“O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença… A neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima”
Elie Wiesel, Prémio Nobel da Paz
Há frases que não envelhecem porque nomeiam um perigo recorrente. Elie Wiesel, escritor sobrevivente dos campos de concentração nazi e Prémio Nobel da Paz em 1986, denunciou o poder corrosivo da indiferença. Hoje, essa denúncia volta a ser necessária — não apenas como memória, mas como exigência cívica. O que escolhemos ignorar torna-se o terreno fértil onde prosperam injustiças, abusos, mentiras e calculismos convenientes.
Nos últimos dias, a VISÃO lançou um alerta: “Contra a indiferença, o deixa‑andar e o calculismo de conveniência”, sublinhando um paradoxo deste tempo — quanto mais nos indignamos nas redes, menos agimos na realidade. O editorial de Rui Tavares Guedes denuncia um “adormecimento coletivo” potenciado por algoritmos que preferem polémicas a pensamento e ações com consequências, e reclama informação livre, rigorosa e independente para abrir os olhos e reconstruir a exigência democrática. No mesmo espírito, a série #NãoFechemOsOlhos reforça a urgência de distinguir realidade de ruído, convocando os leitores e cidadãos a não se refugiarem no conforto do “deixa andar”.
Se é verdade que a velocidade das timelines nos dá uma sensação de participação, também é verdade que essa sensação pode ser anestesia. A distância entre clicar “gosto” e transformar o mundo continua enorme. O editorial lembra que não se muda a realidade com comentários violentíssimos sem qualquer relevância prática, nem com reações rápidas que nos façam sentir a missão cumprida sem termos feito nada que tenha impacto fora do ecrã. É um diagnóstico incómodo, sim; mas é também um apelo: recuperar a capacidade de hierarquizar o que importa, de pensar antes de reagir, de agir depois de pensar.
Nesta crónica, escolhemos abrir com Wiesel porque a sua advertência vai ao cerne da questão: a indiferença não é neutra; é uma decisão que favorece quem agride e abandona quem sofre. E, para compreender a mecânica desta passividade, vale recordar Hannah Arendt:
“A triste verdade é que a maior parte do mal é feita por pessoas que nunca decidem ser boas ou más.”
Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém: Um Relatório sobre a Banalidade do Mal.
A “banalidade do mal” que Arendt descreve não tem o rosto do monstro, mas o semblante ordinário da rotina sem pensamento. É a soma de pequenas abdicações: hoje não me meto; amanhã também não; afinal, não é comigo. Assim se normalizam o insulto, o ódio, a exclusão, a mentira, o racismo, a perversão — e assim se vai criando a erosão dos valores que sustentam uma comunidade livre e sã.
O editorial coloca nomes no que muitos preferem deixar vago: Ucrânia, Gaza, convulsões em África, agressões na América Latina e, já no horizonte, a Gronelândia — temas que parecem longe, mas que nos interpelam sobre a coerência dos nossos valores, a qualidade da nossa informação, o peso das nossas escolhas. Quando escolhemos “não ver”, não ficamos fora da história; somos parte dela, pelo lado da omissão..
O que significa, então, #NãoFechemOsOlhos?
Significa reaprender a ver, com método e responsabilidade: Informar‑se bem — procurar fontes credíveis e plurais, distinguir factos de opinião, resistir ao imediatismo que premeia cliques vazios e despreza os contexto; pensar antes de reagir — perguntar quem ganha com a minha partilha, quem perde com o meu silêncio, o que muda com a minha tomada de posição; agir onde posso — da escola ao bairro, da empresa à associação, em casa em família transformar indignação em gestos concretos: proteger os vulneráveis, exigir transparência, apoiar o jornalismo independente, participar na vida pública.
Não se pede heroísmo cinematográfico; pede‑se constância ética. Pede‑se que cada um de nós ocupe o espaço de responsabilidade que lhe cabe. A avalanche que sentimos — de desinformação, de cinismo, de relativização, de fake-news — pára quando decidimos que os princípios humanos não são negociáveis e que o conforto da indiferença não nos serve.
Fechemos com a lição cruzada: Wiesel ensina que não há neutralidade possível diante do sofrimento; Arendt mostra que o mal se alimenta da nossa recusa em pensar e decidir. E o editorial lembra que abrir os olhos é hoje um ato político elementar e urgente.
Porque, de facto, não há um “lado certo” sem escolha consciente; não há cidadania sem responsabilidade diária; não há democracia viva sem atenção e ação.
Num tempo em que a informação credível é condição de cidadania, apoiar, comprar e ler a VISÃO é um gesto vital: sustenta jornalismo livre, rigoroso e independente, capaz de hierarquizar o que importa, desmontar o ruído e abrir os olhos — exatamente como foi defendido no editorial “Contra a indiferença, o deixa‑andar e o calculismo de conveniência” e no dossiê #NãoFechemOsOlhos. Comprar a revista é investir na sobrevivência da excelência dos seus conteúdos — e, por extensão, na saúde da nossa democracia.
#NãoFechemOsOlhos