo-la em Aquí, de Tiago Guedes) é uma atriz do outro mundo e volta a provar que consegue acrescentar vida até a um silêncio. Mas Sacamantecas é mais interessante quando observa a sociedade que permitiu o monstro do que quando tenta explicar o monstro propriamente dito.
Lali, Terminator e a Argentina que não passa
Muito melhor resolvido é Glaxo, do argentino Benjamín Naishtat, adaptação do romance de Hernán Ronsino e seguramente um dos filmes mais estimulantes vistos até agora nesta competição. Começa em 1984, num cinema onde passa Terminator, o que já constitui uma excelente maneira de anunciar que passado, presente e futuro vão passar o resto do filme a atropelar-se. Depois regressamos à pequena cidade de Chivilcoy, em 1957, e a quatro amigos cuja adolescência é contaminada pela chegada de Ramón Folcada, antigo comissário da polícia política, ligado aos fuzilamentos de José León Suárez, e da sua mulher, “La Negra” Miranda, interpretada por Lali Espósito.
Naishtat, que já fizera de Rojo uma excelente autópsia da normalidade argentina antes da catástrofe, regressa a uma ideia que conhece bem: as ditaduras não começam quando aparecem tanques e soldados a correr pelas ruas ou na televisão. Começam muito antes, nos pequenos gestos de obediência, na cobardia, nos silêncios convenientes, na vizinhança que olha para o lado e nas relações pessoais contaminadas pela lógica do poder. Glaxo é um filme sobre amizade, desejo, sexo, ciúme e traição, mas também sobre um país onde a violência política entra pela porta da cozinha e se instala à mesa.
Lali Espósito surge com a presença de uma estrela de cinema antigo, entre melodrama, tango e uma sensualidade que desorganiza aquele universo masculino. Marcelo Subiotto é extraordinariamente inquietante sem precisar de carregar no botão do vilão. E a fotografia de Pedro Sotero, acompanhada pela música de Shigeru Umebayashi, dá ao filme uma elegância quase demasiado bela para aquilo que conta. Glaxo demora-se, por vezes até demais, mas sabe exatamente sobre o que está a falar: ninguém consegue fugir inteiramente da história que decidiu não enfrentar. Naishtat disse hoje que “os ciclos fazem ecos”. O filme demonstra-o sem precisar de escrever a frase, em jeito de manifesto, numa parede.
Rezar por elas, porque ninguém mais o fez
Ruega por nosotras, de Daniel Monzón, muda de país — ou, melhor, regressa a Espanha —, mas não propriamente de método repressivo. Espanha, 1974. Ana tem 19 anos, uma família confortável e o defeito imperdoável de se comportar como uma jovem de 19 anos. O pai resolve o problema entregando-a ao Patronato de Protección a la Mujer, essa extraordinária invenção franquista destinada a proteger as mulheres delas próprias, sobretudo da perigosíssima possibilidade de pensarem, desejarem ou escolherem.
Monzón e Jorge Guerricaechevarría, dupla de Cela 211 e As Leis da Fronteira, entram num reformatório dirigido por religiosas, onde disciplina significa humilhação, moral significa controlo e salvação pode querer dizer destruir uma pessoa até ela se tornar suficientemente obediente. As jovens Zoe Bonafonte e Manuela Calle dão corpo a Ana e Sole, e é na amizade entre as duas que o filme encontra a necessária respiração no meio de tanta claustrofobia. Monzón sabe contar histórias, talvez até demasiado bem. Filma a repressão com eficácia física, constrói antagonistas que percebemos imediatamente e não corre o risco de alguém sair da sala sem saber exatamente quem oprime quem. Às vezes, essa vontade de garantir que a mensagem chega à última fila transforma o sublinhado num marcador fluorescente. Mas é difícil negar a força de um filme sobre uma instituição que atravessou o fim da ditadura espanhola sem que a democracia apagasse imediatamente os seus mecanismos. O calendário muda sempre mais depressa do que as mentalidades. O Patronato é a prova disso.
Netflix também quer uma Concha de Ouro
E chegamos, finalmente, a Mis Muertos Tristes, do chileno Pablo Larraín (Maria), onde o verdadeiro fantasma talvez seja a antiga fronteira entre cinema e televisão. Estamos perante uma minissérie de quatro episódios da Netflix, baseada em contos de Mariana Enriquez, remontada numa sessão contínua de 187 minutos e inscrita — sem qualquer complexo — na competição oficial pela Concha de Ouro 2026. É possível discutir se isto é cinema, televisão ou uma nova modalidade olímpica de resistência lombar. O Festival decidiu que é cinema. A Netflix agradece.
Mercedes Morán interpreta Ema, médica recém-reformada que consegue ver mortos e aprendeu a conviver com eles com a naturalidade de quem tem vizinhos barulhentos. A chegada da sobrinha Julie, igualmente dotada mas bastante menos prudente, e o assassinato de três adolescentes transformam uma capacidade privada numa epidemia sobrenatural: os mortos começam a invadir Piedrabuena, bairro onde pobreza, abandono, violência e memória já tinham fantasmas suficientes antes de os verdadeiros aparecerem.
Larraín encontra em Mariana Enriquez matéria perfeita para aquilo que melhor sabe fazer: transformar história, trauma e classe social em imagens que oscilam entre o belo e o profundamente desconfortável. Mercedes Morán é magnífica porque interpreta o extraordinário como rotina; Dolores Fonzi acrescenta nervo a um universo onde vivos e mortos começam progressivamente a ocupar o mesmo espaço. E existe aqui uma ideia poderosa: os fantasmas não regressam porque morreram, mas porque alguma coisa ficou por resolver.
O problema está nos 187 minutos. Vistos como quatro episódios, provavelmente respiram. Vistos de uma assentada, por imposição festivalheira, começam a revelar as costuras da arquitetura televisiva. Há arranques, pausas, recomeços, pequenos clímax e novas partidas que numa plataforma têm uma função e numa sala criam aquela estranha sensação de termos visto o filme acabar três vezes e ele continuar. A culpa não é propriamente de Larraín. Talvez seja da nossa necessidade contemporânea de fingir que os formatos deixaram de existir. Se amanhã concorrer um TikTok de duas horas e meia, ninguém poderá dizer que não fomos avisados.
No fim deste terceiro dia, Glaxo fica como o filme mais completo dos quatro, Sacamantecas como a grande produção que vale mais pela atmosfera e pelo que sugere socialmente do que pelo thriller, Ruega por nosotras como uma denúncia necessária, mesmo quando carrega demasiado no sublinhado, e Mis Muertos Tristes como experiência fascinante e sintoma perfeito de um festival que já não sabe — ou decidiu que já não interessa saber — onde acaba o cinema e começa a televisão.
Talvez seja essa a verdadeira história do dia. Em Vitoria, Chivilcoy, Madrid ou Piedrabuena, toda a gente tenta fechar alguma coisa dentro de uma caixa: assassinos, ditaduras, mulheres incómodas, mortos, memórias. Só que as caixas, no cinema como na História, têm uma irritante tendência para voltar a abrir.