A Europa passou grande parte das últimas décadas convencida de que tinha finalmente domesticado a História. Depois das guerras mundiais, da divisão do continente durante a Guerra Fria e do colapso da União Soviética, consolidou-se entre as democracias europeias a ideia de que o futuro seria determinado menos pela disputa entre potências e mais pela integração económica, pela estabilidade institucional e pela interdependência comercial.
A União Europeia transformou-se no principal símbolo político dessa convicção: um espaço construído sobre a crença de que prosperidade, diplomacia e mercados abertos seriam suficientes para afastar os fantasmas que marcaram o século XX.
Durante algum tempo, essa leitura pareceu confirmada pela realidade. O comércio global expandiu-se, as fronteiras europeias abriram-se, o crescimento económico consolidou-se e os Estados Unidos mantiveram-se como principal garante da segurança militar do Ocidente, criando no continente a perceção de que a estabilidade geopolítica deixara de ser uma exceção histórica para se aproximar de uma condição permanente.
Foi precisamente essa confiança prolongada que tornou a Europa particularmente vulnerável às transformações que hoje alteram o equilíbrio internacional. O ultimato lançado por Donald Trump à União Europeia, ameaçando impor novas tarifas caso Bruxelas não acelere compromissos comerciais considerados prioritários para Washington, tornou-se relevante não apenas pelo impacto económico potencial, mas sobretudo porque expôs uma mudança estrutural na relação transatlântica.
Pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, uma parte significativa das elites europeias começou a admitir aquilo que durante anos preferiu ignorar: os interesses estratégicos dos Estados Unidos já não coincidem automaticamente com os interesses europeus, e Washington passou a olhar para os seus aliados através de uma lógica cada vez mais pragmática, transacional e centrada no interesse nacional americano.
A questão ultrapassa largamente a figura de Donald Trump. O que está em causa é a erosão gradual da ordem internacional construída no pós-guerra e a incapacidade europeia para reconhecer, em tempo útil, que o mundo regressava a uma lógica de competição entre potências.
Durante mais de setenta anos, a Europa organizou a sua arquitetura política, económica e militar com base em três pressupostos centrais: a segurança estratégica do continente permaneceria fortemente dependente da presença militar americana no quadro da NATO, o comércio internacional continuaria relativamente aberto e o Ocidente manter-se-ia suficientemente coeso para responder de forma coordenada às principais ameaças externas.
Neste momento, as três premissas estão simultaneamente sob pressão. A guerra na Ucrânia demonstrou que os conflitos de grande escala continuam plenamente possíveis dentro do espaço europeu. A crise energética revelou níveis de dependência externa que Bruxelas demorou demasiado tempo a reconhecer.
O avanço industrial e tecnológico da China expôs fragilidades profundas na competitividade europeia. E o endurecimento progressivo da política americana tornou evidente que os equilíbrios estratégicos do Ocidente deixaram de poder ser tratados como garantias permanentes.
A principal dificuldade europeia resulta do facto de o continente ter passado décadas a acreditar que prosperidade económica bastaria para reduzir rivalidades geopolíticas e transformar interdependência comercial em estabilidade política duradoura. Essa visão levou a União Europeia a externalizar pilares fundamentais da sua própria segurança.
A defesa militar foi amplamente delegada nos Estados Unidos, a dependência energética da Rússia foi tolerada durante demasiado tempo, parte substancial da capacidade industrial europeia foi transferida para a Ásia e áreas críticas da economia digital passaram a depender fortemente de tecnologia estrangeira.
Enquanto isso, outras potências continuaram a estruturar as suas estratégias em torno de soberania energética, autonomia industrial, capacidade militar e domínio tecnológico, preparando-se para um cenário internacional muito mais competitivo do que aquele que predominava no imaginário político europeu.
A realidade encarregou-se de desmontar rapidamente essa perceção. A Rússia reorganizou a sua economia em função da guerra, a China acelerou a corrida global pela supremacia industrial e digital e os Estados Unidos regressaram ao protecionismo económico e à competição comercial crescente. Nesse contexto, Bruxelas começou finalmente a discutir defesa europeia, soberania industrial, reindustrialização estratégica e redução de dependências externas com um sentido de urgência que seria impensável há poucos anos.
O Parlamento Europeu debate atualmente reforço militar, produção de armamento e autonomia estratégica num ambiente político marcado pela perceção crescente de que a estabilidade internacional não constitui um direito adquirido, mas um equilíbrio dependente de capacidade económica, inovação, poder industrial e preparação política.
Portugal surge particularmente vulnerável neste novo cenário porque poucos países europeus interiorizaram tanto a ideia de estabilidade permanente proporcionada pela integração comunitária. A democracia portuguesa consolidou-se sob proteção europeia, o crescimento económico dependeu fortemente dos fundos comunitários e a segurança externa foi praticamente absorvida pela arquitetura atlântica liderada pelos Estados Unidos.
Ao longo de décadas, criou-se no país a perceção implícita de que as grandes fracturas internacionais seriam sempre absorvidas pelas principais potências antes de afetarem diretamente um Estado periférico como Portugal. O problema é que essa leitura do mundo se tornou perigosamente desatualizada num momento em que a Europa já começou a adaptar-se a uma lógica de competição geopolítica intensa.
Enquanto Berlim discute reindustrialização acelerada, Paris insiste na necessidade de autonomia estratégica europeia e Bruxelas prepara planos de reforço militar e tecnológico, o debate político português continua frequentemente concentrado em ciclos eleitorais imediatos, disputas internas de curto prazo e gestão administrativa.
O contraste revela uma diferença crescente de perceção entre Portugal e o núcleo das principais capitais europeias, precisamente numa altura em que as consequências económicas e políticas das transformações internacionais começam a tornar-se mais visíveis. Uma escalada prolongada de tensões comerciais entre Washington e Bruxelas teria impacto direto sobre exportações, investimento industrial, inflação e crescimento europeu.
Ao mesmo tempo, a Alemanha enfrenta dificuldades industriais agravadas pelos custos energéticos e pela concorrência asiática, o Canadá aproxima-se politicamente da União Europeia devido à crescente imprevisibilidade estratégica americana e a classe média europeia começa a sentir os efeitos de um ambiente internacional mais instável, marcado por perda de poder de compra, insegurança económica, pressão migratória e desgaste social.
Esse contexto ajuda também a explicar o crescimento de movimentos nacionalistas e forças anti-sistema em vários países europeus. A expansão dessas correntes políticas não pode ser analisada apenas como fenómeno eleitoral isolado, porque reflete igualmente a perceção crescente de que o modelo europeu atravessa um período de fragilidade estrutural num momento em que o sistema internacional se tornou significativamente mais agressivo, competitivo e imprevisível do que aquele que moldou o continente após o fim da Guerra Fria.
O problema da Europa deixou, por isso, de ser apenas económico ou militar. Tornou-se também civilizacional, porque o continente percebeu demasiado tarde que o mundo regressou à linguagem do poder numa altura em que grande parte das democracias europeias já pensava quase exclusivamente em termos de administração, regulamentação e gestão económica.
Bruxelas começou finalmente a adaptar-se a essa realidade, mas Portugal continua frequentemente preso à convicção de que a estabilidade europeia constitui uma garantia histórica e não apenas uma exceção temporária num continente que julgou ter deixado definitivamente para trás a lógica crua do poder, da influência estratégica e da competição entre potências.
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