No lugar onde vivo o mar fica longe, e a saudade dele resolve-se num lago comprido, a hora e meia de estrada. Seria um belo dia ao pé do lago, era o que eu pensava.
Pensava mal. Porque isto de te refrescares com o que a natureza te dá é coisa de ricos. “Acesso ao lago gratuito, 15 euros o estacionamento.” Nem pensar, não vou pagar por algo que é nosso. Fui conduzindo à volta do lago, e à primeira ruela meti o carro e ela acabou numa vedação comprida, e à segunda havia um segurança que me olhou como se eu fosse uma espécie invasora e à terceira já a minha esposa ia dizendo, calma, e a água sempre ali, a 20 metros, a dez, a cinco, azul, inteira, indiferente, do outro lado. Era tudo privado. Era tudo privado. Era tudo privado.
Eu só queria um dia descansado, ler um livro perto da água, que este calor não se aguenta. Só isso. Que mal vos fez um homem com um livro e uma cadela? Segui em frente e mais uma ruela acabou num portão que dava literalmente para a água. Detive-me a estudá-lo, porque é um objeto curioso: serve para separar dois tipos de pessoas, os com acesso e os sem acesso.
Em Portugal, também há quilómetros de dunas muradas entre Troia e Melides, 80% do areal sem caminho público, sombras ao preço de um quarto de hotel, e numa das praias é preciso deixar o Cartão de Cidadão ao segurança para pisar areia que é de todos. Não há praias privadas em Portugal, garante a ministra, e é verdade, como é verdade que não há portões neste meu lago, basta não olhar para eles. Foi preciso um rei, D. Luís, em 1864, para declarar as praias públicas. Um rei a defender o povo dos resorts. Se há algum rei para voltar do nevoeiro, que seja esse.
Mais uma hora à volta do lago até que dei com o faroeste: uma margem sem dono declarado, caravanas de todos os feitios, terras marcadas com fitas e pedras, gente que chegou primeiro e fundou pátria. Por um momento vi-me a saltar do carro, chapéu na cabeça, a espetar uma bandeira na areia e a declarar o meu pedaço de terra, as chaves do carro em riste, feitas pistola. Buzinaram-me. Voltei à realidade e estacionei como um homem civilizado.
Soltei a bicha da trela e a cadela entrou na água no seu jeito de baleia, e foi o único ser vivo daquela tarde que não precisou de título de propriedade para ser feliz. Os cowboys do faroeste passam ali o dia a pescar e ninguém entra na água, o que para mim é um desperdício, mas se calhar nadar também é privado e ainda ninguém me disse.
Para uma hora e meia de viagem mais uma hora à procura de entrada, aproveitámos uns 15 minutos de hora mágica. O sol caía atrás dos montes e dourava tudo o que os portões não tinham conseguido impedir: a água, os canaviais, os cowboys pescadores. O faroeste parecia mágico e ninguém pagava para ver o pôr do sol, mas era hora de voltar.
Ao chegar ao carro, meti a mão ao bolso direito. Depois ao esquerdo. Depois aos de trás. Depois outra vez ao direito. Pânico. Perdi as chaves do carro. E desta vez não é brincadeira. Já ganhei prática nisto de perder coisas, e a experiência ensina que desistir é o melhor a fazer. Mas como desistir aqui às sete da tarde? Tínhamos andado uns 20 minutos a pé por areia, lama e relva. Há uns anos, a minha esposa perdeu uns óculos e eu sentenciei logo, esquece, compras uns novos. Não senhor: fez folhas de desaparecimento de óculos e não é que os encontrou? Engoli a minha falta de esperança em seco. Há qualquer coisa a aprender com quem se recusa a aceitar que o que se perdeu está perdido.
Refizemos o caminho passo a passo, os olhos a varrer o chão. Brilhou qualquer coisa, uma cápsula de cerveja. A luz a fugir, a relva cada vez mais escura, e eu já a desistir por dentro no exato vértice onde ia dar meia-volta. Parei, inclinei a cabeça, baixei-me devagar. As chaves! ESTÃO AQUI!, gritei, e o faroeste inteiro levantou a cabeça dos baldes. A minha esposa desatou a rir. Eu a abraçá-la como se tivéssemos ganhado o Euromilhões. E a cadela a olhar para nós, confusa com tanta alegria à volta de um peixe morto: então afinal é para comer o peixe ou não é?
No fim de contas, a única que foi a banhos foi a cadela. O lago é para esquecer, como talvez venha a ser fazer praia na Comporta.
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