Esta semana, o cinema entrou em modo mitológico. Christopher Nolan chega com barcos, deuses, monstros, estrelas de Hollywood e uma campanha capaz de transformar Homero num assessor de imprensa da Universal. No meio deste desembarque colossal estreia também O Canto das Árvores Esquecidas (Songs of Forgotten Trees), um filme indiano de 77 minutos, passado quase todo em divisões apertadas e protagonizado por duas mulheres que não conquistam Tróia nem enfrentam ciclopes. Tentam apenas sobreviver em Mumbai sem desaparecer dentro da vida que lhes foi atribuída.
O Canto das Árvores Esquecidas é uma pequena pérola com todas as condições para passar despercebida sob a avalanche de A Odisseia e a sua estratégia de Cavalo de Tróia: entrar nas salas, nas conversas, nas redes sociais e, se possível, na própria História do cinema. Não por falta de valor, mas porque o cinema também se tornou uma guerra de escalas. De um lado, o acontecimento; do outro, os filmes que precisam de ser procurados e encontrados. Nolan chega de armadura. Anuparna Roy entra com uma câmera discreta e duas excelentes atrizes: Naaz Shaikh e Sumi Baghel. É um filme que fala baixo, não um filme tímido.
Mulheres a representar para sobreviver
Thooya, interpretada por Naaz Shaikh, é migrante, aspirante a atriz e profissional do sexo em segredo. Vive num apartamento pago pelo seu sugar daddy, um homem convencido de que a renda inclui também o direito de acesso ao corpo da inquilina. Quando subarrenda parte da casa a Swetha, interpretada por Sumi Baghel, também migrante e funcionária de um call center, duas solidões começam a dividir a mesma geografia. Primeiro, o frigorífico, a cama, a casa de banho e os horários. Depois, os silêncios, as memórias e aquele cuidado mínimo que, para quem vive sem rede, pode transformar-se numa forma clandestina de amor.
Roy filma-as através de portas entreabertas, redes mosquiteiras, reflexos partidos e corredores estreitos. Mumbai surge como uma máquina de comprimir pessoas. Os apartamentos parecem caixas de sapatos empilhadas até ao céu; as mulheres tentam encontrar alguns centímetros de liberdade. Os homens entram como uma interrupção: o proprietário, o cliente, o chefe, o marido ausente, o pai que continua a mandar mesmo quando já não está. Não são monstros mitológicos. São talvez piores: homens banais, demasiado humanos, que raramente precisam de levantar a voz para ocupar todo o espaço.
As duas mulheres trabalham a representar. Thooya ensaia falas para audições e personagens para clientes. Swetha repete frases de atendimento com a cordialidade mecânica de quem foi treinada para sorrir sem ser vista. Uma vende intimidade; a outra, disponibilidade. Ambas aprenderam que, para sobreviver na grande cidade, convém interpretar a versão de si próprias que os outros estão dispostos a pagar.
O parentesco com outro extraordinário filme indiano já estreado em Portugal, Tudo o que Imaginamos como Luz, de Payal Kapadia (Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes 2024), é evidente. Também aqui Mumbai é noturna, húmida, elétrica e indiferente; também aqui a amizade feminina cria um abrigo provisório contra a violência económica, afetiva e patriarcal. Mas Anuparna Roy não procura repetir Kapadia. O seu filme é mais pequeno, irregular, frágil e secreto. Em vez de uma grande sinfonia urbana, compõe uma canção interrompida, feita de gestos, ausências e recordações, com a melancolia de tudo aquilo que se perdeu e continua, apesar de tudo, a fazer ruído. Como as árvores esquecidas do título.
A coragem de não explicar tudo
O melhor momento nasce de uma representação dentro da própria representação. Swetha finge ser uma antiga amiga de escola que Thooya procura há anos e oferece-lhe a conversa que a vida lhe recusou. Roy mantém as duas mulheres separadas por uma parede. Estão perto e longe, juntas e sozinhas. A mentira torna-se uma forma de verdade; a interpretação, um ato de cuidado. É nesse instante que o filme encontra a sua voz mais funda e revela aquilo que verdadeiramente o interessa: a possibilidade de alguém nos devolver, ainda que por breves minutos, uma parte de nós que julgávamos perdida.
Nem tudo está inteiramente amadurecido. Com apenas 77 minutos, relações, desejos e feridas permanecem num estado quase embrionário. A ligação entre Thooya e Swetha oscila entre amizade, desejo, identificação, dependência e necessidade sem que Roy queira fixá-la. Por vezes, essa abertura é bela; noutras, parece matéria por desenvolver. Há cenas que terminam precisamente quando começavam a ganhar espessura. Ainda assim, esta primeira obra prefere arriscar o silêncio a explicar a vida com um marcador fluorescente.
Anuparna Roy conquistou com esta estreia o Prémio de Melhor Realização da secção Orizzonti do Festival de Veneza de 2025, tornando-se a primeira realizadora indiana a receber a distinção. O prémio não transforma automaticamente o filme numa obra-prima — os festivais também se enganam, por vezes com enorme solenidade —, mas reconhece uma voz que olha para mulheres geralmente filmadas como vítimas, símbolos ou problemas sociais e lhes devolve a complexidade: são contraditórias, sensuais, duras, carentes, inteligentes e, sobretudo, vivas.
No fim, não existem libertações triunfais. A liberdade pode ser experimentar um sári vermelho ou uma roupa nova, molhar os pés no mar, encontrar alguém que escute ou passar uma noite sem representar o papel que nos deram. Pode parecer pouco. Para Thooya e Swetha, é quase uma rutura com o quotidiano, uma pequena insurreição contra a vida já escrita por outros.
A Odisseia terá mares, monstros e o regresso de um herói a casa. Este pequeno filme indiano coloca uma pergunta talvez mais interessante: como se constrói uma casa quando o mundo inteiro nos trata como hóspedes? Entre o estrondo dos deuses e o rumor de duas mulheres num apartamento de Mumbai, eu guardaria algum silêncio para escutar o canto das árvores esquecidas.