Há uma pergunta que me tem acompanhado sempre que assisto a mais uma crise política: será que confundimos responsabilidade política com demissão?
Vivemos num tempo em que o primeiro reflexo perante uma falha é pedir uma cabeça. Mal surge um erro, a discussão deixa de ser sobre o que aconteceu, porque aconteceu ou como se corrige. Passa a ser apenas sobre quem se demite.
É uma lógica confortável. Simples. Quase instantânea. Há um problema, identifica-se um responsável, esse responsável abandona o cargo e a sensação é a de que a justiça foi feita. Mas foi?
A verdade é que o erro não desaparece com a demissão. As listas de espera continuam. Os alunos continuam nas escolas. Os processos continuam por resolver. As instituições continuam a funcionar. Os cidadãos continuam à espera de respostas.
O problema permanece.
Reformar é, por definição, aceitar a possibilidade de falhar. Quem muda um sistema complexo sabe que nem tudo correrá como previsto. Nenhuma reforma estrutural nasce perfeita. Basta olhar para a educação. Nas últimas décadas sucederam-se alterações curriculares, mudanças nos modelos de avaliação, reformas da carreira docente, novas formas de gestão escolar. Algumas produziram bons resultados, outras revelaram limitações e muitas precisaram de ser corrigidas ao longo do caminho. Isso significa que nunca deveriam ter sido feitas? Claro que não.
Nenhum país evolui sem aceitar que as reformas implicam aprendizagem. E aprender implica errar.
O que verdadeiramente distingue uma boa governação não é a ausência de falhas. É a capacidade de as reconhecer, de explicar aos cidadãos porque aconteceram, de corrigir o que correu mal e de garantir que não se repetem.
É precisamente aqui que sinto que falhamos enquanto cultura política.
Criámos uma ideia muito portuguesa de responsabilidade: quem erra deve sair. E, quanto mais rápida for a demissão, maior parece ser a demonstração de dignidade política. Mas raramente perguntamos quem fica para resolver o problema.
Talvez devêssemos começar a valorizar mais quem tem a coragem de enfrentar os próprios erros do que quem abandona o palco ao primeiro momento de pressão.
Não estou a defender que ninguém se deva demitir. Há circunstâncias em que a perda de confiança, a gravidade dos factos ou a impossibilidade de continuar tornam essa decisão inevitável. A demissão continuará sempre a ser um instrumento essencial da responsabilidade política.
O que questiono é outra coisa: por que razão transformámos a demissão na única forma de responsabilidade?
Porque assumir um erro também é uma forma de responsabilidade. Explicar o que falhou é uma forma de responsabilidade.Corrigir as consequências é uma forma de responsabilidade.
Responder perante os cidadãos enquanto se reconstrói aquilo que foi danificado é, muitas vezes, a forma mais exigente de responsabilidade.
Atirar a toalha ao chão pode ser, em certas situações, inevitável. Mas não deixa de ser, muitas vezes, o caminho mais fácil. O mais difícil é permanecer quando todos esperam que se fuja. É olhar para os cacos, admitir que eles existem, suportar a crítica, reconstruir o que for possível e aceitar que o julgamento será feito pelos resultados dessa reconstrução.
Hoje parece que discutimos mais a saída de quem errou do que a resolução do erro. Procuramos culpados antes de procurarmos soluções. E esta lógica tem um efeito perverso: desincentiva quem quer reformar.
Quem aceita liderar uma mudança sabe que qualquer falha pode significar o fim da sua carreira política, independentemente da sua capacidade para corrigir o problema. Perante este cenário, é natural que muitos optem pela gestão do risco em vez da gestão da mudança. É mais seguro não mexer em nada.
Mas a ausência de reformas também tem consequências. Apenas são menos visíveis e acontecem mais devagar.
Uma democracia madura deve exigir responsabilidade política. Sempre. Mas responsabilidade não pode ser apenas punição. Tem de ser também prestação de contas, transparência, capacidade de corrigir, aprendizagem institucional e compromisso com a melhoria.
Porque um país não cresce quando troca constantemente de protagonistas.
Cresce quando aprende com os seus erros.
E talvez seja esse o maior desafio da nossa democracia: deixar de medir a responsabilidade apenas pela rapidez da demissão e começar a medi-la, sobretudo, pela coragem de permanecer, corrigir e reconstruir.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.