Tal como na vida, muitas vezes, a política acontece a um ritmo alucinante e o que hoje é verdade pode virar mentira amanhã. Mas a realidade dos tempos expressa que o PSD e este Governo da AD foram os grandes facilitadores do poder que o Chega tem hoje na sociedade. A todos os níveis. A clareza democrática foi trocada progressivamente pela cedência, quando não ambiguidade tática, em nome do extremismo populista que está hoje normalizado em Portugal.
Pedro Passos Coelho e o passismo tornaram-se o rosto mais evidente dessa falha. Não necessariamente por o acompanharem, mas porque durante anos ajudaram a legitimar o ambiente onde André Ventura prosperou. Cá, como praticamente em todo o lado, percebeu-se e percebe-se que existe um eleitorado disponível para o discurso do ódio, da raiva, da simplificação brutal, da humilhação dos mais vulneráveis e nunca se procurou travar essa deriva. Pelo contrário: alimentaram-na sempre que isso serviu para condicionar o próprio PSD e para manter influência sobre uma direita cada vez mais contaminada.
Hoje, o resultado é evidente. A Assembleia da República tornou-se demasiadas vezes um palco de ruído e indignação fabricada, onde a mais recente proposta do Chega para uma comissão de inquérito ao vazio processual e mediático da Operação Influencer é só mais um retrato da política transformada em circo digital.
O mesmo partido que vive em histeria e farsa máxima contra os corruptos, os gastos e a “limpeza” é aquele que de longe mais ofende o País. Que mais o atrasa do essencial. A todos os níveis e de há seis anos para cá. A recente irresponsabilidade populista de se aprovar uma reforma laboral com o baixar da idade da mesma, marimbando-se assim para Portugal no médio e no longo prazo, é de um oportunismo político sem coerência, nem princípio, mas só surpreende verdadeiramente os incautos ou a farsa dos “comerciais” do ar do tempo (a minha avó chamava-lhes vendilhões). Não é nem foi certamente o mais grave do partido de extrema-direita no propósito encapotado de nos atirar continuamente e consistentemente para o caos civilizacional, social e económico.
Quando surgiram as acusações graves de dentro da própria PSP contra os agentes policiais nos casos dos maus-tratos, violações e torturas, André Ventura correu para a defesa corporativa, atacando o ministro da Administração Interna, Luís Neves, mesmo antes de querer perceber os factos. A obsessão de populismo extremado é recorrente: transformar instituições em trincheiras emocionais e substituir a justiça por propaganda. Nada disto é acidental ou sequer novidade. André Ventura fez parecido logo depois da morte de Odair Moniz. O Chega vive da fabricação permanente não só de ódio, mas também da descapitalização institucional e de inimigos. Imigrantes, ciganos, jornalistas, tribunais e “elites.” Precisa disso para sobreviver e prosperar politicamente. De um país em caos permanente.
É quase escusado escrever que já o conseguiu e que essa contaminação produz efeitos profundos na sociedade portuguesa. O discurso de ódio contra imigrantes banalizou-se. O racismo tornou-se mais visível, mais agressivo e socialmente desbloqueado. Pessoas passaram a ser tratadas como ameaça pela origem e a cor da pele. E perante tudo isto, houve uma direita que escolheu o “cálculo” e silêncio. Porque os votos eram e são muitos. Pedro Passos Coelho e o passismo nunca quiseram admitir que Ventura esteve longe de ser um fenómeno de protesto. Era e é um acelerador da corrosão democrática. Um explorador de fraturas sociais de forma extremada e até ao limite. A tragédia do PSD foi achar que podia brincar com esta radicalização sem ser consumido por ela. Que podia usar o ressentimento popular como ferramenta tática, sem que legitimasse o ódio e a fragmentação institucional.
Não podia.
Hoje, o PSD parece encurralado entre duas identidades incompatíveis: a de partido fundador da democracia portuguesa e a de uma direita ansiosa por competir com o Chega no terreno do espetáculo raivoso e da desumanização. E foi aí que os passos se perderam.
Existem alturas em que a ambiguidade deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade histórica. O Chega não disse ao que vinha em abril deste ano e também não passou a ser absurdo aí. Mais visão, decência e coragem política não faziam mal ao País no tempo devido.
Até porque antigos primeiros-ministros, mas não só, podem e devem ser mais do que os tais simples comerciais do ar do tempo.
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