Durante muitos anos, acreditou-se que a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) e a Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) eram condições mutuamente exclusivas. Hoje, sabemos que essa ideia estava errada. Uma proporção significativa de adultos autistas apresenta também PHDA e muitos adultos diagnosticados inicialmente com PHDA descobrem, anos mais tarde, que também são autistas.
Esta sobreposição nem sempre é fácil de reconhecer. A PHDA pode tornar os sinais do autismo menos evidentes, enquanto o autismo pode mascarar algumas das manifestações típicas da PHDA. O resultado é, frequentemente, um percurso marcado por diagnósticos incompletos, tratamentos parcialmente eficazes e uma persistente sensação de que continua a faltar uma peça importante para compreender quem se é.
Mas quando deve uma pessoa com diagnóstico de PHDA considerar a possibilidade de realizar uma avaliação especializada para despistar autismo?
Um dos primeiros sinais é sentir que as dificuldades sociais vão muito para além da distração ou da impulsividade. A pessoa pode compreender intelectualmente as regras sociais, mas continuar a sentir que está constantemente a interpretar um guião invisível que os outros parecem conhecer intuitivamente. As interações podem ser cansativas, imprevisíveis e exigir um enorme esforço de monitorização.
Outro indicador crucial é a necessidade intensa de previsibilidade. Embora a PHDA esteja, regularmente, associada à procura de novidade, muitas pessoas com ambas as condições vivem num conflito permanente entre querer estímulo e necessitar desesperadamente de rotina. Mudanças inesperadas podem provocar uma ansiedade desproporcionada, mesmo quando a pessoa gosta de experimentar coisas novas.
As particularidades sensoriais constituem outro sinal frequentemente negligenciado. Sons aparentemente banais, determinadas texturas, cheiros intensos, etiquetas na roupa, luzes fluorescentes ou ambientes muito movimentados podem provocar um desconforto significativo, que dificilmente se explica apenas pela PHDA.
Também importa observar a presença de interesses muito intensos e persistentes. Não se trata apenas de gostar muito de um tema, mas de desenvolver áreas de interesse que ocupam uma parte substancial do pensamento, da conversa e do tempo disponível, proporcionando, simultaneamente, prazer, segurança e regulação emocional.
Muitas pessoas descrevem igualmente um cansaço extremo após contextos sociais, resultado do esforço constante para se adaptar a comunicação, controlar expressões faciais, interpretar sinais não verbais ou esconder características que receiam que sejam mal compreendidas. Este fenómeno é designado por masking e é muito comum em adultos autistas, podendo passar despercebido durante décadas.
Outro sinal relevante prende-se com a história de vida. Sentir-se “diferente” desde criança, ter dificuldades persistentes em compreender grupos sociais, preferir relações individuais, desenvolver estratégias para imitar os outros ou nunca sentir verdadeiramente que pertence ao grupo podem constituir indicadores importantes.
Naturalmente, nenhum destes sinais confirma, por si só, um diagnóstico de autismo. Muitas destas características também podem surgir noutras condições psicológicas ou psiquiátricas. Contudo, quando vários destes aspetos coexistem e explicam melhor o funcionamento global da pessoa do que a PHDA isoladamente, torna-se pertinente procurar uma avaliação especializada.
Receber um diagnóstico de autismo em simultâneo com o de PHDA não significa acumular rótulos. Significa compreender melhor porque determinadas estratégias nunca resultaram, reconhecer necessidades que permaneceram invisíveis e construir formas de intervenção mais ajustadas à realidade de cada pessoa.
Este tema é explorado no livro Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas (PACTOR Editora), onde se aborda os desafios do diagnóstico diferencial, da avaliação clínica e da intervenção em adultos com PEA e PHDA.