A distribuidora aconselhou-nos a evitar referências ao fim do mundo, ao apocalipse e, sobretudo, a não revelar a viragem que altera completamente o filme. A minha primeira crítica ficou, por isso, mais contida e bastante menos elogiosa do que Digger, de Alejandro G. Iñárritu, com Tom Cruise, merecia. Mea culpa. Agora que o filme se estampou nas bilheteiras, dividiu violentamente a crítica e obrigou a Warner a transformar o desastre comercial numa espécie de provocação publicitária, acabou-se a prudência.
Digger é, para mim, o melhor filme desta temporada. O mais oportuno, o mais inteligente, o mais louco e talvez também o mais mal compreendido. Chega quando o petróleo voltou ao centro da geopolítica, Ormuz mede a temperatura da ansiedade mundial e o Brasil saiu da primeira volta presidencial ainda mais polarizado. O planeta real parece trabalhar para Iñárritu. Mesmo assim, o filme abriu com cerca de 20 milhões de dólares em todo o mundo — oito na América do Norte e 12 nos mercados internacionais —, números desastrosos para uma produção desta dimensão e com Tom Cruise no cartaz. As críticas oscilaram entre a admiração e o pelotão de fuzilamento: “pretensioso”, “insuportável”, “histérico”, “excessivo”. O dicionário esgotou-se depressa. Iñárritu respondeu que prefere reações fortes à indiferença. Tem razão. Pior do que ser odiado seria Digger passar despercebido. E, pelas reações, não passou.
Quero lá saber da bilheteira. E dos Oscars. E até da crítica e contra mim falo. Se vierem os prémios, ótimo. Se não vierem, o filme continuará exatamente no mesmo sítio. Um grande filme não melhora porque recebe uma estatueta dourada ou porque a crítica decide marchar toda na mesma direção, nem piora porque o público escolheu a sala ao lado.
O filme que não podíamos contar
Escrever sobre Digger sem spoilers é escrever sobre metade do filme. E, provavelmente, sobre a metade menos interessante. Durante boa parte da narrativa, Tom Cruise parece interpretar Digger Rockwell, magnata do petróleo responsável por desencadear uma catástrofe climática depois da explosão de uma plataforma na Gronelândia. O mundo aproxima-se do colapso e Cruise, numa transformação física que finalmente não tenta fazê-lo parecer vinte anos mais novo, diverte-se a destruir a própria imagem de estrela imortal. Só que Digger Rockwell não é exatamente Digger Rockwell.
Cruise interpreta Curtis Markson, um ator veterano que representa Rockwell numa peça montada décadas depois da catástrofe global. Chama-se Fossil Fools, é encenada por Hannah, interpretada por Sophie Wilde, e financiada por Kenny, sobrinho do magnata, interpretado por Jesse Plemons. Aquilo que julgávamos ser um filme-catástrofe ou uma simples mensagem ecologista contra os combustíveis fósseis transforma-se num filme sobre a representação da catástrofe, a culpa, a manipulação da realidade e aquilo que a arte consegue — ou não — fazer quando a realidade já ultrapassou a ficção. É aqui que Digger deixa de ser apenas interessante e explode verdadeiramente como uma grande obra cinematográfica.
Iñárritu não fez apenas uma sátira às alterações climáticas, ao capitalismo petrolífero, à estupidez política ou ao nosso apetite pelo consumo. Isso seria relativamente básico e, sobretudo depois de Não Olhem para Cima (2021), de Adam McKay, nem sequer muito novo. Fez algo bastante mais arriscado, desafiante e provocador: uma sátira à própria sátira. Um filme que desconfia do poder moral do cinema enquanto usa o próprio cinema para nos obrigar a desconfiar dele.
Fossil Fools é deliberadamente uma má peça de teatro. Grosseira, excessiva, esquemática. O Presidente dos Estados Unidos, interpretado por John Goodman, parece uma caricatura deixada demasiado tempo ao sol; os militares comportam-se como gorilas com acesso ao botão nuclear. Isto lembra-nos alguma coisa. Muitos críticos concluíram, então, que o próprio filme era grosseiro. Pois. Talvez convenha reparar que estamos a ver uma peça grosseira dentro de um filme que discute precisamente as razões pelas quais ela foi construída dessa maneira.
Curtis recusa-se, aliás, a transformar Rockwell num palhaço texano criado apenas para confirmar aquilo que o público já pensa. O verdadeiro Rockwell, insiste, seria muito mais perigoso por ser mais complexo: inteligente, magnético, assustador, capaz até de dizer algumas verdades no meio de muitas mentiras. Quando devolve ao público parte da responsabilidade — o petróleo alimenta carros, aviões, plásticos, conforto e a possibilidade de receber em dois dias uma porcaria de que ninguém precisa —, o filme abandona a facilidade da caça ao bilionário malvado e destruidor do ambiente. Porque o dedo deixa de apontar apenas para cima. Vira-se para nós.
Tom Cruise sem superpoderes
Digger é também um extraordinário filme sobre o próprio Tom Cruise. Durante décadas habituamo-nos a vê-lo correr, saltar de aviões, pendurar-se em arranha-céus e fazer da recusa do envelhecimento quase um género cinematográfico. Iñárritu faz exatamente o contrário: pega numa das maiores estrelas de ação do planeta, envelhece-a, torna-a ridícula, vaidosa e impotente e, depois, revela-nos um ator a interpretar esse homem.
