No meu tempo, uma caneta servia para duas coisas muito simples: escrever e sujar os dedos. Não havia mistério, não havia tecnologia, não havia hormonas sintéticas a circular no organismo. Havia tinta azul, cadernos pautados e professores que acreditavam firmemente que a letra dizia muito sobre a personalidade de uma pessoa ou de um miúdo na altura. No meu caso, diziam sobretudo que eu provavelmente acabaria médico. Não por vocação, mas por caligrafia. Acabei jornalista. Porém, a minha letra sempre foi uma espécie de eletrocardiograma em crise existencial: uma sequência de gatafunhos que nem eu próprio conseguia (nem consigo agora) decifrar, nem meia hora depois.
Ainda hoje me lembro da primeira caneta de tinta permanente que recebi. Era um objeto quase cerimonial, daqueles que se ofereciam a um rapaz como quem entrega uma chave simbólica para a vida adulta. Claro que o resultado foi imediato: dedos azuis, bata da escola azul, mesa da cozinha azul e uma cara da minha mãe que parecia anunciar o fim da civilização ocidental. A solução foi simples: passei para o lápis. O problema é que depois comecei a roer os lápis. Em retrospetiva, talvez fosse o meu primeiro regime alimentar.
Mas eis que chegamos ao século XXI e alguém decidiu reinventar a caneta. Não para escrever, não para assinar cheques — aliás, já ninguém assina cheques — mas para emagrecer. Caramba, agora existem canetas que se espetam na barriga e fazem desaparecer quilos como quem apaga um parágrafo mal escrito, e sem ser preciso aquelas borrachas que tinham dois lados: um para apagar lápis e o outro, teoricamente, para apagar caneta. Embora na prática só servisse para fazer um buraco no caderno.
Estas maravilhas da ciência moderna, que nada têm a ver com a escrita, chamam-se “canetas emagrecedoras” e aparentemente são a nova religião da medicina contemporânea.
Os médicos explicam que estas canetas funcionam imitando uma hormona chamada GLP-1, responsável por regular a fome. Traduzido para português corrente: o corpo passa a achar que já almoçou mesmo quando ainda está a olhar para o menu. É um truque elegante. E eficaz. No Reino Unido, cerca de 1,6 milhão de pessoas já experimentaram estas injeções — por cá não sei bem os números, mas estão disponíveis na concorrência — para perda de peso, e milhões dizem que gostariam de experimentar também.
Não admira: segundo os médicos, estas canetas não ajudam apenas a emagrecer. Também reduzem riscos de enfarte, problemas renais, doenças hepáticas e até parecem ter efeitos curiosos no consumo de álcool. Ou seja, estamos perante uma espécie de canivete suíço da medicina moderna. Resolve tudo. Falta apenas escrever.
A primeira consequência deste fenómeno não aconteceu nos hospitais. Aconteceu, veja-se, nos supermercados. Quando as pessoas começam a comer menos, os supermercados certamente entram logo numa espécie de crise existencial. É como se um bar descobrisse que os clientes decidiram beber apenas água. Porém, quem usa essas canetas diz que não passou a comprar menos comida, mas antes melhor comida: mais peixe, mais fruta, mais produtos frescos. Menos pizzas congeladas, menos nuggets, menos batatas fritas, menos chocolates de emergência emocional. Alguns supermercados britânicos já começaram a vender bifes de cem gramas. Antigamente chamava-se a isso uma starter (entrada). Agora chama-se porção. A lógica é simples: se vamos comer pouco, que seja bom. É o triunfo da gastronomia minimalista.
Ou, como diria um chef contemporâneo: alta cozinha por falta de apetite.
Mas a revolução não se fica apenas pelas prateleiras dos supermercados, que pelos vistos não têm grandes razões para se preocuparem. Também chegou aos restaurantes. Estudos indicam que cerca de um terço das pessoas que utilizam estes medicamentos passaram a sair menos para jantar fora. O raciocínio é brutalmente simples: se já não temos fome, para que ir ao restaurante? Imaginem o drama, sobretudo com a quantidade de MasterChefs que agora temos por aí. Restaurantes que passaram décadas a convencer-nos a pedir sobremesa ou aqueles menus de degustação, enfrentam agora clientes que dizem, com uma serenidade quase budista: “Não, obrigado, estou cheio.” Cheio… depois de três garfadas. Até restaurantes sofisticados começaram a adaptar menus para esta nova realidade. O célebre Heston Blumenthal — influente chef britânico, conhecido mundialmente pela sua abordagem vanguardista, focada na gastronomia molecular e em experiências culinárias multissensoriais, proprietário do famoso restaurante de três estrelas Michelin The Fat Duck e célebre por pratos improváveis como o gelado de ovo com bacon — já lançou menus “conscientes”, pensados para pessoas que comem menos. Ou seja, finalmente alguém já inventou a alta cozinha que cabe num prato de sobremesa.
