Entre 1951 e 1952, o general americano Dwight Eisenhower foi o primeiro comandante supremo aliado das tropas da NATO estacionadas na Europa. O homem que tinha liderado as forças anglo-americanas, no assalto final à Alemanha de Hitler, pelo lado ocidental, durante a II Guerra Mundial, vinha com a missão de encaminhar os europeus nos primeiros passos para a futura autonomia defensiva da Europa Ocidental. “Dentro de dez anos”, profetizou, erradamente, o herói da II Guerra, “os aliados europeus estarão aptos a defenderem-se sozinhos e os militares americanos poderão abandonar as suas bases aqui e regressar a casa”.
É verdade que a previsão de Eisenhower ignorava um “pequeno” pormenor que desequilibraria permanentemente a balança para o lado soviético: o da capacidade nuclear. Capacidade essa que os americanos sempre resistiram a partilhar (obrigando, por exemplo, a França do desconfiado general De Gaulle a investir no seu próprio programa, fora da alçada da NATO). Mas também é verdade que os europeus, concentrados na construção de um Estado social que, na expressão dos ideólogos trabalhistas ingleses do princípio do século, cuidasse do homem “desde o berço ao túmulo”, e confiantes na asa protetora da América, foram sempre descurando – e delegando – a sua defesa, perdidos, também, nas velhas rivalidades interestaduais. A história da NATO é um relato permanente de tensão entre este e o outro lado do Atlântico. Um dos mais celebrados secretários-gerais da organização, o alemão Manfred Wörner, que exerceu o cargo entre 1988 e 1994, conseguiu o compromisso, jamais cumprido, dos Estados-membros de reservarem 5% do PIB para o investimento em Defesa – curiosamente, o exato número mágico que volta a estar, por estes dias, em cima da mesa de mais uma importante cimeira da NATO, em Haia, nos Países Baixos. Aliás, desde os tempos de John F. Kennedy, um dos presidentes americanos mais vocais contra a inércia europeia em matéria de Defesa – o que faz de Donald Trump um modesto desmancha-prazeres… – que os europeus se comprometeram, cíclica e sucessivamente, com, pelo menos, 2% do PIB, outro dos números de que se tem falado e que o próprio Governo português prometeu acomodar no exercício orçamental já deste ano – sabe Deus com que espécie de contabilidade criativa… Portanto, as tricas entre os membros europeus das NATO e o seu poderoso aliado americano não são de agora, não foram criadas por Donald Trump, nem desaparecerão de cena, por muitos anos que a NATO se aguente.
E o problema é esse: quanto mais tempo se aguentará? É que, se antes, mesmo com todos os desentendimentos, o “inimigo” de europeus e americanos era, ao menos, comum – a União Soviética e, depois dela, uma entidade difusa chamada “terrorismo” ou, de novo, a Rússia, hoje já não sabemos se o inimigo da Europa é o mesmo dos EUA, tão apegados que parecem, volta e meia, Putin e Trump. Não sabemos, até, se o novo inimigo não serão… os Estados Unidos! Este volte-face geopolítico deixa os líderes europeus como moscas a bater nos vidros de uma janela.
Em 1975, durante o gonçalvismo, Portugal, embora se mantendo como membro da Aliança Atlântica, foi posto numa espécie de quarentena, sem acesso a informação sensível, dado o fundado receio de que os segredos passassem, via Lisboa, para Moscovo. Mas hoje os EUA continuam a ser os detentores não só dos segredos, mas de todo o poder, no seio da estrutura militar da NATO. Durante a Guerra Colonial, a Administração Kennedy proibiu que armamento americano fosse usado por Portugal, nas suas guerras em África. Vem daí a opção portuguesa por outros fornecedores: a G3, arma “histórica” do Exército português, era uma espingarda automática de patente alemã, tal como a metralhadora ligeira HK21; a UZI, pistola-metralhadora israelita, coincidia com a sua congénere portuguesa FBP (da Fábrica de Braço de Prata, onde, sob licença, também se fabricavam as armas alemãs e respetivas munições). A pistola Walther, usada pelos oficiais portugueses, era também alemã. Os caças eram os italianos FIAT e os helicópteros PUMA eram de origem francesa.
Esta semana, virá a propósito referir, os EUA terão utilizado a Base das Lajes (ver pág. 48) como apoio logístico para a operação contra o Irão – uma missão completamente fora das atribuições da NATO. A oposição parlamentar portuguesa pediu explicações ao Governo e os esclarecimentos de Nuno Melo, ministro da Defesa, foram prontamente aceites pelo PS. Quer isto dizer que, na hora da verdade, os aliados dizem presente e que os partidos centrais se mantêm alinhados na real politik da Aliança com os EUA. Pode ser um bom sinal.