Não direi, como talvez já tenha dito, que seja a melhor interpretação da carreira de Cruise. Mas está seguramente entre as melhores. A prótese, a voz, os tiques, a vulgaridade estudada, aquela arrogância que oscila entre o cómico e o ameaçador: tudo podia descambar em cabaret. Não descamba porque Cruise percebe que o excesso não é um acidente. É o método. E o método é essencial para perceber a personagem e o filme.
O diretor de fotografia Emmanuel Lubezki filma esta loucura com o virtuosismo e a vertigem que sempre dividiram opiniões sobre Iñárritu. Rodado em VistaVision, Digger tem profundidade, escala e uma espécie de majestade terminal. O mundo pode estar a acabar, mas acaba lindamente. Outra provocação.
O centro do filme, porém, cabe numa pergunta minúscula: “E agora?”
Kenny, o sobrinho, lança-a no meio da discussão entre Curtis e Hannah, quando a peça já se transformou num tribunal estético e moral. Sátira? Farsa? Drama? Propaganda? Vingança? Talvez seja tudo isso. Talvez nenhuma dessas etiquetas interesse assim tanto. E agora?
A pergunta vale mais do que vinte discursos pomposos e bem-intencionados sobre o clima. Sabemos que o planeta está em risco. Sabemos que o sistema económico tem responsabilidades. E sabemos igualmente que gostamos bastante das comodidades produzidas pelo mesmo sistema que condenamos durante um jantar entre amigos cool. Digger não perde muito tempo a explicar-nos aquilo que já sabemos. Prefere perguntar o que fazemos depois de o saber. A resposta não é simpática. Fazemos uma peça. Compramos um bilhete para a peça. Rimo-nos. Aplaudimos. Sentimo-nos esclarecidos. Voltamos para casa.
Quando toca o alarme
O final é magnífico porque destrói a última ilusão de grandeza da arte. Curtis acaba por representar Rockwell como a caricatura que durante todo o tempo rejeitara. O público adora a peça. Levanta-se, aplaude, vibra. A catarse está servida, o vilão foi identificado, a culpa arrumada no sítio certo e todos podem sentir-se moralmente superiores durante alguns minutos. Então toca um alarme. O mundo real continua lá fora. Os espectadores colocam máscaras de gás e abandonam o teatro.
É difícil encontrar imagem mais feroz para aquilo que Iñárritu está a dizer. A arte não salva o planeta. O cinema não interrompe guerras, não faz baixar o preço do petróleo, não reforma presidentes nem substitui decisões políticas. Pode organizar o medo, provocar-nos, emocionar-nos e oferecer duas horas durante as quais fingimos compreender o caos. Depois acendem-se as luzes.
Talvez seja precisamente por isso que Digger irrita tanta gente e, ao mesmo tempo, poderá fascinar muitas outras. Não oferece ao espectador a posição confortável de quem já percebeu tudo. Também fazemos parte da máquina. Também consumimos o espetáculo e apreciamos bastante que uma narrativa reduza a complexidade do mundo a um culpado com bom guarda-roupa, muito dinheiro e péssimas maneiras.
Existe ainda uma ironia quase perfeita no facto de um filme sobre a incapacidade da arte para comunicar uma catástrofe ter fracassado espetacularmente a comunicar com o público. Digger poderá perder uma fortuna no box office, desaparecer demasiado depressa das salas e ficar pelo caminho nos Óscares. Daqui a alguns anos, talvez muita gente descubra aquilo que já estava diante dela desde o princípio e lhe chame “filme de culto”, essa maneira particularmente elegante de admitir que se chegou atrasado. Prefiro não esperar. Vejam primeiro, discutimos depois
Digger é excessivo? Claro. Pretensioso? Talvez. E ainda bem. Desigual? Em alguns momentos. Mas o cinema que arrisca ser ridículo interessa-me infinitamente mais do que aquele que passa duas horas a garantir que ninguém se perde, ninguém se irrita e toda a gente sai da sala a pensar exatamente o mesmo que pensava quando entrou.
Iñárritu fez um objeto gigantesco, arrogante, visualmente prodigioso e intelectualmente provocador sobre o clima, o poder, o consumo, a culpa, o espetáculo e, sobretudo, os limites da arte perante aquilo que ela não consegue mudar. Uma verdadeira obra de arte cinematográfica que prefere correr o risco do desastre a contentar-se com a mediania bem-comportada de uma Hollywood cada vez mais treinada para não assustar investidores, algoritmos ou espectadores.
E Tom Cruise, aos 64 anos, percebeu talvez que o melhor truque desta fase da carreira já não seja agarrar-se à fuselagem de um avião, conduzir uma mota por uma ravina ou provar-nos que continua indestrutível. É deixar que um realizador lhe arranque pela raiz a imagem de herói e mostrar que, por baixo da estrela, continua a existir um ator disposto a correr riscos. Por isso, esqueçam durante duas horas os 20 milhões da estreia, os milhões que a Warner poderá perder, as classificações dos sites, as guerras da crítica e a corrida aos Oscars. Nenhum desses números estará no ecrã quando as luzes da sala se apagarem. Vão ver Digger. Depois digam-me que estou enganado.
Mas vejam-no primeiro.