Outra consequência inesperada deste fenómeno é o consumo de álcool. Estudos mostram que as famílias que utilizam medicamentos GLP-1 compram significativamente menos bebidas alcoólicas. Parece que o mesmo mecanismo que corta o apetite também corta aquela vontade inexplicável de pedir mais uma cerveja às duas da manhã, até porque agora, entretanto, também já está proibido beber na rua. Se isto continuar assim, os pubs britânicos — e no nosso caso os bares do Bairro Alto, da Rua Cor-de-Rosa no Cais do Sodré, da Baixa do Porto e de outros pontos de animação por esse país fora — vão precisar de apoio psicológico. Aliás, já existe um crescimento impressionante no consumo de cervejas sem álcool. Em 2025 foram consumidos cerca de duzentos milhões de pints de cerveja de baixo teor alcoólico ou sem álcool no Reino Unido. Ou seja, a humanidade finalmente inventou algo que faz as pessoas beberem menos sem lhes dar sermões. E tudo por causa de uma caneta.
Mas há também efeitos colaterais inesperados. Um deles é o drama do guarda-roupa que deixa de servir. Pessoas que perdem muito peso descobrem de repente que as calças caem literalmente do corpo ou melhor, pelas pernas abaixo.
O que parece um problema agradável até se perceber que é preciso comprar roupa nova.
A indústria da moda já esfrega as mãos. Porque cada quilo perdido pode significar um novo casaco. Ou três. Para alguns consumidores isso significa gastar milhares de euros em roupas novas. Para o setor da moda significa um mercado inesperado: o guarda-roupa pós-Ozempic. Outra consequência curiosa é o regresso em força dos ginásios. Quem emagrece rapidamente percebe que precisa ganhar músculo ou pelo menos manter alguma forma física. Resultado: mais inscrições em academias e ginásios, mais personal trainers e mais instrutores a aprender a lidar com clientes que chegam com uma pequena caneta milagrosa no bolso.
A ironia não deixa de ser deliciosa. Convenceram-nos durante bastante tempo de que bastava exercício, umas corridinhas, umas idas ao ginásio e, sobretudo, “fechar a boca” para emagrecer. Agora descobrimos que talvez fosse preciso simplesmente…uma caneta.
Se olharmos bem para isto, há algo profundamente simbólico nestas “canetadas”. Durante séculos, a caneta foi um instrumento de pensamento. Servia para escrever romances, assinar tratados de paz, declarar guerras, fazer poesia. Agora serve para perder peso. É a evolução da civilização. Ou talvez a prova de que a humanidade continua a procurar atalhos. Embora, como diz o velho provérbio, quem se mete por atalhos costuma acabar metido em trabalhos e custa acreditar que uma caneta faz realmente bem a tudo. Mas talvez o verdadeiro mistério não seja nem médico nem económico. É cultural. Também fomos, principalmente os mais velhos, ensinados a desconfiar de soluções milagrosas: dietas rápidas, comprimidos mágicos, máquinas de ginástica que prometiam abdominais enquanto víamos televisão nos programas de televendas. E agora aparece uma caneta que aparentemente funciona, que se compra na farmácia e que vem com receita médica. A questão é inevitável: será isto o futuro da medicina ou apenas mais um capítulo na eterna obsessão humana com o peso e a busca da felicidade? Porque aparentemente os magros são mais felizes? Talvez sejam as duas coisas. Mas uma coisa é certa. Quando eu era pequeno, uma caneta servia para escrever. Hoje serve para emagrecer. E, sinceramente, se isto continua assim, não me admirava nada que daqui a uns anos inventem uma que também pague impostos, escreva críticas de cinema e faça a assinatura por mim. Porque, como qualquer pessoa que já tentou reproduzir a própria assinatura digital sabe, há coisas que nem a inteligência artificial consegue imitar. A minha letra. Essa continua perfeitamente ilegível. Mesmo sem caneta.
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