No 14 de fevereiro somos convidados a celebrar o amor na sua versão mais escarlate. Não há escapatória às decorações, presentes nas montras, músicas e publicidades. Esse amor, o que pode ser celebrado, invade as ruas e os nossos olhos a exibir as relações como um lugar seguro por definição. No Dia dos Namorados falamos de amor como quem fala de destino: ou aparece ou não aparece. Mas o amor, na vida real, é menos destino e mais um conjunto de hábitos. E alguns hábitos, mesmo com boa intenção, fazem um estrago silencioso. Falemos hoje sobre quando o cuidado, intencionalmente ou nem tanto, se transforma numa espécie de gestão do outro – primeiro subtil, depois habitual. E hoje, quase sempre… digital.
Na verdade, nunca tivemos tantos canais para estar em contacto e, ainda assim, tanta ansiedade por não controlar o contacto. Numa tecnologia que nos prometeu proximidade, acabamos, por vezes, por perceber que afinal nos entrega monitorização. E como as palavras importam, a monitorização entrou na relação disfarçada com o nome que mais facilmente passa na alfândega emocional: “preocupação”. Porque a certeza é tentadora e viciante. A certeza acalma. A certeza dá-nos uma espécie de tranquilidade instantânea, como um ansiolítico. O problema é que a certeza, quando se instala como necessidade, transforma a intimidade em inspeção. E um casal, sem dar por isso, começa a viver num regime de pequenos pedidos:
“Só queria saber se chegaste bem.”
“Fiquei inquieto/a por não responderes.”
“Se não tens nada a esconder, porque é que te incomoda?”
É aqui que o amor começa a ganhar um subtexto: prova-me que sou importante através do teu acesso. E, sem darmos conta, trocamos algo essencial, como confiança, por essa, muito mais imediata ainda que equívoca, a certeza.
O controlo que se normaliza e o ciúme: um elogio cultural que disfarça a posse
Há uma ironia portuguesa (e não só) que nos foi enraizada durante anos; ensinam-nos que o ciúme é sinal de importância: “Se não tem ciúmes, não gosta.”
Mas se o ciúme é a prova, então o controlo torna-se apenas um método. Um método para não sentir aquela vertigem antiga: e se eu não for indispensável?
Só que o amor não é um contrato para nunca mais sermos inseguros. É um encontro onde aprendemos a ser inseguros… sem nos tornarmos perigosos.
Em Portugal, há sinais consistentes de que determinados comportamentos de controlo continuam a ser normalizados, sobretudo entre pessoas mais novas. O Estudo Nacional sobre Violência no Namoro (UMAR/CIG) tem vindo a sinalizar níveis elevados de legitimação de comportamentos violentos e abusivos e a edição de 2025 voltou a salientar este aumento como um dado particularmente preocupante.
Quando olhamos para os pedidos de ajuda, a realidade também fala: em 2024, a APAV prestou apoio a 1.023 vítimas de violência no namoro, com 322 a procurarem ajuda enquanto ainda estavam na relação.
Isto não significa que “as pessoas são piores”. Significa algo mais útil (e mais inquietante): a régua do que toleramos deslocou-se. E deslocou-se, em particular, em torno daquilo que chamamos “ciúme” e “prova de amor”.
Porque o ciúme, quando romantizado, torna-se um argumento poderoso: se tens ciúmes, é porque sentes; se sentes, é porque amas; se amas, tens direito a saber. Esta lógica é sedutora… mas perigosa. A relação com o outro, necessita de provas cumulativas de confiança para estabelecer segurança. No entanto, quando o pensamento anterior se torna numa referência, corremos o risco de despromover o ser humano que se ama a objeto de tranquilização.
Do desejo de intimidade ao medo da autonomia
É natural querermos proximidade e segurança. A proximidade pede presença, curiosidade, vulnerabilidade. Mas a segurança, quando está ferida, pede garantias. E as garantias, muitas vezes, transformam-se em controlo.
