É coisa que se ouve em conversas de café, em jantares onde alguém comenta, entre o alarme e a piada, que já há ruas de Lisboa em que se fala mais inglês do que português. Este verão, também eu ouvi muito inglês e quase sempre à mesa. No Alentejo, encontrei casais norte-americanos no hotel onde fiquei e nos restaurantes por onde passei. No Porto, cruzei-me com grupos nas ruas e nos parques; numa quinta, vi-os encher as mesas das provas de vinhos. Em Setúbal, dei por mim a traduzir a conversa entre um peixeiro e um novo morador, acabado de chegar da Califórnia. A curiosidade por um país começa, muitas vezes, assim: com uma pergunta sobre o que se come.
Vivi em Miami, onde o inglês e o espanhol se cruzam todos os dias e a identidade parece estar em permanente negociação. Viajei de costa a costa, de norte a sul. Comi em diners de estrada, em restaurantes de autor e em casas de família. A gastronomia norte-americana é paradoxal: tanto é o império da padronização como um laboratório de invenção. É o país dos hambúrgueres e do frango frito produzidos à escala industrial, das batatas fritas sempre iguais e dos refrigerantes servidos em copos que mais parecem baldes. Mas é também um lugar onde cozinhas vindas de toda a parte encontraram público, espaço e novas possibilidades. Reduzi-la à fast food seria falhar o essencial da sua extraordinária capacidade de acolher e reinventar.
Na cozinha portuguesa, reconheço outra relação com a escala e com o tempo. Cozinhamos com a geografia, com o que a estação dá, com receitas herdadas. A cozinha de que sinto falta quando estou longe tem menos espetáculo e mais permanência. Numa dessas conversas, foi um norte-americano quem me vendeu Portugal: o mercado de Campo de Ourique, a comida, as praias e o Alentejo. Falava com entusiasmo do que eu conhecia, e senti orgulho ver alguém de fora a vender-me o meu país. Noutras viagens, ouvi razões diferentes para a mudança. Uma reforma mais confortável ou simplesmente o cansaço com o rumo político do seu país. Mas a comida voltava, inevitavelmente, à conversa. Poder comprar peixe fresco todos os dias, encontrar fruta com sabor da estação, saber de onde vinha o que chegava à mesa. Alguns chamaram-lhe comida “de verdade”. Procuram uma proximidade que sentem ter perdido.

Dizem que estamos a ser invadidos. Eu diria antes que estamos a ser escolhidos. E a nossa mesa também está a mudar. Multiplicam-se os brunches iguais aos de qualquer cidade, como se fossem saídos da mesma forma, e multiplicam-se conceitos de refeições despachadas, sem tempo nem atenção. É aqui que o encontro entre as duas culturas me parece mais interessante.
Nos Estados Unidos, impressiona-me a capacidade de transformar uma ideia num negócio, de organizar o serviço e de dar visibilidade a uma cozinha. Podemos aprender com essa ambição. Em Portugal, temos a sazonalidade e a ligação ao território que nem sempre sabemos valorizar. E essa riqueza, convenhamos, só dura enquanto fizer parte da vida de todos os dias. Estas diferenças não cabem por inteiro num mapa. Há quem preserve tradições nos Estados Unidos e quem uniformize sabores em Portugal. Ambas as cozinhas se fizeram também de influências vindas de fora. A questão, no fundo, é o que fazemos com elas.
Se alguém se instala em Setúbal e passa a comprar no mercado do bairro, o peixeiro ganha um cliente e quem chega ganha uma relação com o lugar. O risco começa quando mudamos tanto a mesa para agradar a quem vem que acabamos por lhe retirar precisamente aquilo que o trouxe até cá. A verdadeira ameaça não é a presença de norte-americanos. É, isso sim, a nossa eventual vontade de os imitarmos sem critério. Dizem por aí que estamos a ser invadidos. Eu prefiro dizer que estamos a dialogar. E, como em qualquer diálogo maduro, ambos podemos sair maiores, desde que nenhum de nós abdique daquilo que o torna singular.