Se perguntarmos a um jovem dos 21 aos 35 anos qual é o seu verdadeiro “estado da nação”, a resposta não virá em percentagens ou saldos positivos. Virá sob a forma de um quarto exíguo arrendado aos 30 anos, de um contrato a prazo renovado no limite da legalidade e de um abraço de despedida no aeroporto a mais um amigo brilhante que parte para o estrangeiro. A verdade profunda e incómoda é que, para a juventude, o estado da nação é um estado de suspensão perpétua. A geração mais qualificada, conectada e globalizada da nossa história transformou-se, à força das circunstâncias, na geração mais adiada de sempre.
Fomos criados à sombra de uma promessa clara, um autêntico contrato social que nos foi vendido como inquebrável: estuda, tira um bom curso, domina duas ou três línguas, acumula atividades extracurriculares, sê proativo, e terás garantidamente uma vida melhor, mais próspera e mais estável do que a dos teus pais. Os jovens cumpriram escrupulosamente a sua parte deste acordo. As universidades encheram-se, os currículos enriqueceram-se com mestrados e doutoramentos, mas quando esta geração chegou finalmente às portas do mercado de trabalho, descobriu, com estrondo, que o elevador social estava irremediavelmente avariado no rés-do-chão. O prémio por anos de estudo e sacrifício familiar traduz-se, demasiadas vezes, na crueldade de estágios não remunerados ou mal pagos, numa dependência asfixiante de recibos verdes e em salários de entrada que teimam em não descolar do mínimo nacional. A tão aclamada meritocracia revelou-se uma miragem cruel num mercado onde o esforço individual é frequentemente esmagado pela precariedade estrutural, muitas vezes mascarada sob os eufemismos do empreendedorismo e da “flexibilidade” laboral.
A esta violenta realidade junta-se a maior e mais visível fratura entre o país político e o país real: o muro intransponível da habitação. Para um jovem comum, falar em “emancipação”, em “sair de casa dos pais” ou em “constituir família” tornou-se um mero exercício de ficção científica. Como é possível planear o futuro a médio prazo quando o arrendamento de um simples T1, mesmo na periferia distante de uma grande cidade, exige um valor superior ao ordenado líquido mensal de um recém-licenciado? O resultado direto desta distorção é uma adolescência perpetuada contra a vontade dos próprios. Jovens adultos, no pico da sua capacidade produtiva e criativa, são forçados a viver nos quartos de infância até perto dos 30 anos, não por comodismo ou falta de vontade de crescer, como algumas vozes mais cínicas gostam de insinuar, mas por uma absoluta e inegável impossibilidade matemática. A casa própria deixou de ser um rito de passagem natural para a vida adulta e transformou-se num luxo quase inacessível, um privilégio reservado aos poucos que beneficiam de forte apoio financeiro familiar. É aqui que o fosso das desigualdades se cava mais fundo, perpetuando vantagens herdadas em detrimento do mérito conquistado.
Perante este cenário sufocante e bloqueado, não surpreende que a sala de embarque do aeroporto se tenha transformado na principal agência de emprego do País e no maior símbolo da nossa falência coletiva. A emigração jovem de hoje já não tem o romantismo da aventura de descobrir o mundo, nem carrega apenas o espírito de intercâmbio cultural de um programa Erasmus é, na sua essência, uma verdadeira expulsão económica. Ano após ano, exportamos de mão beijada engenheiros, médicos, enfermeiros, arquitetos, designers e investigadores de topo que o Estado e as famílias gastaram centenas de milhares de euros a formar. Quando os discursos políticos embandeiram em arco e apelam ao “regresso do talento”, falham redondamente em compreender o essencial da natureza humana: estes jovens não querem regressar apenas para matar saudades do sol, das praias ou da gastronomia. Querem, antes de mais, condições para construir uma vida com dignidade e previsibilidade, recusando-se a voltar a um país que, de forma sistémica, os trata como mão-de-obra barata, submissa e descartável.
O preço oculto desta instabilidade é pago numa moeda que raramente entra nas contas do Orçamento do Estado: a saúde mental. Vivemos no meio de uma epidemia silenciosa de ansiedade, depressão e burnout entre os mais novos. A incapacidade crónica de planear o amanhã, a constante ginástica financeira para chegar ao fim do mês e o medo latente de que o próximo contrato não seja renovado criam uma carga psicológica insustentável. Exige-se tudo a uma geração a quem se oferece muito pouco em troca de garantias.
Consequentemente, assistimos a um fosso cada vez mais profundo e perigoso entre a juventude e as instituições representativas. A política tradicional tem passado as últimas décadas a falar sobre os jovens, mas raramente desce do pedestal para falar com os jovens. Os programas eleitorais dedicam-lhes sempre parágrafos poéticos e cheios de boas intenções nos seus capítulos finais, mas as políticas públicas reais protegem e beneficiam invariavelmente os eleitorados mais velhos e estabilizados. Cedemos à ditadura da demografia, onde a regra de ouro é simples: quem vota em maior número, dita as regras e absorve os recursos. O perigo civilizacional deste divórcio é imenso. Uma juventude que sente na pele que o sistema económico e social não trabalha para si é uma juventude que desiste de participar na vida cívica ou que, movida pelo desespero e pelo ressentimento, se atira de braços abertos para os populismos que vendem ilusões de força e soluções fáceis para frustrações profundamente complexas.
No fim de contas, o verdadeiro estado da nação não se mede pelas tabelas do Excel ou pelas palmas nas bancadas parlamentares. Mede-se, sobretudo, pela esperança e pela ambição que o País consegue incutir naqueles que o herdarão. E o diagnóstico atual, se formos brutalmente honestos, é o de uma nação exausta, envelhecida e de braços caídos perante os seus filhos. Fazer reformas estruturais e corajosas para a juventude não é “dar benesses” aos mais novos, é um instinto básico de sobrevivência demográfica e económica. Um país que empurra sistematicamente os seus jovens para fora das suas fronteiras, ou que os obriga a viver no limiar da precariedade e da ansiedade se decidirem ficar, não está apenas a perder o seu melhor talento. Está, de forma lenta, silenciosa e irreversível, a cancelar o seu próprio direito ao futuro.
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