É aqui que o telemóvel se torna o “terceiro elemento” da relação, não como ferramenta, mas como sistema de regulação emocional. A pessoa sente ansiedade, pede acesso, alivia a ansiedade, e o cérebro aprende que a solução é vigiar. Um ciclo simples e devastador: quanto mais acesso temos, menos toleramos a ausência de acesso. E nisto, numa promessa de amor, vai-se traçando um pacto silencioso: dou-te transparência em troca de não me abandonares.
“Mas eu também partilho tudo, não é por mal…”
Muita gente que controla não se sente violenta. Sente-se assustada. É por medo, um medo moderno, muito educado e muito tecnológico: o medo de não ser escolhido/a, o medo de não ser suficiente, o medo de ficar sozinho/a com a nossa própria imaginação. E isto é importante: o problema não é só moral, é emocional.
Em relações saudáveis, a intimidade não é uma auditoria. É um encontro. O que está em jogo não é “ter ou não ter passwords”. É o significado dessa troca.
Há casais que partilham passwords como quem partilha a chave de casa, por conveniência, sem pressão. E há casais em que a password é exigida como teste de lealdade, com consequências implícitas se o teste falhar.
A diferença não está no gesto. Está no direito ao não. Se não podes dizer “prefiro não partilhar” sem pagar um preço, já não é intimidade. É coerção.
Olhando para dentro: Isto aproxima-nos, ou encolhe-nos?
Depois deste comportamento, eu sinto-me mais eu… ou menos eu?
Sinto-me mais livre para respirar… ou mais cuidadoso/a para não provocar?
Um convite prático: “Acordos de autonomia”
Se este texto te tocou de alguma forma, aqui vai um exercício simples para fazer a dois:
- Cada um escreve 3 coisas que precisa para se sentir seguro/a na relação.
- Cada um escreve 3 coisas que precisa para se sentir livre.
- Comparem listas e criem 2 acordos pequenos por 15 dias – segurança sem invadir autonomia.
Ex.: “Aviso se vou chegar mais de 30 min atrasado/a”; “Não peço passwords”; “Falamos de ciúme sem acusações”.
O objetivo não é “nunca ter ciúme” – até porque muitas vezes, esse lado incontornável no ser humano, pode ser uma boa especiaria para o desejo. É não usar o ciúme como licença para controlar, porque o amor não é saber tudo. É poder perguntar e aguentar a resposta. É conseguir sentir medo sem transformar o outro num suspeito.
E talvez seja isto um bom voto para o Dia dos Namorados: um amor que não precisa de te reduzir para se sentir seguro.
Referências bibliográficas
- APAV. (2024). Estatísticas APAV: Violência no Namoro 2024. Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
- Brown, C., & Hegarty, K. (2018). Digital dating abuse measures: A critical review. Aggression and Violent Behavior.
- Caridade, S., Braga, T., & Borrajo, E. (2019). Cyber dating abuse (CDA): Evidence from a systematic review. Aggression and Violent Behavior.
- Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) & UMAR. (2024). Estudo Nacional sobre Violência no Namoro (ART’THEMIS+) – Infografia/Relatório 2024.
- Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) & UMAR. (2025). Estudo Nacional sobre Violência no Namoro 2025 – Infografia.
- Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG). (2025, 14 fevereiro). Estudo Nacional de Violência no Namoro revela um aumento da legitimação de comportamentos violentos.
- De Botton, A. (1993). Essays in Love. Macmillan.
- De Botton, A. (2016). The Course of Love: A Novel. Simon & Schuster.
- Perel, E. (2006). Mating in Captivity: Reconciling the Erotic and the Domestic. HarperCollins.
- Stark, E. (2007). Coercive Control: How Men Entrap Women in Personal Life. Oxford University Press.
- Stern, R. (2007). The Gaslight Effect: How to Spot and Survive the Hidden Manipulation Others Use to Control Your Life. Morgan Road Books.
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