Os resultados eleitorais do Chega nas últimas eleições mudaram de forma radical o enquadramento político-partidário que tínhamos desde a normalização da nossa democracia. Se as de 2024 trouxeram o partido a um lugar nunca ocupado pelo terceiro mais votado, as de 2025 conferiram ao Chega um papel central no sistema. Não apenas por ser o segundo com mais representação parlamentar, mas sobretudo porque instituições relevantes não poderão deixar de ter pessoas indicadas ou, pelo menos, apoiadas por esse partido.
A mudança não foi só de forma, ou seja, a ascensão de um outro partido aos principais círculos do poder político. Representa a subida de uma organização que não partilha os valores democráticos e de organização social dos que governaram no melhor e mais bem-sucedido período da nossa História.
Por muitas explicações que se possam dar sobre o sucesso desse partido, seja a conhecida coligação do ressentimento, seja o protesto contra o “estado de coisas”, o facto é que há 1 600 000 portugueses que votaram numa organização que não gosta da democracia liberal, que não quer o Estado de direito (André Ventura reclama diariamente o poder de mandar pessoas para a prisão) e que rejeita valores constitucionais essenciais para a definição de uma Constituição como democrática.
Dia 12 de outubro vamos assistir a outra mudança estrutural no nosso sistema: o Chega vai vencer câmaras municipais e juntas de freguesia, eleger vereadores, deputados municipais, ou seja, vai enraizar-se no sistema.
Um presidente de câmara ou mesmo um vereador com pelouro tem mais poder do que qualquer deputado ou grupo parlamentar que doutros dependam para definir políticas. Com câmaras e vereações vem o poder real, a capacidade de distribuir empregos, cargos, de gerar cumplicidades. E como ficámos a saber pelo livro de Manuel Carvalho Por Dentro do Chega, a máquina do Chega reproduz para muitíssimo pior o pior das máquinas do PSD e do PS.
Seja como for, a presença de 60 deputados do Chega no Parlamento é bem menos relevante para o nosso sistema democrático do que a autêntica revolução que representará a entrada maciça de homens e mulheres do Chega no poder autárquico. É o passo decisivo para a sua consolidação e para termos um partido que quer derrubar a democracia como força relevante durante muito tempo.
O terceiro terramoto no nosso sistema poderá acontecer nas presidenciais de janeiro de 2026.
O último Presidente da República eleito democraticamente e sem ligação aos dois principais partidos da nossa democracia foi Ramalho Eanes, no já longínquo ano de 1980. Depois disso, todos os presidentes da República foram homens que tinham sido líderes de um dos dois principais partidos portugueses. Homens que, gostando-se mais ou menos de cada um deles, cumpriram os seus mandatos com um sentido de Estado irrepreensível e dignificaram o País e a democracia. E apesar de todos terem sido homens dos seus partidos, alargaram os seus eleitorados naturais e, no cargo, foram presidentes de todos os portugueses e não das suas fações.
Curiosamente, ou talvez não, Ramalho Eanes lançou um partido desde o seu cargo em Belém. Bem sei que o País assobia para o lado de cada vez que alguém lembra isso, mas talvez haja um avivamento da memória coletiva se um militar “acima dos partidos”, “independente” e entre a social-democracia e o socialismo (?) se instalar em Belém.
A perspetiva de nem sequer haver um candidato originário do PSD ou do PS numa eventual segunda volta é real e constituiria uma mudança radical, mas já seria muito significativo não ter um Presidente da República proveniente de um desses dois partidos.
O crescimento das forças populistas e antidemocráticas, repito, tem um significado claro: o reduzido amor pela democracia e pelo Estado de direito de cada vez mais gente. Esse, digamos, descontentamento tem sido acompanhado por uma incapacidade dos partidos centrais de combaterem capazmente essa ameaça, e talvez por isso terem caído numa desorientação que lhes põe verdadeiros problemas existenciais.
Deixando de lado agora os verdadeiros pântanos em que se converteram as suas máquinas, tomadas por pessoas que transformaram os partidos em agências de emprego e para quem os princípios ideológicos são os que vossa excelência quiser, o PSD e o PS não sabem o que fazer com a ameaça à democracia que é o Chega (não são só os partidos portugueses, diga-se).
O PSD vive na tensão entre quem quer transformá-lo num Chega 2.0, quem acha que comprar as políticas de extrema-direita lhe permite esvaziá-la (a linha suicida de Montenegro), e os dois ou três últimos moicanos que ingenuamente pensam que ainda podem trazer o partido para o campo da social-democracia.
O PS anda perdido em jogos de poder. De gente que procura “o momento certo” para liderar o partido (não percebendo que estão à espera de Godot…), de fações mais à esquerda e mais à direita, com demasiadas pessoas que sabem o caminho que o partido deve percorrer apesar de nunca terem votado nele.
Se PSD e PS continuarem nesta desorientação estratégica, com máquinas partidárias a deteriorarem-se e incapazes de parar a extrema-direita, será inevitável o aparecimento de novos partidos nessas áreas. A política tem mesmo horror ao vazio – não é frase feita.
O problema é que a eventual reconstrução do sistema político-partidário leva tempo e tem avanços e recuos. Em breve, podemos estar numa situação em que temos os partidos que tivemos até agora a ruir e a ficarem irrelevantes, partidos democráticos em construção e apenas um forte, consolidado e em crescimento: o Chega. É para isso que apontam os três terramotos que acima descrevo.
Não há nada de bom em cairmos numa situação destas – bastante parecida com a francesa – que a cada dia que passa parece mais inevitável. O mundo não é como o queremos, é como é. Se nada se fizer, e nada está a ser feito, temos todos de nos preparar para esse cenário.
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